Moda e história: a influência da Tapeçaria de Bayeux nos últimos mil anos (Museu de Bayeux/Divulgação)
Repórter de Casual
Publicado em 14 de julho de 2026 às 17h36.
Com 70 metros de comprimento e confeccionada com fios de lã coloridos sobre uma base de tecido de linho, a Tapeçaria de Bayeux é um dos bordados mais importantes da história e da moda. E ela está voltando para Londres, depois de uma temporada de quase mil anos na França.
Produzido no século XI, há quase mil anos, o tapete é um dos registros visuais mais completos da invasão normanda da Inglaterra em 1066, última conquista bem-sucedida do território inglês. Ao longo de sua extensão, o artefato medieval apresenta 58 cenas sequenciais que narram os acontecimentos políticos e militares da Batalha de Hastings, quando Guilherme, o Conquistador, derrotou as forças saxãs do rei Haroldo II.
Inspiração para coleções e peças atemporais da alta-costura, desde criações da Givenchy, Lanvin à Gucci, a tapeçaria foi emprestada pelo governo francês para o londrino, e será exibida ao público de 10 de setembro até julho de 2027, no British Museum (Londres).
"É a primeira vez em mil anos que uma peça tão importante da história britânica — e francesa também — estará nestas terras", afirmou o diretor do British Museum, Nicholas Cullinan, em entrevista à Associated Press (AP).
A expectativa em torno da mostra é alta: no primeiro dia de vendas do museu, este mês, foram comercializados cerca de 100 mil ingressos somente para vê-la em exibição.
Detalhe da histórica Tapeçaria de Bayeux: bordado do século XI retrata com riqueza de detalhes os combates e a vestimenta militar da Idade Média. (Museu de Bayeux/Divulgação)
Costurada com fios de lã sobre tecido de linho, pintados com tinta vegetal, o que a caracteriza tecnicamente como um bordado, e não uma tapeçaria, a obra foi vista como uma referência na moda. Tanto pela técnica de bordado quanto pelo acabamento e comprimento.
Historicamente, acredita-se que o trabalho tenha sido encomendado pelo bispo Odo de Bayeux, meio-irmão de Guilherme, e confeccionado por freiras inglesas antes de ser levado ao território francês. A peça retrata mais de 620 personagens humanos e 737 animais em 58 cenas distintas, que mostram desde preparativos logísticos e banquetes até combates corporais detalhados da Idade Média.
A iconografia e os métodos de produção medievais desenvolvidos para a criação da tapeçaria foram tão importantes para a história que passaram a influenciar o design contemporâneo. No cenário da alta-costura e do prêt-à-porter, marcas utilizaram a estética da obra e do bordado para estruturar coleções.
A Givenchy, por exemplo, apresentou em desfile de moda masculina casacos de tapeçaria de Bayeux inspirados na obra do poeta Charles Baudelaire, em 2019. A Lanvin, no mesmo ano, desenvolveu tricôs em técnica de intarsia com paisagens marítimas inspiradas no estilo visual medieval que a obra, agora exposta em Londres, evocou há quase mil anos.
Sob o comando de Rei Kawakubo, a Comme des Garçons também integrou elementos semelhantes a tapeçaria na coleção intitulada Orlando. No segmento de acessórios, a Gucci lançou uma mochila temática utilizando veludo lurex jacquard para emular a textura do tecido histórico.
Elisabeth Murray, curadora de moda do Victoria and Albert Museum (V&A), de Londres, revelou ao The Guardian que a presença desses padrões nas passarelas reflete uma tendência de historicismo que é justaposta a silhuetas modernas. A influência também alcança o mercado de massa (high street), onde marcas como River Island e Asos aplicam estampas inspiradas em tapeçarias em calças ajustadas e camisetas de corte contemporâneo.
Ainda que as tendências de moda sejam mais datadas do período pré-pandemia, a exposição quer renascer o estilo de bordado medieval na Inglaterra. Em complemento à preservação da técnica da Tapeçaria de Bayeux, feita pela artista Mia Hansson, ponto a ponto, a Royal School of Needlework desenvolveu em 2026 uma linha de produtos e kits de bordado inspirados diretamente na obra. Os produtos foram pensados para a exposição do British Museum.
Primeira cena da Tapeçaria de Bayeux: o rei Édouard le Confesseur instruindo Haroldo antes de sua viagem à Normandia. (Museu de Bayeux/Divulgação)
Conexão com a moda à parte, o processo de trazer a tapeçaria para Londres foi uma operação de alta segurança e tecnologia por si só.
Devido à fragilidade e ao valor do artefato, os detalhes do traslado de 560 quilômetros foram mantidos em segredo até que o caminhão de transporte cruzasse o Eurotúnel sob o Canal da Mancha. A tapeçaria foi dobrada em formato sanfona dentro de um estojo climatizado com controle de temperatura e umidade, por sua vez instalado sobre um suporte amortecedor de impactos.
O trajeto de 11 horas a partir da França contou com escolta policial até a chegada à área de descarga do museu, onde equipes técnicas acompanharam o desembalo. A negociação para o empréstimo da peça envolveu os mais altos escalões diplomáticos e foi anunciada oficialmente pelo presidente francês, Emmanuel Macron, durante uma visita de Estado ao Reino Unido em julho de 2025.
O empréstimo temporário coincide com o período de reformas do museu de Bayeux, na Normandia, que abriga oficialmente o artefato. Em contrapartida, o British Museum enviará tesouros do tesouro de Sutton Hoo (sítio arqueológico de um navio funerário anglo-saxão do século VII) para exibição em museus normandos.
Antes da abertura da exposição, a peça passará por alguns dias de aclimatação controlada no espaço expositivo para evitar danos às fibras. Para garantir a viabilidade do transporte, especialistas realizaram duas viagens de teste simuladas antes da transferência real.