Fotografar o prato antes de provar virou hábito citado por chefs como um dos motivos por trás da onda de restrições ao celular nos EUA (Pexels)
Jonalista colaborador
Publicado em 14 de setembro de 2026 às 13h39.
Bares e restaurantes de pelo menos 11 estados americanos, entre eles Califórnia, Nova York, Texas, Illinois e Massachusetts, adotaram nos últimos meses alguma forma de restrição ao uso do celular durante o atendimento, segundo levantamento da Axios. Washington, capital do país, concentra a maior densidade desses endereços. A tendência começou isolada em alguns bares de coquetéis, mas hoje aparece também em redes de fast-food e em casas de alta gastronomia, sinal de que deixou de ser experiência pontual para virar estratégia de negócio.
O possível incômodo por trás da mudança é conhecido por qualquer garçom. Clientes fotografando o prato antes de provar, notificações interrompendo a conversa, pedidos de wifi logo na chegada à mesa. O relatório anual da James Beard Foundation em parceria com a Deloitte, divulgado em fevereiro, chegou a apontar as redes sociais entre os fatores com maior potencial de afetar a operação dos restaurantes independentes em 2026.
A bolsa Yondr, criada em 2014, virou o instrumento mais usado por bares e restaurantes americanos para bloquear o acesso ao celular durante o atendimento (Divulgação)
O instrumento mais usado por essas casas é a Yondr pouch, uma bolsa magnética que só é destravada com uma base própria mantida pela equipe do estabelecimento. A empresa por trás do produto foi fundada em 2014 pelo empreendedor Graham Dugoni, depois de presenciar plateias gravando às escondidas um show ao vivo, e hoje opera em 27 países, atendendo escolas, tribunais, casamentos e até turnês de artistas que querem evitar vazamento de conteúdo antes do lançamento oficial.
No setor de alimentação, o chef Rock Harper foi um dos primeiros a testar o modelo em Washington. No bar Hush Harbor, aberto em setembro de 2025, cada cliente recebia a bolsa lacrada na entrada e só podia acessar o telefone pedindo a um funcionário para destravá-la, geralmente para sair até a área externa e fazer uma ligação. Harper fechou o endereço fixo em maio, mas segue com o conceito em formato itinerante, levando bares sem celular para diferentes pontos da cidade a partir de junho.
Em Charlotte, na Carolina do Norte, o bar de coquetéis Antagonist segue lógica parecida, mantendo os aparelhos guardados por até duas horas durante o atendimento. Segundo relato à Axios, a casa recebe hoje comentários de clientes que dizem sair do jantar com a sensação de terem conversado de verdade com quem estava à mesa, sem checar notificação nem parar para fotografar o prato.
Chick-fil-A criou o cellphone coop, caixa em que o cliente guarda o celular por vontade própria durante a refeição em troca de sorvete grátis (Divulgação)
A Chick-fil-A testou em algumas unidades dos Estados Unidos uma versão mais lúdica da ideia, batizada de cellphone coop, uma caixa de papelão onde o cliente guarda o aparelho por vontade própria durante a refeição. Grupos que completam a visita sem mexer no telefone recebem sorvete de graça, e a própria caixa vem com sugestões de perguntas para puxar assunto à mesa.
Colunista do Wall Street Journal e ex-bartender, Adam Chandler descreveu o fenômeno comparando o brilho das telas de hoje à fumaça de cigarro que cobria os bares décadas atrás, hábito que também precisou de tempo e de pressão social até sumir das mesas americanas.
O dado que mais chama atenção nesses levantamentos é o perfil de quem mais aprova a restrição. Pesquisas citadas pela James Beard Foundation apontam a geração Z como a faixa etária que mais relata reduzir o tempo de tela de forma intencional, o que reforça que o público disposto a guardar o celular durante o jantar é mais amplo do que a indústria de restaurantes imaginava até pouco tempo atrás.
No Brasil, o debate ainda caminha em direção oposta. Belo Horizonte sancionou em dezembro uma lei que obriga bares e restaurantes a manter cardápio impresso ou em tablet, evitando que o cliente dependa só do próprio celular para acessar o QR Code. Já em Minas Gerais, um projeto de lei do deputado estadual Alencar da Silveira, que propõe proibir o uso de celular dentro de bares e restaurantes, segue em tramitação desde 2023 e enfrenta resistência da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes.