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Da linha de montagem ao ateliê, o plano do ex-CEO da Renault para a Kering

Ex-presidente da Renault, o executivo italiano completa um ano no comando do grupo dono da Gucci centralizando a produção, cortando fornecedores e trazendo nomes da indústria automotiva

Luca de Meo, CEO da Kering desde setembro de 2025: o ex-presidente da Renault quer centralizar 70% da produção do grupo dono da Gucci (Divulgação)

Luca de Meo, CEO da Kering desde setembro de 2025: o ex-presidente da Renault quer centralizar 70% da produção do grupo dono da Gucci (Divulgação)

Gustavo Frank
Gustavo Frank

Jonalista colaborador

Publicado em 29 de setembro de 2026 às 17h23.

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Durante uma visita recente a uma unidade da Pomellato, marca de joias da Kering, Luca de Meo passou um bom tempo conversando com os artesãos que montam as peças à mão. Antes de sair, elogiou o trabalho e pediu, em tom de brincadeira, que tudo passasse a ser feito duas vezes mais rápido. O episódio foi relatado pelo Financial Times em reportagem sobre as mudanças que o italiano vem implantando desde setembro de 2025, quando deixou a Renault para assumir o conglomerado francês dono de Gucci, Saint Laurent, Bottega Veneta e Balenciaga.

Os primeiros resultados começaram a aparecer em julho. A Kering fechou o primeiro semestre de 2026 com receita de 7,2 bilhões de euros, alta de 1% em base comparável, após três anos seguidos de queda nas vendas. No mesmo período, a dívida líquida recuou para 3,3 bilhões de euros, redução de 4,7 bilhões de euros desde dezembro, ajudada pela venda da divisão de beleza para a L'Oréal por 4 bilhões de euros.

Um plano com prazo até 2030

As metas foram apresentadas em abril, em Florença, num evento com investidores que passou de três horas. Batizado de ReconKering, o plano prevê mais que dobrar a margem operacional recorrente, que foi de 11,1% em 2025, e está dividido em três fases até 2030. Entre as medidas está o fechamento de 250 lojas em quatro anos, das quais 84 já saíram de operação no primeiro semestre.

A parte mais sensível do projeto envolve como o grupo fabrica. De Meo quer que 70% da produção seja coordenada de maneira centralizada, com o restante sob gestão de cada marca, algo que rompe com a tradição da Kering de funcionar como uma holding sobre grifes independentes. Hoje a empresa trabalha com cerca de 4 mil fornecedores só em moda e artigos de couro, número que deve encolher, enquanto a fatia de produtos feitos nas 37 fábricas próprias do grupo na Itália deve dobrar.

Ao percorrer as operações, o executivo encontrou coleções que demoravam mais de seis meses para ir da passarela às lojas e marcas que usavam modelos distintos de caixa para embalar sapatos. "Eu odeio estoques", afirmou na teleconferência de resultados de julho. Em abril, respondeu aos críticos que o veem como um gestor de montadora focado em cortes. "Sei que esta é uma indústria criativa, mas também é indústria", disse a jornalistas.

Executivos da Renault e carros de corrida

Fachada Kering

Fachada da sede da Kering, grupo francês que estuda entrar diretamente no mercado de segunda mão para reconquistar o público que se afastou do luxo tradicional (Divulgação)

Os novos chefes das áreas digital, de recursos humanos e de relações com investidores vieram da antiga empresa de De Meo, e o responsável pela estratégia é um ex-sócio do Boston Consulting Group que trabalhou com ele na montadora. A compra de mídia, antes feita por cada marca, passou a ser centralizada, e o grupo criou núcleos corporativos dedicados à indústria e ao cliente. Segundo pessoas próximas à companhia ouvidas pelo FT, parte dos funcionários se queixa de perda de autonomia. Cédric Charbit, CEO da Saint Laurent, disse em maio que vê o chefe como alguém direto e decidido.

A conexão com o setor automotivo chegou também à Fórmula 1. Em maio, a Gucci foi anunciada como patrocinadora principal da Alpine, equipe controlada pelo Grupo Renault, a partir de 2027. O time vai competir como Gucci Racing Alpine Formula One Team, a primeira vez que uma grife de moda de luxo ocupa essa posição na categoria, e a Brioni, outra marca da Kering, ficará responsável pelos trajes da equipe fora das pistas.

Gucci no centro da conta

A recuperação passa pela marca que responde por cerca de 41% da receita da Kering. Em 2025, as vendas da Gucci caíram 22%, para 5,99 bilhões de euros, e no primeiro trimestre de 2026 recuaram mais 8% em base comparável, antes de uma aceleração nas lojas próprias no segundo trimestre. De Meo mantém um segundo escritório na sede da grife em Milão, onde passa cerca de dois dias por semana, e colocou Francesca Bellettini à frente da operação, com planos de reduzir descontos e fechar pontos em cidades periféricas da China.

As joias aparecem como a categoria em que o executivo enxerga mais espaço para combinar método industrial e trabalho artesanal. No primeiro trimestre, a divisão, que reúne Boucheron, Pomellato, Dodo e Qeelin, faturou o recorde de 269 milhões de euros (R$ 1,6 bilhão), alta de 22% em base comparável, e o plano apresentado em Florença prevê dobrar o tamanho desse negócio até 2030.

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