Ciência

Cientistas descobrem 'vício em energia' de células que impulsionam câncer no sangue

- Experimentos com células de pacientes e modelos animais revelaram uma vulnerabilidade que poderá orientar futuras terapias

Câncer no sangue: pesquisadores identificaram vulnerabilidade metabólica em células-tronco da doença (Freepik)

Câncer no sangue: pesquisadores identificaram vulnerabilidade metabólica em células-tronco da doença (Freepik)

Publicado em 5 de outubro de 2026 às 10h00.

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Cientistas descobriram uma vulnerabilidade nas células-tronco responsáveis por impulsionar um tipo de câncer no sangue que pode evoluir para leucemia. A fragilidade está relacionada à dependência incomum de uma molécula envolvida na produção de energia celular.

Pesquisadores da Universidade do Colorado Anschutz descrevem essa característica como uma espécie de "vício em energia". Ao interromper essa via metabólica, a equipe conseguiu enfraquecer seletivamente células ligadas à síndrome mielodisplásica (SMD) de alto risco. Já as células-tronco saudáveis formadoras do sangue apresentaram maior capacidade de adaptação.

Os resultados, publicados na revista científica Blood Cancer Discovery, foram obtidos em experimentos com células derivadas de pacientes e modelos animais. A estratégia ainda precisará ser investigada em estudos clínicos antes de qualquer possível aplicação em pacientes.

O que é a síndrome mielodisplásica?

As síndromes mielodisplásicas são cânceres que afetam a capacidade da medula óssea de produzir células sanguíneas saudáveis. Pessoas com a doença podem apresentar anemia grave, infecções frequentes e necessidade de transfusões de sangue repetidas.

Nos casos de alto risco, a doença também pode evoluir para leucemia mieloide aguda (LMA), uma forma agressiva de câncer no sangue.

A SMD ocorre principalmente em adultos mais velhos. Nos Estados Unidos, entre 10 mil e 20 mil pessoas são diagnosticadas com a doença a cada ano. Na SMD de alto risco, células-tronco geneticamente alteradas deixam de produzir adequadamente as células necessárias ao funcionamento do organismo.

Em vez disso, dão origem a células sanguíneas anormais, incapazes de exercer normalmente funções como transportar oxigênio, formar coágulos e combater infecções.

Qual é o 'vício em energia' das células cancerígenas?

Os pesquisadores buscaram diferenças biológicas entre células-tronco da SMD e células-tronco saudáveis responsáveis pela formação do sangue. A análise revelou uma dependência elevada do dinucleotídeo de nicotinamida e adenina, conhecido pela sigla NAD.

A molécula desempenha papel essencial em processos relacionados à produção de energia pelas células. As células-tronco da SMD dependiam especialmente da chamada via de recuperação do NAD, mecanismo que permite reciclar componentes e manter o suprimento da molécula.

Segundo os pesquisadores, essas células parecem utilizar NAD em uma taxa muito maior que as células normais. Essa dependência cria justamente a vulnerabilidade identificada no estudo.

Bloqueio colocou células da doença em crise energética

Dentro da via de recuperação do NAD, uma enzima chamou a atenção dos pesquisadores: a nicotinamida fosforibosiltransferase, ou NAMPT. A equipe bloqueou a atividade da NAMPT para verificar como as células responderiam à redução dos níveis de NAD.

Com a queda do NAD disponível, as células-tronco ligadas à SMD entraram em uma espécie de crise energética e foram enfraquecidas. Já as células-tronco saudáveis formadoras do sangue demonstraram maior capacidade de adaptação a outras formas de produzir e administrar energia.

Essa diferença levanta a possibilidade de explorar a dependência metabólica para atingir preferencialmente as células que impulsionam a doença. Experimentos com células derivadas de pacientes e modelos animais também mostraram que interferir no metabolismo do NAD reduziu a quantidade de células-tronco responsáveis pela SMD.

Vulnerabilidade pode abrir caminho para novos tratamentos

Os resultados colocam a NAMPT como um possível alvo para futuros medicamentos, mas a estratégia ainda está em fase experimental.

Os pesquisadores planejam investigar medicamentos direcionados à NAMPT em estudos clínicos envolvendo pessoas com síndrome mielodisplásica e outros cânceres do sangue.

A proposta é explorar a diferença metabólica entre células doentes e saudáveis para desenvolver terapias capazes de atingir com maior precisão as células responsáveis pela doença.

Os resultados atuais, porém, não demonstram que bloquear essa via seja seguro ou eficaz em pessoas. Estudos clínicos serão necessários para determinar se a vulnerabilidade identificada poderá ser explorada no tratamento da doença.

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