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Quando é o momento de trocar o tênis de corrida?

Com 15 milhões de novos adeptos no Brasil, a corrida de rua exige atenção ao desgaste dos equipamentos; especialistas explicam por que a "regra dos 500 km" é vital para evitar lesões silenciosas

Tênis de corrida: quando é o momento de trocar? ( Albert Andrade/Divulgação)

Tênis de corrida: quando é o momento de trocar? ( Albert Andrade/Divulgação)

Marina Semensato
Marina Semensato

Colaboradora

Publicado em 3 de abril de 2026 às 16h30.

A corrida ganhou mais de 15 milhões de adeptos e se tornou o 4º esporte mais praticado do Brasil em 2025, segundo o estudo "Por Dentro do Corre", da Olympikus em parceira com a Box1824. No ranking mundial, a prática já ocupa o primeiro lugar, segundo o Strava. Parte da sua popularidade local e global está atrelada ao seu caráter acessível — afinal, basta ter força de vontade para começar.

Ainda assim, à medida que o interesse pelo esporte cresce, aumenta também a vontade de ter equipamentos melhores. O primeiro deles, na grande maioria das vezes, é o tênis. Com o calçado, chegam também os óculos, as roupas, os relógios, as inscrições em corridas, os aplicativos de treino e, eventualmente, as medalhas.

Tudo evolui junto com o corredor. O problema é que, em grande parte das vezes, o último aparato a entrar nessa onda de melhora é, ironicamente, o tênis. Ele acompanha o corredor por meses, às vezes anos, mesmo quando já não entrega o que prometia no início. Se ainda está confortável e atende às necessidades, por que trocar?

Especialistas indicam que há um ponto em que o desgaste começa a alterar a forma de corre, mesmo que isso não seja percebido de forma clara. "Chega um momento em que é preciso trocar o tênis, e é melhor fazer isso antes de sentir dor", disse a professora Allison Gruber, da Universidade de Indiana, ao New York Times.

A "regra" dos tênis de corrida

Existe, no mundo da corrida, uma regra não-oficial sobre a troca dos tênis: se eles já atingiram entre 300 e 500 quilômetros, está na hora de substituí-los. É uma referência, visto que o desgaste depende de muitos fatores — como o tipo de uso, a superfície, temperaturas e cuidados extras — que vão ditar a longevidade dos calçados.

Mas, ao chegar nessa faixa de distância, vale prestar mais atenção e começar a busca por um novo modelo, justamente para evitar surpresas desagradáveis e doloridas.

Há uma variável que complica ainda mais essa conta: o tipo de tênis. Os modelos de competição de última geração — os chamados super tênis — têm espumas mais leves e responsivas, o que os torna rápidos, mas também mais vulneráveis ao desgaste.

Segundo o pesquisador de biomecânica JJ Hannigan, da Universidade Estadual do Oregon-Cascades, esses calçados se deterioram mais rápido do que os modelos de treino comuns. Quem usa um super tênis no dia a dia pode estar esgotando o calçado muito antes de atingir qualquer quilometragem de referência.

O que a espuma degradada provoca não é só falta de conforto. Um estudo comparou corredores usando tênis novos e após 320 quilômetros de uso e identificou alterações biomecânicas — mudanças sutis na forma como o corredor se move. A professora Gruber ressalta que a ciência ainda não traçou uma linha direta entre essas alterações e lesões específicas, mas que elas podem levar a compensações na passada que, acumuladas, aumentam o risco de problemas.

Está na hora de trocar o tênis?

O maior obstáculo, porém, é a percepção. Quem usa o mesmo par todos os dias se adapta gradualmente ao desgaste e não perceber a mudança, e a espuma comprimida passa a ser a referência de normalidade.

Por isso, é preciso voltar a atenção para sinais mais objetivos e tangíveis. Os especialistas listaram os principais ao NYT:

  • Espuma comprimida: a camada entre a sola e a parte superior do tênis aparece mais enrugada e achatada do que quando era novo;
  • Desgaste assimétrico: a sola se deteriora de forma desigual — mais acentuada no lado interno ou externo, dependendo da pisada. Em tênis de trilha, as áreas de tração são as primeiras a sinalizar o problema;
  • Comparação visual: fotografar o tênis quando novo e confrontar com o estado atual ajuda a perceber mudanças que o olhar cotidiano não registra;
  • Teste de sensação: experimentar um par novo do mesmo modelo é uma das formas mais eficazes de perceber o quanto o calçado atual perdeu em amortecimento;
  • Avaliação externa: um fisioterapeuta ou profissional de loja especializada consegue identificar alterações sutis que a convivência diária esconde;
  • Aplicativos como o Strava também permitem registrar a quilometragem por calçado.

"É como o seu cabelo", disse Brendan Martin, fisioterapeuta e treinador em Nova York, ao NYT. "Você se vê no espelho todos os dias, então não percebe que está comprido e desalinhado — até alguém te dizer que é hora de cortar."

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