Musculação: estudo investigou mudanças no tecido adiposo antes que a perda de peso aparecesse na balança (Freepik)
Redatora
Publicado em 26 de setembro de 2026 às 07h00.
A musculação pode provocar mudanças nas células de gordura antes mesmo de aparecer qualquer redução de peso na balança. Em um estudo com camundongos obesos, apenas sete dias de treinamento de força foram suficientes para ativar mecanismos ligados à quebra de gordura e reduzir o tamanho das células adiposas.
O experimento, realizado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e publicado na revista científica Life Sciences, também identificou uma redução da gordura localizada ao redor do intestino dos animais. O peso corporal total, porém, não diminuiu durante o período analisado.
Os testes foram realizados com camundongos machos. Parte dos animais recebeu alimentação convencional, enquanto outro grupo consumiu uma dieta rica em gordura para desenvolver obesidade.
Depois, os camundongos obesos foram divididos entre sedentários e aqueles submetidos ao treinamento de força. Todos continuaram recebendo a mesma alimentação durante o experimento.
Para simular a musculação, os animais precisavam subir uma escada de 70 centímetros com uma carga presa à cauda. Cada sessão teve 20 subidas, com intervalos entre 60 e 90 segundos e esforço equivalente a 70% da capacidade máxima. Ao todo, foram realizadas sete sessões.
O objetivo desse período curto era observar os efeitos do exercício antes da perda de peso. Dessa forma, os pesquisadores conseguiram analisar mudanças associadas diretamente ao treinamento.
As análises se concentraram no tecido adiposo mesentérico, gordura localizada ao redor dos intestinos. Nos seres humanos, esse tecido representa a chamada gordura visceral, encontrada profundamente no abdômen e entre os órgãos.
Após as sete sessões, os camundongos treinados apresentaram menos gordura nessa região em comparação aos animais obesos sedentários. Também houve redução no tamanho dos adipócitos, células responsáveis por armazenar gordura.
Quando essas células aumentam excessivamente de tamanho, podem sofrer estresse e liberar substâncias inflamatórias na circulação. Por isso, os pesquisadores investigaram o que havia mudado dentro delas após o treinamento.
A obesidade havia prejudicado a atividade de proteínas importantes para a lipólise, processo que quebra a gordura armazenada para que ela possa ser utilizada como fonte de energia. Após sete sessões de musculação, parte desse mecanismo voltou a funcionar.
Entre as proteínas analisadas estavam PLIN1, ABHD5 e ATGL. Elas participam de diferentes etapas que controlam o armazenamento e a quebra dos triglicérides dentro das células adiposas.
De maneira simplificada, durante o estímulo provocado pelo exercício, a PLIN1 sofre uma alteração que libera a ABHD5. Essa proteína consegue então se ligar à ATGL, enzima envolvida no início da quebra da gordura armazenada.
Nos camundongos obesos sedentários, a quantidade de ABHD5 estava reduzida. Com o treinamento, aumentou a interação entre ABHD5 e ATGL, além da atividade de outros marcadores relacionados à lipólise.
O experimento identificou outra alteração relacionada ao metabolismo da gordura. Os pesquisadores observaram redução na expressão do gene Scd1, envolvido na produção de moléculas de gordura.
O resultado sugere que, além de favorecer mecanismos responsáveis pela quebra da gordura existente, o treinamento reduziu a atividade de uma via associada ao seu armazenamento no tecido adiposo.
Essas alterações ocorreram mesmo sem redução do peso corporal dos animais durante os sete dias analisados.
Os pesquisadores ressaltam que os resultados são experimentais e não significam que sete dias de musculação provoquem os mesmos efeitos em pessoas. O trabalho foi realizado apenas com camundongos machos e analisou um único depósito de gordura. A equipe também concentrou as análises em genes, proteínas e sinais moleculares ligados à quebra de gordura.
Os próximos estudos deverão acompanhar períodos mais longos de treinamento para descobrir como essas alterações evoluem quando começa a ocorrer perda de peso. A equipe também pretende investigar outros depósitos de gordura, incluindo o tecido localizado ao redor do coração.