Peça íntima da Underdays é feita com tecido próprio infundido com pré e probióticos, vendido por 75 dólares, cerca de R$ 386 (Divulgação)
Jonalista colaborador
Publicado em 27 de agosto de 2026 às 07h25.
Uma nova geração de marcas de vestuário íntimo busca inspiração fora da moda tradicional para definir preço e posicionamento. É o caso da britânica Underdays, que enxerga como concorrentes diretas marcas de beleza como Merit e Summer Fridays, e não nomes historicamente ligados à lingerie, como Victoria's Secret ou Skims. Em entrevista à Business of Fashion (BoF), a fundadora Amelie Salas afirmou que a empresa segue o roteiro de marcas de beleza voltadas a um público que valoriza rotinas simples e produtos de apelo natural.
A aposta da Underdays integra um movimento batizado de carewear, termo usado para descrever peças básicas produzidas com tecidos que prometem oferecer benefícios de cuidado com a pele. A peça íntima da marca é feita com um tecido próprio, chamado Underskin, enriquecido com pré e probióticos que a empresa afirma ajudar a preservar o equilíbrio da microbiota cutânea. O kit inicial da linha custa 48 libras, o equivalente a 75 dólares, cerca de R$ 386 na cotação atual.
Coperni: coleção C+ incorpora probióticos e prebióticos nos tecidos das peças (Coperni/Divulgação)
A tecnologia do tecido da Underdays vem da HeiQ, empresa suíça de materiais que também assina parceria recente com a grife francesa Coperni na linha esportiva C+, descrita pela marca como capaz de agir como um skincare vestível. Promessa parecida aparece em outras fibras que ganham espaço no setor, caso da alemã SeaCell, à base de algas e celulose de madeira, e da italiana Yaluronica, que vende um body com partículas de ouro e ácido hialurônico.
Uma dessas amostras chamou a atenção da modelo e stylist britânica Tallulah Harlech, que fundou a Sylva após enfrentar dificuldades para achar peças básicas que não agravassem sua psoríase. A coleção reúne itens como o vestido Hero, vendido por 500 dólares, cerca de R$ 2.575, feito com tecido canelado pensado para ajudar a manter a hidratação da pele. Harlech contou que o objetivo foi criar peças usáveis sob roupas de grifes como Loewe, Chanel ou Manolo Blahnik sem perder elegância. A segunda coleção chega às lojas no outono do hemisfério norte, na Dover Street Market de Paris.
A cientista de materiais Amanda Parkes, diretora de tecnologia da Mothership Materials, questiona a validade científica de parte dessas promessas. Segundo ela, boa parte das alegações vem de testes conduzidos pelos próprios fabricantes de tecido, sem publicação em estudos independentes. Parkes cita a HeiQ como a mais avançada tecnicamente no segmento, mas diz nunca ter visto comprovação de que uma peça de roupa altere a microbiota da pele de quem a usa.
O preço praticado pelas marcas de carewear ainda as mantém distantes do consumo de massa. O vestido da Sylva custa 500 dólares, mais de quatro vezes o valor de uma peça semelhante da Skims, vendida por 125 dólares, cerca de R$ 644. A peça íntima da Underdays sai por 75 dólares, cerca de R$ 386, contra 13 dólares, cerca de R$ 67, da versão básica da linha Airism da Uniqlo. A cofundadora Oria Mackenzie reconhece que o público de roupa íntima costuma ser sensível a preço, habituado a pacotes promocionais de redes de varejo.
Marcas de beleza também avançam sobre o território da moda. A Merit anunciou nesta semana uma coleção cápsula de roupas esportivas. Redes como a Uniqlo já vendem peças com proteção solar incorporada ao tecido, o que abre espaço para camisetas hidratantes ou leggings com promessa de efeito firmador. Parkes pondera que aplicações médicas, como tecidos voltados à cicatrização de feridas, têm potencial real de uso, mas avalia que parte da tecnologia hoje disponível resolve problemas ainda não comprovados