Inspirados nos kissa japoneses, os listening bars viraram alternativa às baladas entre os mais jovens (Pexels)
Jonalista colaborador
Publicado em 28 de setembro de 2026 às 06h20.
O jazz, gênero que por muito tempo esteve associado a uma geração mais velha, passou a ocupar outro lugar na rotina da geração Z. No TikTok, os vídeos com a hashtag #jazz cresceram quase 90% entre 2023 e 2024, e o estilo virou trilha para encontros com amigos, noites em bares de vinil e até referência para a moda. Uma pesquisa encomendada pela rede Popeyes no Reino Unido, em 2025, mostrou que o gênero já é ouvido por mais jovens britânicos do que o house e o K-pop, e que parte desse público se interessa justamente pela estética vintage e pelo ar antiquado que ele carrega.
O movimento acompanha uma mudança na forma como essa geração tem escolhido sair à noite. Segundo o Gallup, metade dos americanos de 18 a 34 anos diz consumir álcool, contra 59% dois anos antes, e programas mais calmos, que começam mais cedo e fogem da pista de dança, ganharam espaço na agenda desse público.
Estética vintage está entre os atrativos do jazz para a geração Z, segundo pesquisa feita no Reino Unido (Pexels)
Uma das traduções mais visíveis dessa mudança são os listening bars. Os bares se inspiram nos kissa japoneses, cafés criados há cerca de cem anos para ouvir discos com atenção. O Meikyoku Kissa Lion, aberto em 1926 em Shibuya, ainda recebe clientes em Tóquio, e os jazz kissa viveram seu auge nos anos 1970, quando se espalharam pelo país. Nos Estados Unidos, o formato chegou a endereços como o Silence Please, no Bowery, em Manhattan, e o Bar Benjamin, em Los Angeles, e ganhou até uma versão temporária assinada pela Valentino no ano passado.
A Miu Miu levou essa referência para Tóquio em maio, quando celebrou a reabertura de sua loja em Ginza com o Miu Miu Jazz Club. O evento, inspirado nos jazz kissa, começou com um coquetel na loja e seguiu para um salão de baile preservado da era Showa, onde se apresentou a pianista Hiromi. A noite terminou no Tokyo Kinema Club com um show da britânica Arlo Parks.
Jazz shoe da Celine: o modelo ganhou força com a primeira coleção de Michael Rider na grife e já tem versões de outras marcas (Divulgação)
Nas passarelas, a influência chegou pelos pés. O jazz shoe, sapato de amarrar com sola fina e bico amendoado, inspirado nos calçados usados em aulas de dança, ganhou força depois do desfile Resort 2026 da Celine, a primeira coleção de Michael Rider à frente da grife. O modelo logo apareceu em versões de Bottega Veneta e Dries Van Noten e chegou ao varejo em marcas como COS e H&M. Em setembro, Maggie Gyllenhaal usou um par no Festival de Veneza.
A trilha dessa geração também tem rostos novos. A islandesa Laufey, de 27 anos, que mistura jazz e pop, teve em 2023 a maior estreia de um álbum de jazz na história do Spotify, com Bewitched, e em fevereiro ganhou seu segundo Grammy. Na mesma cerimônia, a americana Samara Joy, de 26 anos, chegou ao sexto prêmio da carreira.
A procura tem levado os clubes a crescer, como o Blue Note, fundado em 1981 em Nova York, que abriu nesta semana sua primeira casa no Reino Unido, no subsolo do hotel St Martins Lane, em Covent Garden. Segundo Nick Lewis, diretor de programação, parte do público jovem chega à casa depois de conhecer músicos de jazz contemporâneo em festivais pop.
Em São Paulo, o Blue Note do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, anunciou neste mês uma segunda sala, com capacidade para até 350 pessoas sentadas. A casa, aberta em 2019, faturou mais de R$ 38 milhões em 2025.