O brasileiro João Fonseca durante Wimbledon 2026, com o uniforme branco exigido pelas regras do torneio para todos os tenistas em quadra (Henry NICHOLLS / AFP)
Jonalista colaborador
Publicado em 1 de julho de 2026 às 15h17.
Última atualização em 1 de julho de 2026 às 15h19.
Wimbledon começou na semana passada e trouxe de volta uma discussão que se repete a cada edição desde 1877. O torneio mais antigo do tênis mundial reúne, ao mesmo tempo, o código de vestimenta mais rígido do esporte para os jogadores, uma exigência formal para os convidados do camarote mais disputado da quadra central e uma etiqueta não escrita para o público das arquibancadas comuns, formada ao longo de décadas por observação e repetição.
Essa multiplicação de regras tem raízes na própria história do esporte. O tênis nasceu ligado a clubes de elite e à aristocracia europeia, e por muito tempo carregou a ideia de que a roupa também comunicava pertencimento. Wimbledon levou esse princípio mais longe do que qualquer outro Grand Slam, formalizando parte dele em regulamento e deixando o restante a cargo do costume.
Serena Williams: tenista foi derrotada pela australiana Maya Joint durante a partida da primeira rodada de simples feminino de Wimbledon (HENRY NICHOLLS / AFP)
A exigência de branco para os tenistas remonta a 1880, três anos depois da criação do torneio, quando cores mais claras eram preferidas por disfarçarem manchas de suor, consideradas impróprias na época vitoriana. A convenção virou regra oficial em 1963, depois que a brasileira Maria Esther Bueno entrou em quadra com um forro rosa por baixo da saia branca. Hoje as regras do All England Club pedem traje quase inteiramente branco da cabeça aos pés, incluindo boné, pulseira, meias, tênis e até cadarços. Um único filete de cor é permitido na gola ou no punho da manga, desde que não ultrapasse um centímetro de largura.
Mesmo dentro desse regulamento fechado, as jogadoras sempre encontraram espaço para expressar identidade. Serena Williams usou shortinho vermelho por baixo do vestido branco em 2010 e 2012, um aceno bem-humorado aos morangos com creme do torneio, num período em que a cor por baixo do uniforme ainda não era oficialmente permitida.
Neste retorno a Wimbledon em 2026, ela voltou à quadra central num vestido branco desenhado sob medida pela Nike, com recortes vazados que respeitam o branco exigido pelo regulamento. Naomi Osaka seguiu um caminho parecido nesta edição, incorporando ao uniforme um obi, a faixa tradicional do quimono japonês.
O regulamento também prevê exceções pontuais. Em 2022, o clube passou a permitir shorts de cor sólida por baixo do uniforme branco, mudança pensada para dar mais conforto às jogadoras durante o período menstrual. Em 2025, o torneio autorizou uma braçadeira preta para os tenistas Francisco Cabral e Nuno Borges, em homenagem ao jogador de futebol Diogo Jota, morto em acidente de carro naquele ano. Fora dessas brechas, o rigor se mantém. Roger Federer foi advertido em 2013 por jogar com solados laranja em seus tênis Nike, então vendidos a cerca de 140 dólares, o equivalente hoje a pouco mais de R$ 720. O modelo esgotou no site da marca poucos dias depois da polêmica.
Roger Federer no Royal Box de Wimbledon: costume e gravata (Julian Finney/Getty Images)
Enquanto os jogadores seguem um regulamento extenso, os convidados do Royal Box têm sua própria exigência formal. O camarote mais exclusivo de Wimbledon fica na lateral sul da quadra central, tem apenas 74 lugares e reúne membros de famílias reais, chefes de governo e nomes ligados ao tênis e aos patrocinadores do evento. Os convites partem do presidente do All England Club, com sugestões do comitê organizador e da Lawn Tennis Association. Para entrar, o traje pedido é terno completo ou costume com gravata para os homens. As mulheres são orientadas a evitar chapéus, para não bloquear a visão de quem senta atrás.
Foi esse código que levou Roger Federer a assistir a uma partida de Novak Djokovic em julho de 2025 completamente encasacado, mesmo com o calor atípico de Londres naquele dia. David Beckham, Hugh Jackman e Zendaya também já circularam pelo Royal Box seguindo a mesma exigência de traje formal.
Fora dos camarotes oficiais, o público de Wimbledon segue um código apenas informal, construído por observação e repetição ao longo de mais de um século. Não existe uma lista de proibições para quem compra ingresso nas arquibancadas gerais, mas a plateia adota, ano após ano, uma estética parecida, com alfaiataria em tons claros, vestidos florais, poás e chapéus Panamá, populares desde o início do século 20. A expectativa geral é de um visual discreto e sofisticado, como linho bem cortado e peças estruturadas, mesmo sem obrigação escrita.
A Princesa de Gales, patronesse do All England Club, reforça esse padrão vestindo verde ou roxo, as cores oficiais do torneio desde 1909. Ela já apareceu num vestido verde-floresta da Dolce & Gabbana em 2019 e num tom esmeralda da Emilia Wickstead em 2021, cor próxima à da grama no início da competição. Zendaya, Sienna Miller e Alexa Chung também se tornaram referência de estilo nas arquibancadas nos últimos anos, cada uma com sua própria leitura da mesma base, alfaiataria leve, tecidos naturais e paleta contida.
A tradição também aparece fora da vestimenta. O morango com creme, servido nas tendas do complexo desde a primeira edição do torneio, custa hoje 2,70 libras a porção, o equivalente a cerca de R$ 18,50. O próprio All England Club estima vender mais de 140 mil unidades nesta edição, o que representaria um faturamento em torno de R$ 2,6 milhões só com essa iguaria.