Casual

Belo Horizonte brinda um Carnaval que vai além da cachaça

Como as bebidas alcoólicas da capital mineira, antes parada durante as festas carnavalescas, a tornaram em um dos principais destinos para o feriado

Xeque Mate: a bebida criada em Belo Horizonte conquistou foliões em todo o Brasil nos últimos anos (Xeque Mate/Divulgação)

Xeque Mate: a bebida criada em Belo Horizonte conquistou foliões em todo o Brasil nos últimos anos (Xeque Mate/Divulgação)

Paloma Lazzaro
Paloma Lazzaro

Estagiária de jornalismo

Publicado em 3 de fevereiro de 2026 às 15h50.

Última atualização em 3 de fevereiro de 2026 às 16h48.

Nos últimos anos, se tornou comum ouvir que alguém irá viajar para Belo Horizonte durante o Carnaval. A afirmação seria estranha dez anos atrás, já que a capital mineira não era referência de folia.

Mesmo com os tradicionais festejos no interior do estado, sobretudo em cidades históricas como Ouro Preto e Diamantina, na capital mineira o Carnaval tem uma história curta e de sucesso. Em menos de uma década, a cidade se tornou o quarto destino mais buscado por viajantes para a comemoração, segundo dados da plataforma de hospedagens Kayak.

A capital está atrás apenas do Rio de Janeiro, Salvador e Recife em volume de buscas, todas as cidades que atraem há décadas foliões de todo o país. Apenas entre 2025 e 2026 o crescimento foi tanto que fez Belo Horizonte subir oito posições no ranking de destinos de Carnaval do Kayak.

O setor hoteleiro da capital já sente os efeitos desse crescimento. Segundo a Prefeitura de Belo Horizonte, a expectativa de ocupação está acima de 80% a partir desta semana, principalmente na região centro-sul, com cerca de 20% do público total formado por turistas, dois pontos percentuais a mais que em 2025.

Tanta demanda gerada em tão pouco tempo gera curiosidade. Afinal, o que há em Belo Horizonte que conquistou os corações carnavalescos do país? Existem diversos motivos, como o baixo custo da viagem e a culinária mineira, mas o grande diferencial está no copo.

As bebidas alcoólicas produzidas e consumidas na região já se tornaram febre em vários lugares, sobretudo em São Paulo e no Rio de Janeiro.

"BH se provou uma cidade de teste. A gente tem um público muito exigente. Quando o produto tem aprovação na cidade, a chance dele dar certo em outro lugar é muito maior", diz Kalinka Campos, sócia da Lambe Lambe, um dos principais nomes na cena belo-horizontina de bebidas. "Belo Horizonte é uma das cidades criativas da gastronomia do Brasil. A gente não tem medo de brincar com os sabores das bebidas."

As origens da onda das bebidas mineiras

Minas Gerais tem uma história de séculos no setor de bebidas alcoólicas. As cachaças produzidas na região são bebidas em todo o Sudeste, sobretudo se acompanharem um bom prato de petiscos como torresmo ou calabresa.

Assim como o Carnaval de rua, essa tradição era mais concentrada nas cidades históricas e interioranas. Porém, nas últimas décadas, a capital se tornou referência em produção de cervejas artesanais. Essa tendência preparou o terreno para a próxima onda.

Cervejaria artesanal: na década passada, a forte onda de cervejas artesanais em Belo Horizonte fortaleceu o setor na cidade (Divulgação/Porks)

O timing foi certeiro. Ao passo que o Carnaval cresceu em BH, a força e amplitude do setor de bebidas alcoólicas encontrou o melhor espaço possível para se manifestar.

Internamente, pontos como o Mercado Novo e o Mercado Central criaram espaço para bares e pequenas empresas entrarem.

O Mercado Novo se tornou especialmente estratégico para marcas como a Lambe Lambe testarem produtos e construírem relação direta com consumidores. "A gente tinha o corredor mais movimentado do Mercado Novo. Continua sendo assim até hoje", afirma Kalinka.

