Ciência

Antes de colonizar Marte, a humanidade precisa resolver um problema: como nascer fora da Terra

A gravidez no espaço pode até ser possível, mas a falta de conhecimento sobre radiação, microgravidade e complicações médicas torna qualquer gestação um enorme desafio científico

Gravidez no espaço: pesquisadores alertam que a reprodução humana continua sendo uma das maiores incógnitas da exploração espacial (Imagem gerada por IA/Exame)

Gravidez no espaço: pesquisadores alertam que a reprodução humana continua sendo uma das maiores incógnitas da exploração espacial (Imagem gerada por IA/Exame)

Publicado em 4 de julho de 2026 às 07h12.

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A ideia de colonizar a Lua ou Marte costuma despertar imagens de cidades futuristas, estufas agrícolas e astronautas vivendo por anos longe da Terra. Mas existe uma pergunta muito mais básica que ainda permanece sem resposta: seria possível engravidar, levar uma gestação até o fim e dar à luz com segurança no espaço?

Embora a resposta teórica seja "sim", a realidade científica é muito mais complexa. Segundo especialistas, ainda sabemos pouco sobre como a microgravidade, a radiação espacial e as alterações fisiológicas provocadas pelas viagens espaciais afetariam tanto a mãe quanto o bebê. O resultado é que, atualmente, uma gravidez fora da Terra seria considerada um procedimento de altíssimo risco.

A ciência ainda trabalha com muitas hipóteses

Quem ajuda a responder essas questões é a obstetra e pesquisadora Varsha Jain, da Universidade de Edimburgo, conhecida informalmente como uma das principais especialistas em ginecologia espacial.

Segundo ela, o maior obstáculo é simples: nunca houve uma gravidez humana no espaço. "O que temos são estudos realizados em outros ambientes ou com outras espécies", explica Jain. "Por exemplo, roedores já engravidaram e estiveram no espaço. Assim, podemos tentar compreender o que acontece com seus corpos e sua fisiologia."

Além dos experimentos com animais, os pesquisadores utilizam voos parabólicos, que produzem curtos períodos de ausência de gravidade, para entender como o organismo reage a essas condições. Ainda assim, essas experiências estão muito longe de reproduzir meses de exposição ao ambiente espacial.

A radiação é um dos maiores perigos

Entre todas as preocupações, a radiação cósmica aparece como uma das mais sérias. Fora da proteção oferecida pelo campo magnético da Terra, astronautas ficam expostos a níveis muito maiores de radiação ionizante. Durante uma missão de longa duração até Marte, por exemplo, essa exposição ocorreria durante muitos meses.

Segundo Jain, esse é um problema especialmente delicado porque um embrião em desenvolvimento é extremamente sensível a alterações no DNA.

Pesquisas anteriores mostram que a radiação pode provocar mutações genéticas e aumentar o risco de alterações no desenvolvimento fetal. Embora ainda não existam dados humanos, os especialistas consideram esse um dos principais obstáculos para futuras colônias espaciais.

A microgravidade também muda o funcionamento do corpo

A ausência de gravidade modifica praticamente todos os sistemas do organismo humano. Astronautas perdem massa óssea e muscular, apresentam redistribuição dos fluidos corporais, redução do volume sanguíneo e alterações cardiovasculares. Durante uma gravidez, essas mudanças poderiam afetar tanto a mãe quanto o desenvolvimento do bebê.

Há ainda evidências provenientes de estudos com camundongos de que a própria dinâmica do parto pode mudar.

Jain cita um experimento em que fêmeas de camundongos submetidas à microgravidade apresentaram aproximadamente o dobro de contrações durante o trabalho de parto em comparação com animais mantidos na Terra. Posteriormente, os pesquisadores identificaram alterações em proteínas presentes na musculatura do útero, sugerindo que a gravidade também influencia o funcionamento uterino.

E se surgisse uma emergência durante o parto?

Mesmo que uma gestação evoluísse normalmente, outro problema seria lidar com complicações obstétricas. Hemorragias, sofrimento fetal ou a necessidade de uma cesariana exigem equipes médicas completas, equipamentos especializados e infraestrutura hospitalar. Em uma nave a milhões de quilômetros da Terra, praticamente nada disso estaria disponível.

"Eu não ficaria tão preocupada com um parto vaginal em si", afirma Jain. "O que me preocuparia seria o que aconteceria se surgisse algum problema."

Em uma missão para Marte, por exemplo, uma evacuação médica seria impossível. Dependendo da posição dos planetas, uma viagem de retorno poderia levar muitos meses.

Os experimentos com animais trazem esperança, mas não respostas

Apesar das incertezas, algumas pesquisas recentes mostram que a reprodução de mamíferos talvez seja mais resistente ao ambiente espacial do que se imaginava.

Um estudo conduzido pela Japan Aerospace Exploration Agency e publicado na revista científica iScience em 2023 enviou embriões congelados de camundongos para a Estação Espacial Internacional. Após retornarem à Terra, os pesquisadores observaram que eles haviam se desenvolvido normalmente até a fase inicial de blastocisto, uma etapa importante da formação embrionária.

Embora o resultado seja considerado promissor, os próprios cientistas alertam que ele representa apenas uma pequena etapa do processo. Ainda não há evidências de que uma gestação completa e o nascimento de mamíferos possam ocorrer com segurança durante missões espaciais de longa duração.

A colonização do espaço depende dessa resposta

Hoje, nenhuma agência espacial permite que astronautas grávidas participem de missões, justamente pela ausência de evidências sobre os riscos envolvidos.

Entretanto, à medida que projetos de permanência na Lua e futuras viagens para Marte avançam, compreender como ocorre a reprodução humana fora da Terra deixa de ser uma curiosidade científica e passa a ser uma necessidade.

Antes que a humanidade possa imaginar cidades permanentes em outros mundos, será preciso responder a uma questão muito mais fundamental: como garantir que uma nova geração possa nascer com segurança longe do planeta que moldou toda a evolução da nossa espécie.

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