Ciência

Calendário de 364 dias pode explicar mistério dos Manuscritos do Mar Morto

Pesquisadores propõem que antigo calendário de 364 dias foi usado pela seita de Qumran, mas acabou abandonado após se afastar das estações do ano

Manuscritos do Mar Morto: estudo propõe nova explicação para o calendário de 364 dias da seita de Qumran (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Manuscritos do Mar Morto: estudo propõe nova explicação para o calendário de 364 dias da seita de Qumran (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Publicado em 26 de setembro de 2026 às 04h32.

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Um mistério envolvendo os Manuscritos do Mar Morto pode ter ganhado uma nova explicação. Pesquisadores Universidade de Tel Aviv propõem que a comunidade de Qumran realmente utilizou seu peculiar calendário de 364 dias, mas acabou abandonando o sistema após ele se distanciar progressivamente das estações do ano.

Há décadas, estudiosos discutem se esse calendário foi usado na prática ou se representava apenas um ideal religioso. O novo estudo, publicado no periódico Tarbiz Quarterly for Jewish Studies, sugere que as duas interpretações podem estar parcialmente corretas.

Segundo a hipótese apresentada, a comunidade teria adotado o calendário durante seu período inicial, no século II a.C. Com o passar das décadas, problemas astronômicos e mudanças políticas podem ter contribuído para seu abandono.

Como funcionava o calendário de 364 dias

O calendário de Qumran era diferente do sistema lunissolar que orientava a vida religiosa judaica durante o período do Segundo Templo.

O ano tinha exatamente 364 dias, número que pode ser dividido igualmente por sete. Isso resultava em 52 semanas completas e fazia com que as festividades religiosas ocorressem sempre nos mesmos dias da semana. Para os integrantes da comunidade de Qumran, essa organização representava um sistema divino perfeito.

O calendário também tinha importância política e religiosa. As autoridades do Templo de Jerusalém determinavam datas importantes pelo calendário vigente, enquanto a comunidade de Qumran rejeitava a ideia de que líderes humanos deveriam ter esse poder.

Seus integrantes acreditavam que as datas haviam sido estabelecidas por Deus durante a Criação do mundo e, portanto, não deveriam ser modificadas pelas pessoas.

O problema do calendário de Qumran

A mesma característica que tornava o calendário organizado também criava um problema prático. Um ano de 364 dias é cerca de um dia e um quarto mais curto que o ano astronômico, de aproximadamente 365 dias. A diferença se acumulava com o passar do tempo.

Após 20 anos sem correções, as festividades religiosas ficariam deslocadas em quase quatro semanas em relação às estações. Depois de várias décadas, uma celebração associada à primavera poderia ocorrer no inverno ou até no outono.

Isso representava um problema para uma comunidade cujas festas religiosas estavam relacionadas à agricultura, às colheitas, aos primeiros frutos e ao ciclo das estações.

O estudo sugere que algo semelhante pode ter acontecido com o calendário de Qumran. Apesar de sua organização matemática, o sistema teria se distanciado gradualmente do ciclo sazonal.

Calendário era usado ou apenas um ideal religioso?

Ao longo dos anos, pesquisadores apresentaram diferentes explicações para a questão. Uma delas propõe que a comunidade acrescentava periodicamente dias ou semanas para manter o calendário alinhado às estações. Outra considera que o sistema de 364 dias nunca foi destinado ao uso cotidiano e funcionava apenas como uma estrutura religiosa idealizada.

A pesquisadora Eshbal Ratzon, da Universidade de Tel Aviv, argumenta que os Manuscritos do Mar Morto não oferecem apoio claro a nenhuma dessas duas explicações. Ratzon aponta, porém, evidências de que o calendário tinha importância para a identidade religiosa da comunidade e fazia parte de suas divergências com as autoridades religiosas de Jerusalém.

Quase 20 manuscritos encontrados em Qumran abordam calendários e astronomia, quantidade que, segundo o estudo, indica a importância desses assuntos para o grupo.

O Livro dos Jubileus, uma das obras preservadas na biblioteca de Qumran, critica o calendário lunar vigente e apresenta o sistema de 364 dias como o calendário original entregue a Moisés no Monte Sinai.

Calendário pode ter sido usado no século II a.C.

Com base nessas evidências, Ratzon propõe que a comunidade de Qumran utilizou o calendário de 364 dias durante seu período de formação, no século II a.C.

Segundo o estudo, a disputa sobre a maneira como o tempo sagrado deveria ser medido pode ter intensificado o conflito com os líderes religiosos de Jerusalém e contribuído para o isolamento do grupo. Com o passar das décadas, a crescente diferença entre o calendário e as estações teria se tornado mais difícil de ignorar.

As circunstâncias políticas também mudaram. As relações entre a comunidade de Qumran e a dinastia Hasmoneia melhoraram durante o reinado de Alexandre Janeu. Segundo o material, ele apoiava uma interpretação da lei religiosa semelhante à da comunidade e se opunha à liderança farisaica.

De acordo com o estudo, essa mudança política pode ter facilitado o abandono da posição anterior e a adoção do calendário utilizado no Templo.

Sistema pode ter se tornado um ideal religioso

O calendário de 364 dias não teria necessariamente desaparecido do pensamento religioso da comunidade após deixar de ser utilizado na prática.

Segundo a hipótese apresentada por Ratzon, ele pode ter sobrevivido como um sistema ideal, considerado válido durante a Criação do mundo e potencialmente destinado a retornar no Fim dos Tempos.

Essa interpretação, segundo o estudo, explicaria por que o calendário de 364 dias ocupa um espaço importante nos escritos de Qumran apesar de seu desaparecimento gradual da realidade histórica.

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