Produção de foie gras no sul da Espanha: ao contrário da produção tradicional do alimento, na fazenda espanhola as aves não têm alimentação forçada
Repórter de Casual
Publicado em 24 de julho de 2026 às 14h12.
Última atualização em 24 de julho de 2026 às 15h29.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou nesta sexta-feira, 24, a Lei 15.475 que proíbe, em todo o território nacional, a produção e a comercialização de alimentos obtidos por meio da alimentação forçada de animais. A recente proibição da produção e comercialização do foie gras no Brasil reacendeu o debate sobre os limites entre tradição gastronômica, bem-estar animal e as transformações nos hábitos de consumo. Para chefs que trabalham com a alta gastronomia, a medida representa uma mudança relevante para o setor, especialmente para restaurantes de culinária francesa.
A iguaria é produzida a partir do fígado de pato ou ganso. A expressão francesa foie gras, que significa “fígado gordo”, designa um alimento produzido a partir do fígado de aves submetidas à gavagem, método no qual grandes quantidades de alimento são introduzidas diretamente no esôfago por meio de tubos. O procedimento tem como objetivo aumentar o tamanho do órgão usado na fabricação do produto.
De textura macia e sabor marcante, o ingrediente é considerado um clássico da gastronomia francesa, mas sua produção é alvo de controvérsias e debates relacionados ao bem-estar animal.
No Brasil, a produção de foie gras é restrita. Um levantamento da organização Animal Equality identificou três fazendas dedicadas à atividade no país. O produto, no entanto, ainda circula no mercado brasileiro e pode alcançar preços próximos de R$ 2 mil por quilo.
Para Fábio Sinbo, chef do restaurante Azur do Mar, o impacto será significativo para diversos estabelecimentos. "Na minha visão, não existe hoje um produto que consiga substituí-lo à altura e reproduzir suas características gastronômicas", diz. Além de ser amplamente utilizado em restaurantes franceses, o ingrediente também pode ser encontrado em cardápios autorais e de perfil contemporâneo.
"Como profissional da gastronomia, vejo o foie gras como um ingrediente icônico, com um peso enorme na história e na cultura da cozinha”, diz Rodrigo Queiroz, chef do Bicchieri Cucina & Bar. Apesar da importância da iguaria para o setor, ele reconhece os problemas por trás da sua origem. “É difícil ignorar que a produção do foie gras levanta questões importantes sobre bem-estar animal".
O chef catalão Oscar Bosch, responsável por casas como Tanit, Cala del Tanit, NIT, Bodega Pepito e Marmotta, também reconhece o papel do ingrediente para a gastronomia e não nega a controvérsia de sua produção. “Gosto muito do sabor do foie gras e entendo que ele proporciona resultados extraordinários na cozinha, mas me incomoda o sofrimento dos animais no método tradicional”, diz. Apesar de ser uma técnica centenária, ele acredita que seja possível adotar métodos alternativos.
Foie gras: iguaria é usada em preparações de diferentes culinárias (Divulgação/Divulgação)
Um exemplo citado pelo chef Bosch é o trabalho de Eduardo Sousa, na região de Extremadura, no sul da Espanha, que produz foie gras sem recorrer à alimentação forçada dos gansos e respeitando o comportamento natural dos animais. Por lá, as aves vivem soltas e se alimentam de forma espontânea com ervas, sementes, figos, azeitonas e bolotas. No outono, seguindo um instinto ligado à migração, os animais passam a comer mais e acumulam naturalmente mais gordura no fígado. Além de respeitar o ciclo das aves, Sousa realiza apenas uma produção por ano e obtém fígados menores do que os convencionais, com sabor mais delicado e marcado pela alimentação do território.
Na avaliação do chef Rodrigo Queiroz, a decisão sinaliza uma mudança nos valores da sociedade, que está cada vez mais interessada em adotar hábitos de consumo ético e sustentável. “Dá uma certa tristeza ver um ingrediente tão emblemático sair de cena, mas a gastronomia sempre encontra novos caminhos”, diz.
A discussão, portanto, coloca de um lado a importância histórica e gastronômica de um ingrediente e, de outro, a crescente demanda por práticas que consideram o bem-estar animal. Para Queiroz, a mudança faz parte de uma evolução contínua dos processos dentro da cozinha. "Temos a responsabilidade de melhorar as nossas técnicas, sempre respeitando o bem-estar dos animais", diz.
A China se consolidou como o maior produtor mundial do ingrediente, com uma produção anual estimada em 11 mil toneladas, o equivalente a cerca de 45% de toda a oferta do produto no mundo, segundo reportagem do Wall Street Journal.
O crescimento chinês transformou um alimento associado ao luxo francês em um item cada vez mais presente em cardápios asiáticos, dos restaurantes de alta gastronomia às casas mais informais.
Neste ano, a União Europeia reforçou as regras de rotulagem do foie gras, impedindo que produtores estrangeiros usem termos como estilo Périgord para dar a impressão de origem francesa. A medida é vista como uma resposta direta ao avanço de concorrentes fora do continente.
Zhou Menghan, analista do setor avícola na consultoria Beijing Orient Agribusiness Consultants, avalia que a disputa deve se intensificar em mercados ainda pouco consolidados. Ela projeta que a China vai se tornar uma concorrente forte da França especialmente no Sudeste Asiático e no Oriente Médio, regiões onde o consumo de foie gras ainda está em expansão.