Um dos mostradores pintados à mão pelo artista John Nicol para a Paulin, marca escocesa conhecida por suas colaborações com artistas de Glasgow (Divulgação)
Jonalista colaborador
Publicado em 5 de julho de 2026 às 09h56.
Um número crescente de marcas de relojoaria independente tem recorrido a artistas plásticos para desenvolver mostradores, movimentos e conceitos inteiros de relógio. Designers de produto já colaboravam há décadas na criação de peças de relojoaria, desenhando caixas, mostradores e embalagens. Nos últimos anos, porém, esse papel passou cada vez mais para as mãos de artistas plásticos, convidados a assinar o projeto de uma peça inteira.
Marcas como Alto, Ressence, Paulin e anOrdain vêm apostando em nomes da cena artística contemporânea, muitos sem histórico prévio com relojoaria, para assinar edições limitadas que fogem do padrão comercial do setor.
O Art 01, criado pela Alto em parceria com o escultor francês Bernar Venet, com caixa de bronze patinado e mostrador inspirado nas obras monumentais do artista (Divulgação)
A francesa Alto foi fundada por Thibaud Guittard, ex-gerente de marketing da Audemars Piguet, para ser uma marca dedicada a colaborações com artistas. Sua peça mais recente é o Art 01, feito com o escultor Bernar Venet, conhecido pelas obras monumentais em aço Cor-Ten construídas a partir de arcos, linhas e ângulos.
O aço das esculturas de Venet foi descartado por provocar interferência magnética no movimento. Em seu lugar, a Alto criou uma liga de bronze patinada que reproduz a tonalidade do Cor-Ten e evolui com o uso. O mostrador tem 0,8 milímetro de espessura e traz uma micro escultura de Venet em relevo, com caixa de 40 milímetros e fundo transparente. Apenas dez unidades foram produzidas, cada uma validada pelo próprio artista.
Mostrador da parceria entre a Paulin e o artista John Nicol, com pinceladas abstratas que tornam cada peça única (Divulgação)
As marcas britânicas Paulin e anOrdain, ambas de Glasgow e do mesmo grupo, construíram parte da identidade em torno de artistas locais. A Paulin lançou séries com mostradores pintados à mão pelo artista John Nicol, cada peça única dentro de um estilo abstrato e colorido. A anOrdain levou a artista Rachel Duckhouse, conhecida pelo trabalho com gravura, para desenhar a decoração de um movimento inédito, visível através de um fundo de caixa transparente.
Lewis Heath, fundador das duas marcas, descreve o processo como um exercício de confiança. "Você muitas vezes não sabe se as ideias de um artista vão funcionar num relógio até chegar à fase de amostras." Para ele, a vantagem está na falta de familiaridade dos artistas com os códigos do setor.
O fundo de caixa transparente do anOrdain, com a decoração do movimento assinada pela artista Rachel Duckhouse (Divulgação)
O artista belga Jules Wittock ao lado de labirintos desenhados à mão livre, técnica que ele vai levar ao mostrador do novo Ressence Type 9
A belga Ressence lança em agosto uma edição com o artista Jules Wittock, que desenha labirintos à mão livre com uma palavra escondida ao longo do percurso. A peça vai usar o sistema de discos orbitantes que substitui os ponteiros tradicionais da marca.
O desenho de Wittock ficará sobre os discos giratórios, e só à meia-noite, quando o mecanismo se alinha, será possível ler a palavra escondida, escrita em material que brilha no escuro. A edição terá cerca de 80 unidades. A linha regular do Type 9 custa CHF 12.500, cerca de R$ 72 mil.
Para o fundador da Ressence, Benoit Mintiens, uma parceria com artista costuma produzir resultados mais imprevisíveis do que uma colaboração comercial. "Você chega a algo que não pensaria em fazer como relojoeiro, enquanto o artista passa a trabalhar numa tela pequena e em movimento."
O movimento acompanha um cenário de relojoaria saturado de lançamentos, no qual peças assinadas por artistas viraram uma forma de diferenciação para marcas independentes, construídas a partir de negociações entre relojoeiros e artistas que nunca haviam desenhado um objeto tão pequeno quanto um mostrador.