Na estreia de Demna como diretor criativo da Gucci, em fevereiro, a alfaiataria voltou em versões fluidas e escuras, dentro do mesmo movimento que devolveu o terno às passarelas de outono e inverno de 2026 (Divulgação)
Jonalista colaborador
Publicado em 9 de setembro de 2026 às 11h30.
Nas passarelas de Paris e Milão para o outono e inverno de 2026, a alfaiataria dominou desfile atrás de desfile, mas raramente com o escritório em mente. Na Saint Laurent, em março, Anthony Vaccarello enviou catorze variações do Smoking pela passarela, o terno feminino criado por Yves Saint Laurent em 1966, marcando ao mesmo tempo os dez anos do estilista à frente da grife e os sessenta anos da peça. Ao lado dos modelos noturnos, ele também apresentou ternos de risca de giz para o dia, com corte alongado e decote profundo, prolongando o conceito do Smoking para além da noite.
Na Tom Ford, Haider Ackermann seguiu por um caminho parecido, com paletós de risca de giz em preto e branco, alguns fechados com gravata branca ou uma roseta na lapela, usados sobre camisas listradas com um toque dos anos 1980. O desfile de março, em Paris, teve modelos de corte raspado e descolorido caminhando por uma sala branca, e parte dos ternos apareceu coberta por capas de plástico transparente, um contraste entre o rigor da alfaiataria e um material associado a proteção contra o tempo.
Na Givenchy, Sarah Burton fechou a temporada com aplausos de pé. A estilista, que assumiu a casa em 2025 após deixar a Alexander McQueen, misturou tailleurs de ombro marcado com veludo, estampas de animais e sedas de quimono, um repertório que passou também por ternos de risca de giz depois reaproveitados na linha masculina da grife.
Da esquerda para a direita, ternos de risca de giz assinam o desfile da Givenchy, sob Sarah Burton, e o desfile que marcou os dez anos de Anthony Vaccarello à frente da Saint Laurent (Divulgação)
Na Gucci, a estreia de Demna como diretor criativo, em fevereiro, recorreu à alfaiataria fluida, com paletós de tecidos leves e decote baixo ao lado de referências diretas à era Tom Ford na própria Gucci, dos anos 1990 e 2000. Kate Moss fechou o desfile com um vestido preto sem costas.
Já a The Row reuniu, em março, paletós de ombro forte e corte enxuto, um deles com um broche de ouro e jade, outro com penas de avestruz aplicadas na frente, e um terno de festa com um clipe de diamante em cada lapela. A apresentação aconteceu no showroom espelhado da grife na Rue des Capucines, em Paris.
Na The Row, o terno de risca de giz ganhou broches de diamante e foi apresentado no showroom da grife na Rue des Capucines, em Paris (Divulgação)
Da esquerda para a direita, o terno de risca de giz aparece redesenhado pela Dolce & Gabbana, em Milão, na coleção Identity, e pela Issey Miyake, sob Satoshi Kondo, em Paris (Divulgação)
A pergunta natural diante dessas passarelas é por que a peça voltou justamente agora, quando cada vez menos gente a usa no trabalho. O home office consolidou reuniões por chamada de vídeo, feitas de qualquer lugar, inclusive da cama. Os códigos de vestimenta corporativos afrouxaram a ponto de um crop top no escritório virar tema de debate nas redes sociais.
A referência histórica para esse tipo de alfaiataria vem do documentário Paris Is Burning, de 1990, sobre a cena de bailes de drag queens em Nova York. Uma das categorias de disputa se chamava Executive Realness, na qual os participantes desfilavam com looks que imitavam executivos de Wall Street, ocupando por alguns minutos numa pista de dança a estética de poder que a vida real negava a eles. Os filmes Working Girl, de 1988, com Melanie Griffith, e Disclosure, de 1994, com Demi Moore, seguem essa mesma linha visual, com ombros marcados e saias justas que remetem ao andar dos corredores corporativos.
Uma nostalgia parecida circula fora das passarelas. Nas últimas semanas, usuários de redes sociais passaram a enviar fotos próprias para ferramentas como ChatGPT e Gemini pedindo versões deles mesmos nos anos 1980, com cabelo volumoso e roupas de couro. A busca pelo termo trend anos 80 cresceu cerca de 5.000% em uma semana no Google, segundo veículos de tecnologia.