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Cinco diretoras, cinco contos: 'Rio de Clarice' reinventa Clarice Lispector nos cinemas

Sobrinha-neta da autora, Nicole Allgranti, conta à EXAME os bastidores de adaptar o último conto que Clarice escreveu antes de morrer

“Rio de Clarice”: filme adapta cinco contos de Clarice Lispector para o cinema, com direção de cinco cineastas brasileiras. (Divulgação)

“Rio de Clarice”: filme adapta cinco contos de Clarice Lispector para o cinema, com direção de cinco cineastas brasileiras. (Divulgação)

Publicado em 13 de agosto de 2026 às 17h01.

Uma festa de aniversário que expõe rachaduras familiares. Uma corrida de táxi que vira duelo psicológico. Um encontro inesperado que derruba as certezas de uma vida inteira. Na obra de Clarice Lispector (1920-1977), a epifania mora no banal, no instante mínimo em que o cotidiano racha e revela outra coisa por trás. É esse universo que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 13 de agosto, em "Rio de Clarice".

O longa-metragem reúne cinco contos da escritora, adaptados por cinco cineastas brasileiras — Maria Luiza Aboim, Eunice Gutman, Nicole Allgranti, Taciana Oliveira e Barbara Kahane —, com elenco de 20 nomes da dramaturgia nacional. O roteiro é assinado por Nicole Allgranti, sobrinha-neta de Clarice, ao lado de Teresa Montero, biógrafa e uma das maiores pesquisadoras da vida e obra da escritora.

É a primeira vez que a obra de Clarice ganha as telas em um projeto integralmente comandado por mulheres, atrás e na frente das câmeras.

O filme não segue uma trajetória única: são cinco histórias independentes, cada uma com sua diretora, unidas apenas pelos contos de Clarice. Em comum, personagens que vivem uma quebra no meio do cotidiano e saem dela sem conseguir mais ver a própria vida do mesmo jeito.

"Um dos grandes desafios desse projeto foi traduzir para a tela do cinema a intensidade psicológica e as epifanias do cotidiano que marcam a obra da Clarice", diz Allgranti à EXAME. "O filme é um mergulho muito fiel na complexidade humana dessas personagens e dessas histórias."

Uma adaptação de família

Allgranti dirige "A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais", o último conto que Lispector escreveu antes de morrer, publicado postumamente em 1979. Na tela, Carla de Souza Santos (Letícia Isnard), mulher rica e infeliz no casamento, tem uma epifania ao cruzar com uma mulher em situação de rua (Guida Vianna), um homem no conto original.

"Sempre soube que faria a adaptação dele para o cinema, porque o conto fala de uma questão social muito forte", afirma a diretora. "Acho que o fato de a Clarice não ter chegado a ver esse livro editado em vida... ela ficaria feliz de ver que a sobrinha-neta dela levou a história que ela criou para outros olhares quase cinquenta anos depois de sua morte."

O roteiro também bebe de fontes pessoais. Allgranti conta que cresceu cercada pelo acervo da família, com fotos, álbuns, cadernos e cartas trocadas entre as irmãs Lispector, boa parte hoje sob guarda de institutos e fundações. "Para fazer o roteiro deste filme com Teresa Montero, o que importava eram apenas as próprias histórias, recheadas de toda essa vivência", diz.

Questionada se dirigir a obra de uma parente traz o risco de um olhar mais "protegido", ela discorda. "Não vejo problema em ter afeto por quem escreveu, ao contrário, fortalece a conexão com as personagens, até porque o texto em si fala por si mesmo."

Da pesquisa documental para a ficção

Se para Allgranti o vínculo com Clarice é de sangue, para Taciana Oliveira ele é de quase duas décadas de pesquisa. Documentarista por trás de "Clarice Lispector — A Descoberta do Mundo", ela assina a direção de "Amor", sobre Hanna, mulher presa a uma rotina familiar que vive uma epifania de autodescoberta observando um cego dentro de um bonde.

"Esse retorno aconteceu a partir de um convite. Nicole me convidou para integrar o projeto, e 'Amor' foi o conto que a produção me ofereceu para dirigir", conta Oliveira à EXAME. A mudança de gênero, do documentário para a ficção, trouxe também uma mudança de pergunta. "Não mais quem foi Clarice, mas o que a literatura dela ainda pode dizer quando transportada para outro tempo, outro corpo e outra linguagem."

Uma das escolhas mais marcantes de seu segmento é transportar a personagem — Ana, no conto original — para o universo de uma família judaica ortodoxa. "Apesar das diferenças de idade, época e contexto, permanece uma questão essencial: a reflexão da mulher sobre o lugar que ocupa em uma estrutura social e familiar na qual os papéis femininos são rigidamente definidos", explica a diretora.

"Clarice não oferece respostas fáceis. Ela parte muitas vezes de situações muito simples, do cotidiano, para provocar alguma coisa na personagem que muda a forma como ela passa a olhar para si e para a própria vida", diz Taciana Oliveira.

Um mosaico de epifanias femininas

Além dos segmentos de Allgranti e Oliveira, o longa reúne mais três histórias:

Em "Feliz Aniversário", dirigido por Maria Luiza Aboim, a comemoração dos 89 anos de Dona Anita (Louise Cardoso) escancara ressentimentos entre filhos, noras, genros e netos — um retrato da solidão na velhice e da fragilidade dos laços familiares. O elenco reúne ainda Lucélia Santos, Madhia e Ana Chagas.

Em "Mal-estar de um Anjo", Eunice Gutman dirige Letícia Spiller como Anjo, personagem que mais se aproxima da própria Clarice. Depois de sair de uma sessão de análise, ela divide um táxi com uma passageira (Gabrielle Farias) que tenta assumir o controle da viagem — e da situação.

Em "Preciosidade", sob direção de Barbara Kahane, uma jovem criada pela empregada, com o pai ausente, sofre um episódio de assédio no caminho para a escola — um trauma que também funciona como catalisador doloroso de amadurecimento. O elenco é liderado por Karolyna Mendes.

Serviço

"Rio de Clarice" estreia nesta quinta-feira, 13 de agosto, em circuito nacional nos cinemas, com classificação indicativa de 12 anos.

Cartaz oficial do filme Rio de Clarice destacando o título e cenas com as atrizes do longa.

Cartaz oficial do filme 'Rio de Clarice', longa-metragem que adapta cinco contos de Clarice Lispector dirigidos por cinco cineastas brasileiras (Divulgação)

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