Lys d’Or: primeiro espumante francês de marca própria da Zahil (Pedro Fadanelli/Divulgação)
Especialista em vinhos
Publicado em 18 de setembro de 2026 às 09h00.
Quarenta anos no mercado brasileiro de vinhos dizem muito sobre uma empresa. Nesse período, o país atravessou planos econômicos, inflação, abertura das importações, mudanças cambiais, crises e uma transformação enorme na forma como o brasileiro compra, bebe e entende vinho. A Zahil atravessou tudo isso. Fundada em 1986 pelos irmãos Antoine e Serge Zahil, chega às quatro décadas ainda como uma empresa familiar e com algo que sempre me chama atenção no mundo do vinho: relações de longo prazo. Hoje são cerca de 70 produtores de 15 países, mas algumas das casas que ajudaram a construir seu portfólio estão ali há décadas.
Recentemente, sentei para conversar com Bernardo Pinto, diretor técnico e comercial da Zahil, que trabalha na empresa há 21 anos e acompanhou mais da metade dessa história por dentro. Quando falamos de importadoras, normalmente olhamos primeiro para as garrafas, os produtores que representam, as regiões que trazem ao Brasil e as novidades que aparecem no portfólio. Mas existe um trabalho muito maior por trás disso. Escolher um produtor é apenas o começo. É preciso desenvolver a marca, criar mercado, atravessar safras, câmbio, impostos e mudanças de consumo, além de continuar acreditando naquela parceria quando o mercado aponta para outro lado.
Casa Ferreirinha, em Portugal, e Rutini, na Argentina, são bons exemplos dentro dessa história. São relações de longa data que atravessaram diferentes momentos da Zahil e também do próprio mercado brasileiro. Em um setor no qual novos produtores aparecem todos os anos e algumas regiões entram e saem de moda rapidamente, manter relações assim talvez diga tanto sobre uma importadora quanto sua capacidade de encontrar novidades.
Outro ponto importante na trajetória da Zahil foi a proximidade com restaurantes e lojas especializadas. Esses estabelecimentos nunca funcionaram apenas como lugares para colocar uma garrafa na prateleira. Existe um trabalho de treinamento, construção de cartas, formação das equipes e, principalmente, contato direto com quem está comprando e servindo vinho. Segundo a empresa, mais de 5 mil profissionais já passaram por seus treinamentos. São décadas convivendo diariamente com esse mercado e entendendo não apenas quais vinhos funcionam, mas também porque funcionam e em quais situações.
Foi justamente olhando para esse mercado que surgiu o lançamento escolhido para acompanhar os 40 anos da empresa. Durante muito tempo, a Zahil importou um espumante francês sem denominação que teve bastante espaço em São Paulo. Era servido em casamentos, grandes eventos e restaurantes, além de aparecer muito como opção em taça. Segundo Bernardo, era aquele “espumante francês da casa” que funcionava para um mercado que procurava uma opção importada com preço competitivo. Com o tempo, porém, o cenário mudou. O espumante brasileiro cresceu muito, ganhou qualidade, marcas fortes e espaço nos restaurantes. Ao mesmo tempo, o antigo fornecedor francês começou a apresentar oscilações de qualidade e dificuldades de produção. Aos poucos, um produto que havia sido importante para a empresa perdeu espaço.
A história poderia simplesmente ter terminado ali, mas anos depois a Zahil decidiu voltar à ideia. Bernardo passou entre dois e três anos procurando na França um espumante que pudesse ocupar novamente essa posição. Dessa vez, porém, a proposta seria diferente. Em vez de encontrar uma marca pronta e simplesmente importá-la, a empresa decidiu participar do desenvolvimento do produto, definindo o perfil que procurava e trabalhando também no nome, no rótulo e na identidade visual. Era uma maneira de usar quatro décadas de conhecimento do mercado brasileiro para construir algo desde o início.
Assim nasceu o Lys d’Or, primeiro espumante francês de marca própria da Zahil. Produzido em Bordeaux pela Maison Johanès Boubée, ele não pertence a uma denominação específica. O corte atual reúne Colombard, Chardonnay, Sauvignon Blanc e Ugni Blanc, com elaboração pelo método de tanque, uma escolha que privilegia a preservação da fruta e do frescor.
Provei o vinho durante nosso encontro e gostei bastante do resultado. Muita fruta, frescor e equilíbrio. Não existe aqui a tentativa de criar algo mais complicado do que precisa ser. É um espumante direto e muito bem executado dentro da proposta. Para mim, porém, a parte mais interessante está no que essa garrafa representa dentro da história da empresa.
Depois de 40 anos escolhendo produtores ao redor do mundo, a Zahil usou o conhecimento acumulado no mercado brasileiro para dizer o que queria produzir. Restaurantes, lojas especializadas, eventos e consumidores com quem a empresa convive há décadas ajudaram, de alguma maneira, a construir essa decisão. O Lys d’Or acaba sendo menos uma ruptura e mais uma consequência de tudo o que veio antes.
E existe algo de empresa familiar nisso também. Negócios que atravessam décadas precisam preservar sua história sem ficar presos a ela. Algumas relações permanecem por muitos anos, como Casa Ferreirinha e Rutini. Outras deixam de fazer sentido. E algumas ideias antigas podem voltar quando o mercado muda e a empresa está mais preparada para executá-las.
Talvez seja justamente isso que 40 anos ensinem. Legado não é continuar fazendo sempre a mesma coisa. É entender o que vale a pena preservar, ter coragem para mudar o que for necessário e saber o que carregar para os próximos 40.