Peças do arquivo pessoal do estilista preservadas em plástico, parte do acervo que vai a leilão pela Maurice Auction e Kerry Taylor Auctions (Marc Chatelard/Divulgação)
Jonalista colaborador
Publicado em 7 de julho de 2026 às 06h43.
Martin Margiela nunca deu entrevistas de rosto à câmera, nunca subiu ao palco para o aplauso final de um desfile e deixou a indústria da moda em 2009 sem despedidas públicas. Por isso surpreende o anúncio de que o designer belga decidiu abrir parte do seu arquivo pessoal para um leilão, cedendo objetos guardados havia décadas a colecionadores e instituições.
A venda reúne 195 lotes organizados pela Maurice Auction, em parceria com a casa de leilões londrina Kerry Taylor Auctions. O leilão acontece em 9 de julho, às 14h, durante a semana de alta-costura parisiense, com estimativa de arrecadação de até 412 mil euros, o equivalente a cerca de R$ 2,43 milhões.
Antes do martelo bater, as peças ficam expostas ao público até amanhã, 8, das 11h às 18h, mediante reserva, no Quartier Général, na rua Fontaine au Roi 71, no 11º arrondissement de Paris. É a primeira vez que um criador vivo trabalha diretamente com uma casa de leilões para colocar seu próprio arquivo pessoal no mercado.
Páginas do portfólio de 1987 de Martin Margiela, com esboços e anotações originais, uma das peças centrais do leilão em Paris (Marc Chatelard/Divulgação)
Entre os itens mais aguardados está o portfólio de 1987, um dossiê coberto de algodão branco com colagens surrealistas e primeiros esboços do sapato Tabi, criado quando Margiela ainda percorria a Itália tentando emplacar sua visão desconstrutivista. A peça foi roubada em um trem e recuperada pela polícia um ano depois; hoje está avaliada em até 8 mil euros, cerca de R$ 47,2 mil.
O lote de maior estimativa da venda é um par de botas Tabi de 1991, usado em uma exposição no Museu Galliera de Paris, onde visitantes eram convidados a escrever mensagens pelas paredes, pelo chão e também sobre o calçado. A peça única resultante está avaliada entre 30 mil e 50 mil euros, uma faixa que, em reais, corresponde a algo entre R$ 177 mil e R$ 295 mil.
Parte do leilão é dedicada ao acervo da mãe de Margiela, Léa Bouchet, com peças da Hermès produzidas durante o período em que o designer assinou a direção criativa da grife francesa, entre 1997 e 2003. O lote de maior valor dessa seção é uma bolsa em couro de bezerro marrom-escuro, descrita pelo próprio Margiela como uma peça rara de manufatura excepcional, com estimativa entre 4 mil e 6 mil euros, o equivalente a algo entre R$ 23,6 mil e R$ 35,4 mil.
Também fazem parte do lote o jaleco branco usado por Margiela e sua equipe nos anos em que a sede da maison funcionava toda pintada de branco, com estimativa entre 6 mil e 10 mil euros, entre R$ 35,4 mil e R$ 59 mil, além de um telefone de disco com o número de contato do estúdio escrito à caneta, avaliado entre 3 mil e 5 mil euros, entre R$ 17,7 mil e R$ 29,5 mil.
A venda inclui ainda bonecas Barbie vestidas com réplicas em miniatura de looks históricos da marca, entre eles versões reduzidas do Tabi, referência recorrente na obra do designer desde o fim dos anos 1980.
A colaboração entre as duas casas de leilão já havia acontecido em janeiro de 2025, quando peças do início da carreira de Margiela, pertencentes à ex-modelista Graziella Picozzi, foram vendidas por cerca de 1,89 milhão de euros, valor próximo de R$ 11,1 milhões e recorde para um leilão de moda realizado na França.
O resultado teria despertado o interesse do próprio designer em revisar e liberar parte do seu acervo pessoal. Parte da arrecadação deste novo leilão será destinada a uma associação de combate à Aids. As reservas para visitação e o catálogo completo estão disponíveis no site da Maurice Auction.