Casual

3 dias na Borgonha: as paradas obrigatórias para beber vinhos incríveis

Separamos um roteiro completo para conhecer a região pelas vinhas, bebidas, gastronomia e pasagens francesas

France, Bourgogne-Franche-Comte, Burgundy, Cote-d'Or, Pernand-Vergelesses. (Getty Images)

France, Bourgogne-Franche-Comte, Burgundy, Cote-d'Or, Pernand-Vergelesses. (Getty Images)

Pedro Fadanelli
Pedro Fadanelli

Especialista em vinhos

Publicado em 17 de maio de 2026 às 16h02.

Tudo sobreVinhos
Saiba mais

Existe um lugar no planeta onde cada centímetro de terra carrega séculos de história. Os nomes das ruas são rótulos de vinho e um simples almoço pode se transformar numa das melhores experiências enogastronômicas da vida. Esse lugar é a Borgonha, e o melhor ponto de partida para explorá-la é a cidade de Beaune.

Beaune não é apenas uma cidade bonita do interior da França. É um QG perfeito. Numa área que se percorre a pé em menos de 20 minutos, você encontra dezenas de lojas especializadas em vinho, caves abertas ao público, bistrôs com cartas que fariam inveja a qualquer sommelier estrelado e restaurantes onde beber bem custa muito menos do que se imagina.

Para os amantes de vinho que querem unir uma viagem de qualidade com imersão nos vinhedos mais cobiçados do mundo, três dias na Borgonha bastam para entender por que essa região é tratada como a meca do vinho. Confira o roteiro que a Casual EXAME preparou:

Dia 1: A Côte de Nuits e os vinhedos que definem o impossível

A Côte de Nuits começa em Marsannay, ao sul de Dijon, e termina em Nuits-Saint-Georges. Em menos de 20 quilômetros de estrada, você passa pelos Grand Crus mais raros e caros do planeta. Vale entender uma coisa: na Borgonha, não é somente a propriedade que importa, é o pedaço de terra. Esse conceito de terroir elevado ao máximo é o que torna a região única.

A parada obrigatória é na aldeia de Vosne-Romanée, um lugarejo de menos de 600 habitantes que abriga os vinhedos mais valiosos do mundo. O Romanée-Conti e La Tâche ficam ali, separadas por uma pequena mureta de pedra que não impede ninguém de chegar perto e contemplar. É uma experiência quase espiritual: olhar para aquelas vinhas históricas sabendo que um único frasco do que nasce ali pode custar centenas de milhares de reais. O melhor é que você pode passar os olhos por tudo isso de graça, caminhando entre as vinhas.

Ainda na manhã, vale fazer a parada no Château du Clos de Vougeot. O castelo medieval cercado de vinhedos data do século XII e foi construído pelos monges cistercienses, que foram os primeiros a entender sistematicamente o terroir borgonhês. Hoje é a sede da Confrérie des Chevaliers du Tastevin, uma das mais famosas confrarias de vinho do mundo. A visita guiada é rápida e o cenário é extraordinário, com aquelas paredes de pedra e os lagares históricos ainda no lugar.

O almoço acontece em Nuits-Saint-Georges, no La Cabotte. Discreto por fora, impecável por dentro. A carta de vinhos é uma das mais honestas da região, com boa seleção de Premiers Crus a preços que, para os padrões da Borgonha, são uma gentileza. Se não souber o que pedir, pergunte ao staff, muito simpático e com muito conhecimento de vinhos.

Dia 2: Beaune, a cidade que respira o vinho

Dedique o segundo dia inteiro a Beaune, porque a cidade merece isso. Comece pela Athenaeum, que fica bem no centro e é muito mais do que uma livraria. É uma das maiores referências em livros, mapas e objetos relacionados a vinho na Europa. Difícil sair de lá sem ao menos um mapa dos vinhedos da Borgonha dobrado na bolsa, e impossível não comprar alguma coisa.

A visita ao Hôtel-Dieu, os Hospices de Beaune, é obrigatória. Fundado em 1443 como hospital para os mais necessitados, o edifício em estilo flamengo, com seu telhado de telhas coloridas e geométricas, é um dos ícones da França. O que pouca gente sabe é que os Hospices possuem vinhedos, e todo novembro realizam em Beaune o mais famoso leilão de vinhos do mundo. Os valores arrecadados ainda vão para instituições de caridade. História e vinho numa única visita.

