Lideranças enfrentam sobrecarga recorde e queda histórica no engajamento global em 2025 (Nicoleta Lonescu/Shutterstock)
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Publicado em 13 de maio de 2026 às 17h00.
Por Tiago Amor*
Nunca houve tanto investimento em inteligência artificial e automação, produtividade e transformação digital.
Falamos tanto sobre eficiência operacional, aceleração de resultados e alta performance. Ainda assim, o trabalho nunca pareceu tão emocionalmente desgastante.
O relatório State of the Global Workplace 2026, da Gallup, mostrou que o engajamento global dos trabalhadores caiu para 20% em 2025, o menor nível desde 2020.
Em 2022, esse índice havia atingido 23%. Desde então, o mundo corporativo entrou em um movimento contínuo de deterioração da experiência de trabalho.
O impacto estimado já chega a aproximadamente US$ 10 trilhões em perda de produtividade no mundo, algo equivalente a cerca de 9% do PIB global.
Isso é um sinal de esgotamento operacional das organizações.
As empresas foram pressionadas a acelerar. O problema é que poucas conseguiram equilibrar essa aceleração com uma revisão séria sobre como o trabalho estava sendo organizado.
Isso envolve como ele estava sendo distribuído, gerenciado e sustentado. O resultado é um modelo corporativo que continua cobrando crescimento contínuo.
No entanto, frequentemente devolve sobrecarga contínua. O dado da Gallup confirma, em escala global, algo que já vinha sendo sentido dentro das empresas há algum tempo.
O ponto mais preocupante seja que esse desgaste já não está apenas nas equipes operacionais, ele também chegou nas lideranças.
Um dos achados mais importantes do relatório é que a piora recente do engajamento foi puxada principalmente pelos gestores.
Entre 2024 e 2025, o engajamento dos líderes caiu de 27% para 22%. Desde 2022, a queda acumulada chegou a nove pontos percentuais.
Os gestores ocupam hoje uma posição quase impossível dentro de muitas organizações. Eles precisam entregar resultados crescentes e absorver mudanças constantes.
Devem conduzir transformação digital, adaptar operações à IA, lidar com cortes, sustentar cultura organizacional, manter times engajados e ainda funcionar como estabilizadores emocionais da empresa.
Nesse cenário, a liderança intermediária virou um ponto crítico da gestão, e quando esse elo se desgasta, o impacto se espalha rapidamente.
Isto é, quando os líderes começam a operar exaustos, pressionados e emocionalmente drenados, o restante da organização inevitavelmente sente os efeitos.
Inteligência artificial e automação não deveriam servir para acelerar pessoas, mas sim para aliviar a sobrecarga do trabalho e consequentemente aumentar a produtividade de forma sustentável.
É aqui que a conversa sobre tecnologia precisa amadurecer. Talvez uma das maiores distorções do debate atual sobre inteligência artificial seja a ideia de que tecnologia existe apenas para produzir mais rápido.
O maior valor da hiperautomação pode estar justamente em remover desperdício operacional e aliviar o peso desnecessário do trabalho.
Isso significa automatizar tarefas repetitivas, eliminar retrabalho, reduzir burocracias improdutivas, organizar fluxos e dar mais clareza à operação.
O foco deve ser reduzir o peso administrativo sobre as lideranças e liberar tempo para atividades que exigem pensamento crítico, acompanhamento humano e tomada de decisão.
Esse deveria ser o papel mais relevante da tecnologia dentro das empresas: não simplesmente comprimir ainda mais o tempo e a energia das pessoas.
O objetivo é tornar o trabalho mais viável, mais inteligente e mais sustentável. Mais do que uma crise de motivação, o cenário atual aponta para uma necessidade urgente de reorganização.
Isso passa por rever fluxos excessivamente complexos, reduzir retrabalho e aliviar a sobrecarga da liderança. É preciso construir estruturas mais sustentáveis para sustentar crescimento.
No fim, o dado da Gallup traz um alerta importante: o problema do trabalho hoje não é apenas de produtividade. É também de sustentabilidade humana.
E empresas que não entenderem isso correm o risco de continuar buscando performance em estruturas cada vez mais sobrecarregadas.
*Tiago Amor é formado em Sistemas da Informação pela UNESP, onde também se especializou em Gestão empresarial. Especialista em Gestão de Projetos na FGV, atualmente é CEO na Lecom, plataforma pioneira em hiperautomação.