Células T: pesquisadores da UCLA desenvolveram uma estratégia para produzir células imunológicas direcionadas contra tumores sólidos (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)
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Publicado em 14 de setembro de 2026 às 09h00.
Células-tronco obtidas do sangue do cordão umbilical foram transformadas em células de defesa capazes de reconhecer e atacar diferentes tumores sólidos. Em camundongos, uma única dose controlou o crescimento do câncer e prolongou a sobrevida dos animais.
A estratégia foi desenvolvida por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e descrita em estudo publicado na revista Cell Reports Medicine. A equipe busca criar uma terapia celular contra o câncer que possa ser produzida antecipadamente, congelada e disponibilizada quando necessária.
A técnica parte de células-tronco sanguíneas do cordão umbilical, capazes de dar origem a diferentes tipos de células do sangue e do sistema imunológico.
Os pesquisadores modificaram geneticamente essas células para incluir um receptor capaz de reconhecer a NY-ESO-1, proteína encontrada em diversos tumores sólidos. Depois, induziram as células-tronco a se desenvolverem em células T maduras no laboratório.
As células T fazem parte do sistema imunológico e podem identificar e destruir células consideradas uma ameaça ao organismo. Na nova abordagem, elas são direcionadas especificamente para reconhecer sinais associados ao câncer. A equipe chamou as células produzidas dessa maneira de AlloESO-T.
Atualmente, algumas terapias com células T precisam ser produzidas individualmente a partir das células de cada paciente. Esse processo pode levar semanas e custar centenas de milhares de dólares.
Uma alternativa é utilizar células T de doadores saudáveis para fabricar tratamentos antecipadamente. O problema é que essas células podem reconhecer os tecidos do paciente como estranhos e atacá-los, provocando a chamada doença do enxerto contra o hospedeiro.
A equipe da UCLA tentou contornar esse problema começando o processo em uma etapa anterior, com células-tronco ainda indiferenciadas. O receptor direcionado ao câncer é introduzido antes que elas se transformem em células T maduras. Com isso, as células resultantes carregam o mesmo receptor e são direcionadas ao mesmo alvo tumoral.
Segundo os pesquisadores, a estratégia pode reduzir o risco de as células reconhecerem e atacarem tecidos saudáveis, além de dispensar etapas adicionais de edição genética utilizadas em abordagens com células T maduras de doadores.
Outro desafio das terapias direcionadas é a diversidade encontrada dentro de um mesmo tumor. Algumas células cancerígenas podem deixar de apresentar o marcador utilizado pelo tratamento para identificá-las, fenômeno conhecido como escape antigênico.
Para tentar contornar esse problema, as células AlloESO-T receberam dois mecanismos para detectar o câncer. Além do receptor direcionado à NY-ESO-1, elas mantêm receptores de células natural killer, ou NK, capazes de reconhecer sinais de estresse apresentados por diferentes células tumorais.
Nos experimentos de laboratório, esse segundo mecanismo permitiu atacar células humanas de melanoma, câncer de ovário e câncer de próstata que não eram eliminadas apenas pelo reconhecimento da NY-ESO-1.
Os pesquisadores também avaliaram a estratégia em modelos animais de câncer de ovário e melanoma. Nos camundongos com câncer de ovário, uma única aplicação das células AlloESO-T proporcionou controle prolongado do tumor e aumentou a sobrevida.
As células também se multiplicaram cerca de 100 vezes após a infusão, migraram para os tumores e permaneceram ativas durante semanas. Segundo o estudo, elas evitaram em grande parte os órgãos saudáveis.
Já células T produzidas de maneira convencional a partir de células maduras de doadores apresentaram controle parcial dos tumores e provocaram doença do enxerto contra o hospedeiro.
No modelo de melanoma, as AlloESO-T também retardaram o crescimento do tumor e atrasaram o retorno da doença.
A possibilidade de produzir as células em grande escala é outro ponto investigado pela equipe. Segundo os pesquisadores, uma pequena quantidade de células-tronco do sangue do cordão umbilical pode gerar trilhões de células terapêuticas em aproximadamente seis semanas, quantidade potencialmente suficiente para milhares de doses.
A equipe estima um custo de aproximadamente US$ 5 mil por dose caso a plataforma possa ser desenvolvida como previsto. O valor ainda é uma estimativa e não corresponde ao preço de um tratamento disponível no mercado.
Os pesquisadores também avaliam que a plataforma poderia ser adaptada para outros alvos. Se um receptor contra determinado antígeno tumoral já tiver sido validado, ele poderia, em princípio, ser incorporado ao sistema para produzir células T direcionadas a esse alvo.
Antes disso, porém, a segurança e a eficácia da estratégia precisarão ser avaliadas em ensaios clínicos com seres humanos.