ESG

Parceiro institucional:

logo_pacto-global_100x50

Cada 1°C a mais de temperatura aumenta em 5% o risco de parto prematuro, alerta ONU

Às vésperas da COP31, Simon Stiell alerta que a gestação virou a “nova linha de vulnerabilidade” da crise climática; 73% dos profissionais veem mais complicações pelo calor extremo

ONU alerta que crise climática amplia desigualdades e aumenta riscos para mulheres com menor acesso a refrigeração e serviços de saúde (Imagem gerada por IA/EXAME)

ONU alerta que crise climática amplia desigualdades e aumenta riscos para mulheres com menor acesso a refrigeração e serviços de saúde (Imagem gerada por IA/EXAME)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 5 de outubro de 2026 às 16h00.

Última atualização em 5 de outubro de 2026 às 17h47.

Priorizar nos meus resultados Google

“Um teste profundo da ação climática é muito simples: saber se protegemos a vida em seu momento de maior fragilidade”.

Foi com essa declaração que Simon Stiell, secretário-executivo da ONU para Mudanças Climáticas, apresentou nesta segunda-feira, 5, um novo alerta sobre uma das faces mais humanas da crise do clima: os riscos do calor extremo para gestantes e bebês.

A cada 1°C de aumento da temperatura, há um crescimento de 5% nos partos prematuros e de 7% nos casos de diabetes gestacional, segundo dados da fundação de saúde Wellcome. O avanço do calor também está associado a natimortos, baixo peso ao nascer e complicações maternas.

O discurso foi feito durante a Pré-COP, em Fiji, última grande reunião ministerial antes da COP31, em Antalya, na Turquia. Stiell usou o encontro para defender que a saúde materna e neonatal passe a fazer parte dos planos de adaptação climática dos países.

“Temperaturas mais altas significam riscos maiores durante a gravidez”, afirmou.

Os números apresentados pela ONU fazem parte de uma nova iniciativa da Wellcome sobre calor extremo e gravidez.

A organização também divulgou uma pesquisa inédita com 1.000 profissionais de saúde que atuam com gravidez, parto, pós-parto e cuidados neonatais em cinco países: Brasil, Austrália, Índia, Reino Unido e Zimbábue.

O levantamento revelou que 73% deles perceberam aumento de casos ou complicações relacionados ao calor entre gestantes nos últimos cinco anos.

Outros 81% estão preocupados ou muito preocupados com o risco crescente do calor extremo para a saúde materna, fetal e neonatal caso não sejam adotadas novas medidas.

A exposição ao problema já aparece de forma quase generalizada na rotina dos profissionais: 98% disseram ter atendido uma gestante cuja saúde acreditavam ter sido prejudicada pelo calor extremo, enquanto 99% já haviam cuidado de um bebê afetado pela condição.

“O quadro é claro e muito preocupante: à medida que o aquecimento global se agrava, a gravidez e o parto se tornam uma nova linha de vulnerabilidade na crise climática global — e uma que pode ser fatal”, destacou Stiell.

Calor também amplia desigualdades

O alerta da ONU vai além dos efeitos da alta dos termômetros. Para Stiell, a crise também expõe uma desigualdade de acesso à proteção climática.

Gestantes que trabalham ao ar livre, vivem em moradias pouco preparadas para temperaturas extremas, precisam percorrer grandes distâncias até unidades de saúde ou dependem de hospitais sem acesso adequado a água, energia e refrigeração estão entre as mais vulneráveis.

“‘Manter-se fresco’ simplesmente não é uma opção quando não há um lugar fresco para onde ir”, afirmou Stiell.

Segundo o secretário, um parto seguro já é frequentemente condicionado por fatores como renda, localização geográfica e acesso aos serviços de saúde, e o avanço do calor pode aprofundar essas diferenças.

“Sem ação, ampliaremos a injustiça. Não podemos permitir que o agravamento dos impactos climáticos se transforme em uma armadilha permanente para maternidades e famílias em todo o mundo”, acrescentou. 

A Wellcome também aponta que os sistemas de saúde ainda não acompanham a velocidade do problema. Na pesquisa, 92% dos profissionais disseram querer mais treinamento, orientação e recursos para proteger gestantes durante episódios de calor extremo.

Três frentes da ação climática

Stiell defendeu três frentes de ação. A primeira é incorporar explicitamente gestantes e recém-nascidos aos planos nacionais de adaptação climática, saúde e enfrentamento ao calor.

“O que não é mencionado em um plano, com frequência, não recebe financiamento, não é medido e não é protegido”, afirmou.

A segunda envolve transformar o conhecimento científico em medidas práticas, como alertas de calor, treinamento de profissionais, unidades de saúde mais seguras e acesso confiável a água, energia e refrigeração.

A terceira é ampliar a coleta e análise de dados para identificar onde os riscos estão crescendo, quais comunidades estão mais expostas e quais intervenções funcionam.

Para o secretário-executivo, a resposta também passa pelo financiamento climático. Ele cobrou a implementação da triplicação dos recursos para adaptação acordada na COP30, em Belém, e citou a necessidade de mobilizar US$ 1,3 trilhão por ano para nações em desenvolvimento.

Pré-COP leva debate climático ao Pacífico

O discurso ocorreu no primeiro dia da Pré-COP31, realizada de 5 a 8 de outubro em Fiji, com a participação de ministros e representantes de mais de 50 países. O encontro é uma das principais etapas de preparação política e diplomática para a COP31, em novembro, na Turquia. 

Paralelamente, Tuvalu recebe um encontro de líderes nos dias 5 e 6 de outubro. A escolha do Pacífico coloca no centro das discussões países que estão entre os mais expostos aos efeitos das mudanças climáticas, especialmente à elevação do nível do mar e aos eventos extremos.

Entre as prioridades da Pré-COP estão manter a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C ao alcance, acelerar a transição para energia limpa, ampliar o financiamento e fortalecer a resiliência climática.

No último alerta, a ONU mostrou que o planeta caminha para superar a meta do Acordo de Paris nos próximos anos, mas afirma que ação rápida pode limitar impactos e reverter trajetória de aquecimento. Agora, a corrida é para limitar os danos. 

É nesse contexto que a saúde ganhou espaço. O chefe da ONU defendeu que a proteção de gestantes e bebês deixe de ser tratada como uma consequência periférica da crise em curso e passe a integrar as políticas públicas. 

“Uma mudança no clima jamais deve ser aceita como razão para que a gravidez e o parto se tornem menos seguros”, afirmou. “O início saudável da vida de um recém-nascido jamais deve depender da capacidade de uma família de escapar do calor", concluiu. 

Acompanhe tudo sobre:ESGSustentabilidadeClimaMudanças climáticasSaúdeGravidezCOP31

Mais de ESG

Abertura de mercado de energia exigirá criatividade, comunicação e transparência

Guia Mol de Produtos Sociais premia Natura, Reserva e Copacol em quinta edição

Clima fica fora da urna: apenas 3% dos candidatos abordam mudanças climáticas na campanha eleitoral

Grupo Boticário reforça circularidade e transição climática na Semana do Clima de Nova York