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Por que as roupas — principalmente as esportivas — podem encarecer com a guerra no Irã

Alta do petróleo e tensões em rotas comerciais pressionam custos indiretos em toda a indústria da moda, mas o sportswear depende de materiais específicos cuja importação pode ser especialmente afetada

A guerra e as roupas: como o vestuário esportivo pode ser afetado pelo conflito no Irã (Robert Prange/Getty Images)

A guerra e as roupas: como o vestuário esportivo pode ser afetado pelo conflito no Irã (Robert Prange/Getty Images)

Marina Semensato
Marina Semensato

Colaboradora

Publicado em 17 de março de 2026 às 08h27.

A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã acontece em um momento em que o mundo já vinha atravessando um período de instabilidade geopolítica. Há quase quatro anos convivemos com a guerra na Ucrânia, sem contar a escalada dos conflitos na Faixa de Gaza nos últimos dois, por exemplo.

Naturalmente, consequências sociais, políticas e econômicas são sempre as mais graves quando se trata de guerras. A moda está longe de ser a principal preocupação quando há vidas em risco e todo um sistema econômico sob a ameaça de colapsar.

Ainda assim, por se tratar de uma indústria, a moda não está isolada do restante da economia. Muito pelo contrário — o setor é e sempre foi íntimo ao cenário geopolítico, tanto do ponto de vista conceitual quanto prático, já que depende de cadeias globais de produção e logística.

Neste conflito específico, existe um fator importante: o petróleo. Cerca de 20% a 25% do petróleo mundial passa pelo Estreito de Ormuz, uma rota marítima entre Irã, Omã e Emirados Árabes Unidos e justamente uma das áreas mais sensíveis da atual escalada militar.

Quando há instabilidade ali, o mercado de energia reage rapidamente. Após o início dos ataques ao Irã, o preço do petróleo bruto chegou a ultrapassar US$ 100 por barril.

E o que a moda tem a ver com isso? Basicamente o mesmo que setores como transporte, energia e alimentos: quando o petróleo sobe, os custos aumentam em cadeia. O frete fica mais caro — do envio de matérias-primas até a distribuição das roupas nas lojas. Mas as consequências para a indústria da moda não se limitam à questão do transporte, sobretudo no vestuário esportivo.

Por que a consequência é maior para o vestuário esportivo?

Grande parte dessas roupas é feita de fibras sintéticas derivadas do petróleo, como poliéster, nylon e acrílico. Elas estão em leggings, camisetas técnicas, malhas, cadarços e até partes de tênis. Para se ter uma ideia do tamanho dessa dependência, o poliéster sozinho responde por cerca de 59% da produção global de fibras têxteis, segundo relatório da Textile Exchange.

Com a guerra pressionando o preço do petróleo, o problema vai além do transporte e chega até à fabricação das roupas, já que o custo e a disponibilidade das matérias-primas podem ser afetados. Segundo dados da Bloomberg, os preços de fibras químicas como poliéster e acrílico já subiram mais de 10% desde o início dos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.

À primeira vista, a solução parece simples: substituir fibras sintéticas por materiais naturais, como o algodão. Na prática, porém, não é tão fácil, já que uma mudança desse tipo exigiria reorganizar toda a cadeia de produção das marcas, hoje concentrada em países como Vietnã, China e Indonésia. E isso levaria anos.

Além disso, o desempenho das roupas também mudaria. Tecidos sintéticos são usados no esporte porque absorvem e evaporam o suor com mais eficiência — algo que o algodão não consegue fazer da mesma forma. Sem contar que, em muitos casos, o próprio algodão também pode sair mais caro para produzir.

Os efeitos da guerra na moda

Por enquanto, os primeiros efeitos da guerra no Irã já refletem na logística. Segundo a Reuters, remessas de roupas da Inditex, dona da Zara, e de outras grandes varejistas estão retidas em aeroportos de Bangladesh e da Índia devido às restrições impostas ao transporte aéreo de carga na região.

O sul da Ásia é um dos principais polos de fabricação de roupas do mundo. Marcas de fast fashion dependem de fábricas em países como Bangladesh, Índia e Paquistão para manter o fluxo constante de novas coleções. Se o transporte se encarecer ou sofrer interrupções, é provável que a produção desacelere e algumas peças demorem mais para chegar às lojas.

Além disso, petróleo mais caro significa logística e matérias-primas mais caras. Parte desse aumento tende a ser repassada pelas empresas ao consumidor final — mas o comportamento dele também muda. Quando gasolina, energia e alimentos sobem, muitas famílias passam a rever seus gastos. Itens vistos como menos essenciais, como roupas e sapatos, costumam ser os primeiros riscados do orçamento.

No mercado de luxo, entra ainda o chamado "feel-good factor" — a sensação de estabilidade e otimismo econômico que incentiva compras de alto valor. Nos últimos anos, o Oriente Médio vinha se consolidando como um mercado importante para o setor, com cidades como Dubai e Doha cheias de turistas e consumidores de alta renda. Um cenário de conflito, porém, tende a produzir o efeito oposto.

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