Logo ao lado, o Musée du Vin de Bourgogne funciona num antigo palácio dos Duques de Borgonha e conta a história milenar da viticultura local. Vale uma hora de visita para contextualizar tudo que se viu nos dias anteriores e o que ainda está por vir.

O jantar é no La Lune, e surpreende quem espera só bistrô francês. O restaurante é comandado por um chef japonês que trabalha com uma precisão que poucos cozinheiros alcançam. Tudo é feito na hora, e a diferença aparece no prato. As frituras têm aquela leveza que só quem domina a técnica consegue, o tartar de atum chega com equilíbrio e frescor, e o karaage é do tipo que faz agradecer.

É o encontro improvável que a Borgonha às vezes oferece: uma cozinha japonesa de alto nível numa cidade no coração da Borgonha.

Dia 3: A Côte de Beaune e o pique-nique mais elegante da vida

Se a Côte de Nuits é o reino do Pinot Noir, a Côte de Beaune é onde o Chardonnay encontra sua expressão mais alta. Puligny-Montrachet, Chassagne-Montrachet e Meursault formam uma sequência de villages que define o padrão do vinho branco no mundo. O destino central do terceiro dia é Puligny-Montrachet.

O vinhedo Le Montrachet fica numa encosta suave entre Puligny e Chassagne. Alexandre Dumas já dizia que o Montrachet deveria ser bebido de joelhos, com a cabeça descoberta. É exagero, claro, mas quem já provou entende o espírito da frase. O ritual aqui é organizar um piquenique nas vinhas, que é totalmente possível e muito bem-vindo na cultura local.

Os queijos são comprados na Fromagerie Alain Hess, na Place Carnot, em Beaune, antes de sair. É uma das melhores casas de queijo da região, e o Époisses é um monumento à parte. Leve uma garrafa de Bourgogne Blanc de um bom produtor, sente-se com vista para as fileiras de Chardonnay e entenda por que essa encosta virou lenda. Custo zero, experiência impagável.

Para quem prefere um restaurante, o La Goutte d'Or resolve o almoço com generosidade: as melhores pizzas da região, carta de vinhos pequena, muito bem pensada, e o tipo de lugar que você descobre e não conta para todo mundo.

No início da tarde, a visita à Maison Prosper Maufoux em Santenay vale pela qualidade das degustações e pela chance de explorar rótulos menos falados da região. É o tipo de visita que revela aquelas garrafas que ninguém menciona nas revistas, mas que são extraordinárias.

De lá, siga para Aloxe-Corton e a visita ao Domaine Comte Senard. Os Corton são os únicos Grand Crus tintos da Côte de Beaune, e degustar ali, com a família explicando cada parcela, é um privilégio que a Borgonha oferece de forma surpreendentemente acessível. O Corton tinto passa pelos anos com uma elegância que poucos vinhos do mundo conseguem.

O que torna essa viagem incomparável

A Borgonha é uma das regiões mais belas do mundo. As estradas que cortam os vinhedos, as aldeias pitorescas, os campos abertos e as encostas suaves com fileiras de vinha compõem uma paisagem que fica na memória de quem visita. Para quem ama vinho e comida, é difícil encontrar um lugar que entregue tanto numa área tão compacta.

A conexão com a viticultura aqui é real. Você caminha pelos mesmos vinhedos que produziram as garrafas mais desejadas da história do vinho, entende na prática o que significa terroir, e bebe com preços que, nas cartas dos restaurantes locais, fazem qualquer apreciador sorrir. Rótulos que são disputados no Brasil aparecem lá com certa facilidade.

Para quem quer uma visita mais intimista, o ideal é conversar diretamente com os produtores. O acesso não é simples, mas o caminho mais eficiente é acionar o importador de confiança que traz os rótulos que você já conhece e admira. Ele conhece os produtores, tem o contato certo, e abre portas que não existem para o turista comum.

Três dias são suficientes para uma primeira imersão séria. Quase todo mundo que vai pela primeira vez sai com a agenda já aberta para a próxima visita.

Acompanhe tudo sobre:TurismoFrançaVinhos

Mais de Casual

Copa do Mundo: 71% dos brasileiros planejam viajar para o torneio em casal

Por que a Nike está apostando novamente no esporte

H&M ganha sotaque carioca e expande negócios no Brasil

Lima é eleita a melhor cidade gastronômica do mundo em ranking global de 2026