A Lamas Destilaria seguiu caminho semelhante no Mercado Central, transformando o espaço icônico da cidade em vitrine para seus uísques e destilados premiados internacionalmente.

A grande explosão dessa efervescência local, porém, veio com uma latinha verde-escura, que é vista na mão dos foliões há alguns carnavais.

Xeque Mate e a invasão das RTDs

O primeiro nome citado quando o assunto é a onda mineira de bebidas é Xeque Mate. A mistura de rum, mate, limão e guaraná conquistou o Brasil em 2024 e, até hoje, não mostra sinais de desaceleração.

A marca, que começou em 2015 como um concentrado artesanal servido em bares, se transformou em fenômeno local após a carbonatação e industrialização do produto.

Após anos sendo uma das queridinhas de BH, a expansão territorial da bebida foi apenas questão de tempo. "São Paulo hoje é nossa maior praça. A gente já superou as vendas de BH", diz Kessy Almeira, gerente de marketing do Xeque Mate

Os números impressionam. A produção da bebida Xeque Mate bateu as estimativas mais otimistas de aumento em 2025, alcançando a marca de 9 milhões de litros produzidos, um crescimento de 26% em relação a 2024.

Para 2026, a empresa já lança sua nova linha, Mascate Drinks, com produção inicial de 1,04 milhão de litros e aposta de incremento de 20% nas vendas.

Somadas, as Ready to Drink (RTD) Xeque Mate e Mascate Drinks aumentaram em 67% a produção entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026, como forma de se prepararem para a demanda mais elevada do Carnaval.

Como a Equilibrista e Lambe Lambe têm se expandido pelo país

O Xeque Mate abriu alas para uma onda forte do mercado independente de drinques prontos. Atualmente, outras bebidas conterrâneas dele podem ser facilmente vistas em bares, adegas e carrinhos de ambulantes fora de Minas Gerais.

Entre as latinhas avistadas, se destacam as bebidas da Equilibrista, pioneira do mercado com o Xeque Mate. A empresa começou em 2015 fazendo drinques à base de vinho e frutas.

Gingibre: primeira latinha da Equilibrista é até hoje uma das mais queridas pelos foliões (A Equilibrista/Divulgação)

Em 2018, eles criaram seu produto mais icônico, o Gingibre. O drinque à base de gengibre, limão e gim foi lançado em formato de lata no Carnaval de 2020 e já conquistou o paladar de alguns mineiros.

Mesmo com turbulências durante a pandemia, a recuperação veio forte. Para o Carnaval 2026, a Equilibrista prevê faturamento entre R$ 10 a 12 milhões. "A gente espera vender pelo menos 1,2 milhão de latas nesse Carnaval", afirma Drager.

A empresa, que hoje tem quatro sabores no portfólio (Gingibre, Rubra, Veneta e Chablauzinho), já expandiu para São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Brasília e sul da Bahia.

"Em São Paulo, a gente imagina que terá pelo menos o dobro de vendas do que teve no ano passado. Em Belo Horizonte deve bater mais ou menos isso também", projeta Drager. "A cada ano nossas vendas dobram."

A Lambe Lambe, que começou em 2019 no Mercado Novo, apostou em frutas naturais e sabores rotativos. A estratégia de proximidade com os consumidores virou marca registrada.

Lambe Lambe: latinhas coloridas se tornam febre dentro e fora de Belo Horizonte (Divulgação/Lambe Lambe)

"Não faria sentido a gente não trazer um novo sabor para o Carnaval. Então, nisso a gente veio com esses dois novos sabores", afirma Kalinka Campos, referindo-se aos lançamentos do sabor Manga e Maracujá, presente desde o primeiro ano da marca, mas apenas transformado em latinha em 2026, e da bebida sem álcool Lambe Lambe Zen.

Para o Carnaval 2026, a marca prevê crescimento de 30% em relação ao ano anterior e já planeja produção extra. "Achamos que a bebida irá esgotar, principalmente por causa do atendimento das praças de Rio de Janeiro e São Paulo. Até hoje não conseguimos atender amplamente essas praças no Carnaval, porque já acaba tudo em BH", diz Kalinka.

