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A carta Pokémon de R$ 85 milhões e o mercado que nasceu da nostalgia

Comerciantes citam bancários, advogados e até "crypto bros" entre os novos compradores de peças raras do jogo

Charizard e Blastoise das primeiras edições estão entre as cartas mais disputadas por colecionadores dispostos a pagar valores milionários (Reprodução/Instagram)

Charizard e Blastoise das primeiras edições estão entre as cartas mais disputadas por colecionadores dispostos a pagar valores milionários (Reprodução/Instagram)

Gustavo Frank
Gustavo Frank

Jonalista colaborador

Publicado em 15 de setembro de 2026 às 11h50.

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O hobby que ocupava recreios de escola nos anos 1990 hoje movimenta cifras que rivalizam com o mercado de arte. Cartas de Pokémon, antes trocadas por curiosidade entre crianças, transformaram-se em ativo procurado por investidores, banqueiros e colecionadores dispostos a pagar valores milionários por uma única peça em bom estado.

O britânico Jordan Dunne, de 34 anos, largou o emprego de analista de dados em um escritório de advocacia em Chester depois de perceber que revender cartas antigas rendia mais do que o salário fixo. Hoje comanda a Big Box Gaming, negócio dedicado a caçar peças raras em feiras pelo mundo e revendê-las em transmissões ao vivo pelo eBay.

Segundo relato do comerciante ao Financial Times, o perfil de comprador mudou de forma visível no último ano, com banqueiros, advogados e investidores do universo cripto entrando em disputa por peças que antes interessavam só a colecionadores tradicionais.

Nostalgia com dinheiro no bolso

O movimento combina memória afetiva e poder de compra. A geração que cresceu jogando o game nos anos 1990 e 2000 chegou aos 30 e 40 anos com renda para sustentar um hobby que antes cabia no bolso da mesada, fenômeno descrito ao jornal britânico por Adam Ireland, chefe global de colecionáveis do eBay.

No primeiro semestre deste ano, Pokémon foi o termo mais buscado na categoria de colecionáveis do próprio eBay. Em fevereiro, a casa de leilões Goldin vendeu uma carta Pikachu Illustrator de 1998 por US$ 16,5 milhões, o equivalente a cerca de R$ 84,98 milhões pela cotação atual, recorde histórico para o segmento. Outras cartas já ultrapassaram a casa do milhão de dólares em negociações recentes.

Da pandemia ao lançamento de sets clássicos

Cartas certificadas pela PSA à venda por até £2.999,95 cada, prova de como peças raras viraram ativo de alto valor no mercado colecionador (Reprodução/Anna Gordon/Financial Times)

O interesse deu um salto durante a pandemia, quando o público em casa redescobriu o hobby. A euforia esfriou com a reabertura do mundo, mas a estrutura de comerciantes e compradores formada nesse período permaneceu ativa. Em 2023, a Pokémon Company relançou a coleção 151, reunindo personagens originais como Bulbasaur, Snorlax e Charizard, queridinhos da primeira geração de fãs. No ano seguinte veio a versão mobile do jogo de cartas, reforço para atrair jogadores de volta ao hobby físico. Comerciantes esperam que o aniversário de 30 anos da franquia, no mês que vem, provoque nova onda de procura.

Em agosto, Dunne vendeu três cartas da própria coleção por cerca de £300 mil, cerca de R$ 2,09 milhões, peças compradas por metade desse valor um ano antes. Já o comerciante Tom Lake relatou ao Financial Times a venda de uma carta Mario Pikachu por cerca de £20 mil, perto de R$ 139,4 mil, adquirida por apenas £30, algo como R$ 209, oito anos atrás.

Certificadoras sem dar conta da demanda

As cartas antigas concentram o maior potencial de valorização dentro desse universo. A Pokémon Company continua imprimindo bilhões de cartas por ano, mas o volume impresso duas décadas atrás é limitado, e o número de exemplares preservados em estado quase perfeito é ainda menor. Oz Kara, cofundador do aplicativo Cardfolio, explicou ao jornal essa divisão do mercado em dois blocos: de um lado, as cartas modernas, sem restrição de reimpressão; de outro, as antigas, verdadeiramente escassas.

Especialistas recorrem a certificadoras como a norte-americana PSA, que classificam a conservação das peças em escala de 1 a 10. Pequenos defeitos, como arranhões ou centralização imperfeita da arte, mudam drasticamente o preço. Das cartas Pikachu da coleção Legendary de 2002, apenas 35 exemplares receberam nota máxima da PSA. Um dealer citou uma dessas cartas vendida por cerca de £250 mil, algo como R$ 1,74 milhão, na nota 10, ante aproximadamente £15 mil, R$ 104,5 mil, por uma unidade nota 9.

O ritmo de crescimento sobrecarregou as próprias certificadoras. A PSA processou mais de 1,3 milhão de cartas somente em agosto, dez vezes o volume do mesmo mês em 2021, segundo a empresa de análise de dados GemRate, e chegou a suspender temporariamente o recebimento de cartas de menor valor por falta de capacidade. No Reino Unido, a intermediária The Grading Club também pausou novas submissões no mês passado, citando crescimento fora do previsto.

Segurança virou preocupação real

Esse volume de dinheiro trouxe um efeito colateral incômodo: o risco de furto. Na feira Card Con, em Farnborough, que dobrou o público para 10 mil visitantes neste ano, compradores circulavam com maletas lacradas por senhas pessoais guardando somas em dinheiro, e vários comerciantes preferiram não se identificar por medo de assaltos.

O receio tem fundamento. No começo deste mês, ladrões invadiram a loja da Fanatics Collectibles na Regent Street, em Londres, e levaram cartas de alto valor. No ano passado, um homem foi preso em Manchester após a polícia encontrar um lote roubado de cartas Pokémon avaliado em cerca de £250 mil, R$ 1,74 milhão pela cotação atual.

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