Livreiros independentes de Londres relatam clientes que chegam às lojas com listas de leitura geradas por chatbots (Pexels)
Jonalista colaborador
Publicado em 5 de outubro de 2026 às 06h22.
Pedir à inteligência artificial um livro parecido com o último romance lido virou um uso corriqueiro dos chatbots, a ponto de sites de tecnologia brasileiros publicarem guias com comandos prontos para esse tipo de consulta e listas de plataformas especializadas, como Bookclub.AI e StoryGraph. Em poucos segundos, a ferramenta devolve uma seleção de títulos com a justificativa de cada escolha, sem a necessidade de visitar uma livraria ou conversar com um vendedor.
No Reino Unido, livreiros de lojas independentes relatam que clientes chegam cada vez mais ao balcão com listas geradas por IA abertas no celular, segundo artigo da livreira londrina Natalie Beecroft publicado pela revista Dazed no fim de setembro. Para os profissionais ouvidos pela publicação, o recurso tende a repetir os mesmos títulos para leitores diferentes e afasta o público do hábito de percorrer estantes em busca de algo novo.
Pesquisa Retratos da Leitura de 2024 registrou pela primeira vez mais não leitores do que leitores no Brasil, com 53% dos entrevistados (Pexels)
A edição mais recente da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro e divulgada em novembro de 2024, mostra que o tema ou assunto é o fator que mais pesa na escolha de um livro, citado por 33% dos leitores, seguido pela capa e pelas dicas de outras pessoas, com 12% cada. As redes sociais têm influência maior entre os mais jovens. Do total de leitores, 8% disseram ter escolhido o último livro depois de vê-lo no YouTube, no Instagram ou em outras plataformas, índice que chega a 16% na faixa de 18 a 39 anos.
O levantamento, que ouviu 5.504 pessoas em 208 municípios, também registrou pela primeira vez desde 2007 mais não leitores do que leitores no país. Ao todo, 53% dos entrevistados não haviam lido nem parte de um livro nos três meses anteriores, e o Brasil perdeu cerca de 6,7 milhões de leitores desde 2019. Entre os que não leram, a falta de tempo foi a justificativa mais comum, mencionada por 33%.
A confiabilidade das sugestões automáticas ganhou um exemplo conhecido em maio de 2025, quando o Chicago Sun-Times publicou uma lista com 15 recomendações para o verão em que dez obras não existiam. O material fazia parte de um caderno especial produzido pela King Features, empresa do grupo Hearst, e foi escrito por um freelancer que usou um chatbot sem checar o resultado. O texto atribuía a autores reais títulos inventados, como Nightshade Market, de Min Jin Lee, autora de Pachinko, e Tidewater Dreams, apresentado como o primeiro romance de ficção climática de Isabel Allende. O caderno também circulou no Philadelphia Inquirer, e a King Features demitiu o autor.
Mesmo quando os livros indicados existem, os livreiros apontam limitações. Danielle Moylan, dona da Lala Books, em Camberwell, contou à Dazed ter atendido uma cliente frustrada com duas leituras sugeridas por IA, que seguiam o mesmo gênero do romance de que ela havia gostado sem despertar o mesmo envolvimento. Beecroft afirma que os sistemas privilegiam o que já vende bem e dão menos visibilidade a pequenas editoras, autores estreantes, ficção traduzida e escritores não brancos. A livreira Madeleine, também ouvida pela revista, faz uma ressalva e reconhece que a tecnologia pode aproximar da leitura quem se sente intimidado por grandes acervos ou por conversar com um vendedor.
A recomendação automatizada também chegou ao serviço público. Na Coreia do Sul, bibliotecas públicas operam quiosques que sugerem títulos com base em dados de leitura, tecnologia fornecida por empresas como a Flybook, que até 2021 já havia instalado os equipamentos em 72 unidades. Em 2025, ano em que completou 80 anos, a Biblioteca Nacional da Coreia anunciou planos para um agente de IA capaz de indicar obras de acordo com os padrões de leitura de cada usuário.