Bansky: famoso grafiteiro britânico pode estar perto de deixar o anonimato (MATTHIAS KESTLE / ALAMY STOCK PHOTO / BANKSY/Divulgação)
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Publicado em 17 de março de 2026 às 11h35.
A identidade de Banksy, um dos artistas de rua mais famosos e misteriosos do mundo, pode finalmente ter sido revelada. Uma investigação feita pela Reuters afirma ter reunido evidências que ligam o grafiteiro britânico a Robin Gunningham, que teria adotado o nome legal David Jones.
Foram meses de apuração que envolveram análise de documentos judiciais, registros de imigração, fotos antigas e entrevistas em diferentes países. Segundo a Reuters, esses elementos apontam para uma trajetória que conecta o artista a episódios que vão desde uma prisão em Nova York, no início dos anos 2000, até murais que surgiram na Ucrânia durante a guerra.
Banksy é conhecido por obras em estêncil feitas em prédios públicos. Ele surgiu na cena underground de Bristol, no Reino Unido, nos anos 1990, e se tornou um fenômeno global com obras que abordam temas como guerra, solidão, consumismo e desigualdade. O mistério por trás de sua identidade é um dos grandes impulsionadores do seu sucesso.
A reportagem afirma que entrevistou uma dúzia de pessoas ligadas ao universo do artista e especialistas em arte urbana. Nenhuma conseguiu confirmar sua identidade, mas muitas deram detalhes sobre sua vida e carreira.
Os jornalistas também analisaram fotos antigas — a maioria com o rosto do artista oculto — e descobriram registros policiais e judiciais dos Estados Unidos que não haviam sido divulgados pela mídia, como uma confissão manuscrita ligada a uma prisão em Nova York no ano 2000, quando um homem admitiu ter vandalizado um outdoor. O documento foi assinado com o nome Robin Gunningham, que já era associado ao artista nos anos 2000.
Segundo a agência, o homem mudou legalmente de nome para David Jones, um dos mais comuns no Reino Unido, para manter sua identidade fora do radar público mesmo após o crescimento da fama internacional de Banksy.
Em 2022, a investigação ganhou um novo capítulo: murais atribuídos a Banksy começaram a aparecer em cidades ucranianas atingidas por bombardeios russos. Em Horenka, moradores disseram que três homens chegaram em uma ambulância e pintaram uma das obras, dois deles com o rosto coberto.
Uma testemunha afirmou ter visto os artistas sem máscara e foi apresentada a fotos de nomes associados ao grafiteiro. Entre eles estavam Robin Gunningham e Robert Del Naja, músico britânico da banda Massive Attack e figura histórica da cena de grafite em Bristol e que esteve na Ucrânia exatamente no período em que os murais surgiram, conforme apurou a Reuters. Nos mesmos registros aparece também um homem chamado David Jones, com datas de entrada e saída semelhantes às de integrantes do grupo.
Segundo uma fonte ouvida pela agência, a data de nascimento associada ao passaporte usado por Jones coincide com a de Robin Gunningham. Entretanto, a testemunha reconheceu Del Naja como um dos homens presentes no momento do grafite, embora o músico tenha negado teorias que o colocam como o artista ou relacionado a ele.
A teoria de que Banksy seja Gunningham não é nova. Desde pelo menos 2008, a imprensa britânica aponta o homem de Bristol como o principal suspeito por trás do pseudônimo.
Em 2016, pesquisadores da Universidade Queen Mary, em Londres, aplicaram uma técnica conhecida como perfilamento geográfico — método também usado em investigações policiais — para mapear mais de 100 obras do artista em cidades como Bristol e Londres. O resultado também apontou para Gunningham.
Outras teorias surgiram, como a de que Banksy seria Del Naja, devido às coincidências entre turnês do Massive Attack e o surgimento de novas obras. Del Naja sempre negou essa ligação e afirmou que a teoria é "uma boa história, mas não verdadeira".
Também existe a hipótese de que Banksy não seja uma única pessoa, mas sim um coletivo artístico.
Apesar das conclusões da investigação, a identidade do artista segue sem confirmação oficial. A Reuters afirma que apresentou suas descobertas a Gunningham/Jones, com perguntas detalhadas sobre sua carreira, mas ele não respondeu.
A Pest Control Office, empresa responsável por autenticar as obras de Banksy, disse apenas que o artista "decidiu não dizer nada". O advogado, Mark Stephens, contestou partes da investigação e pediu que a reportagem não fosse publicada. Segundo ele, revelar a identidade do grafiteiro poderia colocá-lo em risco e interferir em seu trabalho.
Stephens argumentou que o pseudônimo pode proteger a liberdade de expressão e assim garantir que artistas abordem temas políticos ou sociais sem medo de represálias, num trabalho que "serve a interesses sociais vitais", escreveu o advogado à Reuters.
A Reuters, no entanto, decidiu por publicar a reportagem, considerando que "o público tem um profundo interesse em compreender a identidade e a trajetória de uma figura com influência profunda e duradoura na cultura" e que "pessoas e instituições que buscam moldar o discurso social e político estão sujeitas a escrutínio, responsabilização e, às vezes, desmascaramento".