Inteligência artificial: especialistas alertam para os riscos de terceirizar tarefas que exigem raciocínio e reflexão (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)
Redatora
Publicado em 26 de setembro de 2026 às 04h00.
O uso de ferramentas de inteligência artificial já faz parte da rotina de milhões de pessoas. Elas escrevem textos, resumem documentos, respondem perguntas e ajudam a resolver problemas em poucos segundos. Essa facilidade, porém, desperta uma preocupação entre especialistas sobre os efeitos da tecnologia no aprendizado e no pensamento crítico.
Uma análise publicada pela revista Nature reuniu pesquisas recentes e ouviu especialistas em educação e psicologia cognitiva para discutir o que já se sabe sobre o tema. As evidências disponíveis ainda são conflitantes, mas indicam caminhos para usar a tecnologia sem abandonar habilidades importantes para o raciocínio.
Grande parte da preocupação está relacionada ao chamado esforço cognitivo. Aprender exige interpretar informações, formular hipóteses, resolver problemas, considerar alternativas e revisar erros. Quando essas etapas são transferidas para uma ferramenta, parte desse trabalho mental pode deixar de acontecer.
Daniel Willingham, psicólogo cognitivo da Universidade da Virgínia, explica que a aprendizagem ocorre como consequência do processamento cognitivo, que normalmente exige esforço.
Um levantamento realizado em 2025 com mais de mil professores dos Estados Unidos mostrou que 90% acreditavam que a IA generativa reduziria as habilidades de pensamento crítico dos estudantes.
Em outra pesquisa global, com mais de 8 mil participantes, cerca de 20% dos universitários que utilizavam IA disseram ter mais dificuldade para resolver problemas sem a tecnologia.
Ainda, um outro estudo de 2024 mostrou que alunos do ensino médio tiveram melhor desempenho em problemas matemáticos enquanto podiam utilizar uma IA generativa semelhante ao ChatGPT. Quando o acesso à ferramenta foi retirado, porém, o desempenho ficou abaixo daquele registrado entre estudantes que nunca haviam contado com esse auxílio.
Outros trabalhos encontraram benefícios quando a tecnologia foi utilizada de outra maneira. Ferramentas que oferecem feedback ou propõem tarefas capazes de estimular o raciocínio podem contribuir para a aprendizagem.
Uma estratégia apontada pelos especialistas é refletir antes de consultar a ferramenta. Thomas Nygren, pesquisador da Universidade de Uppsala, incentiva seus alunos a analisar uma questão e elaborar argumentos próprios antes de recorrer à inteligência artificial.
A ideia é evitar que respostas automáticas substituam etapas importantes do raciocínio, como interpretar evidências, avaliar possibilidades e lidar com incertezas.
A tecnologia também pode assumir outro papel. Em vez de produzir uma solução completa, pode ser utilizada para oferecer feedback ou propor questões que exijam novas reflexões.
Pesquisas sobre aprendizagem apontam práticas que ajudam a preservar o esforço intelectual mesmo diante da facilidade oferecida pelas novas ferramentas. Entre elas estão:
Outra abordagem é a metacognição, capacidade de pensar, planejar e acompanhar o próprio processo de aprendizagem. Uma revisão sistemática citada na análise apontou o ensino dessas estratégias como uma das abordagens mais eficazes para melhorar a aprendizagem nas escolas.
Encontrar uma informação rapidamente não significa necessariamente que ela foi compreendida.
Um estudo de 2023 mostrou que pessoas que pesquisaram respostas online ficaram mais confiantes sobre sua capacidade de explicar determinados assuntos. Quando precisaram demonstrar esse conhecimento, porém, apresentaram menor precisão do que participantes que haviam apenas recebido as informações.
Tentar explicar um conteúdo sem consultar a resposta pode ajudar a identificar essa diferença. O exercício permite perceber quais pontos foram realmente compreendidos e onde ainda existem lacunas.
Outra habilidade importante é reconhecer conteúdos imprecisos ou enganosos na internet. Um estudo com quase 24 mil universitários nas Filipinas encontrou uma diferença entre confiança e desempenho. Cerca de 63% acreditavam conseguir identificar notícias falsas, mas apenas 26% conseguiam fazer isso de maneira confiável.
Uma estratégia utilizada para enfrentar o problema é a leitura lateral. Ao encontrar um site desconhecido, a pessoa deixa a página e procura informações sobre aquela fonte em outros locais confiáveis.
O método se aproxima do trabalho dos verificadores de fatos e reduz a dependência das informações apresentadas por uma única página.
Isso inclui recuperar informações de memória, construir argumentos próprios, considerar explicações alternativas e verificar a procedência de uma informação.
Em vez de recorrer automaticamente a uma resposta pronta, preservar algum grau de dificuldade pode ajudar a manter essas habilidades em exercício. Afinal, tornar uma tarefa mais rápida não significa necessariamente compreender melhor o assunto.