Vinhos degustados no Catarina Aviation Show: o consumidor quer entender mais (Pedro Fadanelli/Exame)
Especialista em vinhos
Publicado em 26 de maio de 2026 às 13h00.
O Catarina Aviation Show, realizado na semana passada, reuniu o que há de melhor em aviação, helicópteros, barcos e carros esportivos, com as maiores marcas do mundo presentes e um público que conhece bem a diferença entre o bom e o excepcional. É nesse contexto que a Revista Adega, em parceria com a ProWine SP, organizou seis masterclasses de vinho dentro da feira.
Trinta pessoas por sessão, um formato fechado, e uma constatação que ficou clara desde a primeira sessão: esse público quer entender o que está bebendo com a mesma exigência com que escolhe tudo o mais.
O primeiro dia foi dedicado às Américas, com uma lógica específica para aquela audiência: cada destino apresentado é acessível de avião particular. Mendoza tem aeroporto internacional e vinícolas a minutos do terminal. O Uruguai, especialmente Carmelo e Garzón, oferece fazendas com pista própria e a sofisticação que o país leva a sério no turismo de alto padrão. O Chile, com o vale do Colchagua, tem infraestrutura crescente para quem chega pelo ar.
Não falamos de vinho como souvenir. Falamos de vinho como motivo de embarque.
No segundo dia, Portugal e Espanha. Dois países que mudaram radicalmente na última década e ainda são subestimados por parte do mercado brasileiro. O Douro foi muito além do Porto. O Alentejo criou identidade própria que hoje compete com regiões muito mais badaladas. Mas a revelação da sessão foi o Dão, região no centro de Portugal que poucos conhecem e que produz brancos de personalidade rara.
A uva Encruzado, nativa da região, entregou os vinhos que mais chamaram atenção do público, com textura, acidez e complexidade que surpreenderam até quem já bebeu muito vinho branco na vida. Na Espanha, a Rioja tem uma geração nova de produtores redefinindo o que o estilo espanhol pode ser, e o Priorat segue como um dos endereços mais sérios do mundo em tintos de caráter.
No terceiro dia, Itália e França. Na Itália, percorremos o norte ao centro: Barolo e Brunello para quem quer entender o que o Nebbiolo e o Sangiovese fazem quando levados ao limite, Chianti para desmistificar um vinho que o mercado ora superestima ora subestima, e os espumantes do Trentino, pelo método clássico, que mostram por que a Itália não precisa imitar ninguém quando o assunto é borbulha de qualidade.
Na França, Borgonha e Bordeaux para os grandes tintos e brancos, e um capítulo à parte para a Provence: o rosé que saiu da categoria de vinho de verão e virou objeto de desejo com preços que já rivalizam com muitos tintos premiados.
As perguntas que mais apareceram nas três sessões dizem mais do que qualquer pesquisa de mercado. Enoturismo liderou, o que confirma que a experiência virou prioridade. Em segundo, como comprar com mais confiança, revelando um consumidor que já foi enganado ou teme ser. E em terceiro, contrabando e rótulos de procedência duvidosa, um problema real no mercado brasileiro que ninguém gosta de admitir mas todo mundo quer entender.
O Aviation Show confirmou algo que o mercado de vinho já deveria ter percebido: esse consumidor não quer mais só ter. Quer entender.