Ciência

No Egito, arqueólogos encontram 'porta para o além' que revela os segredos dos faraós

Tumba de Sekhentiu-Ptah, funcionário que ocupou cargos próximos à corte dos faraós, reúne inscrições, objetos funerários e pistas sobre a administração do Egito Antigo

Arqueólogos encontram tumba de alto funcionário egípcio com objetos funerários preservados em Saqqara (Ministério do Turismo e das Antiguidades do Egito/Divulgação)

Arqueólogos encontram tumba de alto funcionário egípcio com objetos funerários preservados em Saqqara (Ministério do Turismo e das Antiguidades do Egito/Divulgação)

Mateus Omena
Mateus Omena

Repórter

Publicado em 12 de setembro de 2026 às 04h30.

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Enquanto alguns governantes do Egito Antigo construíram grandes pirâmides como monumentos funerários, outros integrantes da elite escolheram estruturas mais discretas para seus sepultamentos. Mesmo menores, essas tumbas revelam detalhes sobre a organização política, religiosa e administrativa de uma das civilizações mais estudadas da história.

Uma dessas descobertas ocorreu em Saqqara, onde arqueólogos encontraram a tumba de Sekhentiu-Ptah, um alto funcionário egípcio que viveu há cerca de 4 mil anos, durante o período em que foram construídas as grandes pirâmides do Egito.

O achado foi anunciado pelo Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito e faz parte de uma escavação realizada na região do Bubasteion, uma área localizada a oeste da antiga necrópole de Mênfis, ao sul do Cairo. Em períodos posteriores, o local passou a ser associado ao culto da deusa-gata Bastet.

A pesquisa arqueológica seguiu procedimentos científicos que incluíram escavação estratigráfica, técnica que analisa as diferentes camadas de ocupação de um sítio, documentação arquitetônica e fotográfica, digitalização de objetos encontrados e estudos linguísticos das inscrições.

A coordenação do trabalho ficou sob responsabilidade de Hisham Al-Lithi, secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades do Egito.

A tumba do homem que guardava os segredos do faraó

As inscrições hieroglíficas encontradas no local permitiram identificar o proprietário da tumba e reconstruir parte de sua trajetória dentro da administração egípcia.

Segundo o Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito, Sekhentiu-Ptah ocupou cargos como camareiro real, supervisor das obras do rei, supervisor dos documentos reais, sacerdote da deusa Maat e chefe dos escribas.

Um dos títulos registrados na tumba foi traduzido como “guardião dos segredos dos decretos reais”. Apesar da expressão, pesquisadores indicam que o termo estava relacionado a uma função administrativa exercida por escribas que tinham acesso aos documentos produzidos pela corte.

Em entrevista ao portal Live Science, a egiptóloga Ann Macy Roth, da Universidade de Nova York, explicou que títulos semelhantes eram utilizados por funcionários responsáveis pelo registro e armazenamento de informações oficiais do governo.

Sekhentiu-Ptah viveu durante o Império Antigo, período que corresponde aproximadamente aos anos entre 2700 e 2200 a.C. A pesquisadora afirma que características arquitetônicas da estrutura indicam que a construção pertence ao final da 5ª dinastia ou ao início da 6ª dinastia, com cerca de 4.350 anos de existência.

A “porta falsa” que simbolizava a passagem para o além

Um dos elementos mais importantes encontrados na tumba é a chamada “falsa porta”, uma estrutura comum na arquitetura funerária egípcia. Apesar do nome, ela não funcionava como uma passagem física nem tinha relação com proteção contra invasores.

Para os antigos egípcios, a estrutura possuía uma função religiosa: representava um ponto de conexão entre o mundo dos vivos e o dos mortos, permitindo que o espírito do falecido recebesse oferendas e mantivesse contato simbólico com os familiares.

A tumba foi violada em algum momento da Antiguidade, mas arqueólogos encontraram objetos associados aos rituais funerários. Entre eles estavam uma mesa de oferendas, uma peça destinada ao ritual do qurban, termo relacionado a sacrifícios, uma bacia de purificação, um jarro e uma esteira com inscrições hieroglíficas.

A escavação também revelou três sarcófagos de pedra ainda lacrados desde a Antiguidade, uma escultura de madeira em formato de falcão e grandes quantidades de cartonagem funerária colorida.

A figura do falcão pode estar associada ao deus Hórus, uma das principais divindades do Egito Antigo, frequentemente representada com características dessa ave.

A múmia de Sekhentiu-Ptah, porém, ainda não foi encontrada. Segundo Ann Macy Roth, a tumba pode ter sido reutilizada por outros grupos ao longo dos séculos, uma prática comum no Egito Antigo. Essa possibilidade explicaria a presença de objetos funerários associados a diferentes indivíduos.

Saqqara continua revelando novos capítulos do Egito Antigo

Reconhecida como Patrimônio Mundial pela Unesco, Saqqara permanece como uma das principais áreas arqueológicas do Egito. A região começou a receber pesquisas sistemáticas no século 19 e continua sendo alvo de novas escavações.

A necrópole teve papel central durante o Império Antigo, quando recebeu sepultamentos de integrantes da realeza e da elite administrativa. O uso funerário do local continuou por milhares de anos e chegou até o período romano.

Em entrevista à revista Smithsonian Magazine, Campbell Price, curador das coleções de Egito e Sudão do Museu de Manchester, afirmou que Saqqara tinha grande importância simbólica para os antigos egípcios por representar um local associado ao caminho para o além.

O sítio arqueológico reúne diferentes estruturas, incluindo a Pirâmide de Degraus de Djoser e uma extensa área subterrânea dedicada ao sepultamento de animais.

Para o arqueólogo Magdy Shaker, em entrevista ao portal Al-Monitor, Saqqara concentra diferentes períodos da história egípcia, enquanto Gizé permanece mais associada às pirâmides construídas durante a 5ª dinastia.

As autoridades egípcias têm realizado investimentos para ampliar o acesso turístico à região. Mesmo com sua importância histórica, Saqqara continua recebendo menos visitantes internacionais do que as famosas pirâmides de Gizé.

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