A Lambe Lambe já expandiu para três lojas em Belo Horizonte e inaugurou unidade no Rio de Janeiro, com "planos urgentes" de abrir uma unidade em São Paulo.

Destilarias entram no jogo das latinhas

Até mesmo casas conhecidas pelas suas bebidas destiladas premiadas entraram na onda, como a Lamas Destilaria e a Vanfall.

A Lamas é conhecida por whiskies premiados em competições, em que mais de uma vez entrou em conflito a marcas escocesas, japonesas e americanas. Em 2026, para o Carnaval, a empresa decidiu entrar no mercado de RTDs com o produto Sky Kush Ice, um drinque canábico.

Sky Kush Ice: aposta da Lamas Destilaria para o Carnaval de BH vem com proposta aromática e whisky premiado (Lamas Destilaria/Divulgação)

"A gente viu da importância de criar uma bebida de alta qualidade para um público jovem, porque o público também quer conhecer coisas novas, mas quer produtos de qualidade", afirma Marcos Cysne, sócio proprietário da Lamas.

A ideia surgiu a partir do contato da família fundadora com o mercado internacional. “A gente está usando terpenos, que são permitidos. Não tem THC, não tem canabidiol, nada ilegal. O objetivo é trazer uma experiência sensorial olfativa e gustativa diferente”, explica.

A estreia do Sky Kush Ice será no Carnaval de Belo Horizonte. A escolha não é casual: “Foi nas ruas da capital mineira que outras bebidas autorais ganharam tração antes de alcançar projeção nacional”, afirma o produtor.

A Vanfall, por sua vez, entrou no mercado dos RTDs há alguns anos, também no contexto do Carnaval de Belo Horizonte.

Vanfall Aura: novo sabor de maçã verde chega à linha de RTDs da destilaria nesse Carnaval (Vanfall/Divulgação)

A marca cresceu 70% de 2024 para 2025 e projeta mais 80-90% para 2026. Para a marca, o Carnaval representa um aumento de 170% nas vendas em relação ao restante do ano.

"A gente nunca quis estar presente em um ponto específico de BH. Tentamos estar presentes nos diferentes pontos em que a cultura ocorre na cidade, desde eventos de funk até feiras de rua", afirma Pedro Junqueria, sócio-fundador da Vanfall Destilaria. “Os drinques prontos surgiram para atender uma demanda crescente do público por praticidade, sem abrir mão de qualidade, e o Carnaval de Belo Horizonte foi um ambiente natural para essa expansão.”

Um Carnaval bilionário

Em 2026, Belo Horizonte deve novamente bater recordes. A Prefeitura projeta reunir 6,2 milhões de foliões durante a festa, com impacto econômico estimado em R$ 1 bilhão e criação de mais de 20 mil postos de trabalho diretos e indiretos.

A programação conta com mais de 600 desfiles e quase 60 blocos espalhados pela cidade. Para garantir a festa, a Prefeitura mobilizará mais de 500 profissionais atuando 24 horas por dia, 1.525 garis, 400 agentes de trânsito e instalará 15.438 diárias de banheiros químicos - aumento de 20% em relação à edição anterior.

Bares e restaurantes devem registrar aumento no faturamento entre 10% e 20% no período. Segundo pesquisa da Fecomércio MG em parceria com a Belotur, 41% dos foliões planejam gastar acima de R$ 400 com alimentação, bebidas e fantasias — e as bebidas mineiras certamente estarão no topo da lista de compras.

Acompanhe tudo sobre:bebidas-alcoolicasTurismoCarnavalBelo Horizonte

Mais de Casual

Academia deixa de ser só treino e vira espaço de equilíbrio, segundo pesquisa

Brinde à sobriedade: hotelaria de luxo abraça as experiências sem álcool

F1 de 2026 terá novas equipes e a maior revolução tecnológica em décadas

Vinhos rosés para além do verão: a visão da Minuty para o Brasil