No fim, empresas não quebram apenas porque deixam de crescer (filadendron/Getty Images)
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Publicado em 14 de setembro de 2026 às 10h00.
Por Bruno Parlato*
Durante boa parte da última década, velocidade virou praticamente sinônimo de competência empresarial. Crescer rápido, contratar rápido, lançar rápido, conquistar mercado antes dos concorrentes.
A tecnologia ajudou a consolidar essa lógica ao reduzir drasticamente o tempo necessário para colocar produtos na rua, alcançar consumidores e expandir operações.
Esse raciocínio produziu empresas extraordinárias, mas também criou uma distorção: passamos a confundir velocidade com qualidade de crescimento. São coisas diferentes.
Uma companhia pode aumentar receita rapidamente e, ao mesmo tempo, acumular processos frágeis, custos pouco controlados, baixa previsibilidade, dependência excessiva de algumas pessoas e uma operação incapaz de acompanhar o próprio tamanho.
Tenho pensado bastante sobre isso porque acredito que estamos entrando em uma fase diferente. Capital mais criterioso, clientes mais exigentes e mercados mais profissionalizados tornam cada vez mais difícil sustentar empresas baseadas exclusivamente em aceleração.
Crescer continua sendo fundamental. A diferença é que a qualidade desse crescimento passou a importar tanto quanto sua velocidade.
Uma empresa consistente conhece seus indicadores, entende sua margem, acompanha o comportamento dos clientes, constrói processos replicáveis e consegue tomar decisões sem depender permanentemente de improviso.
Ela pode até avançar mais devagar em determinados momentos, mas cria condições para continuar avançando quando o cenário muda.
Tecnologia tem um papel importante nessa transição. Durante muito tempo, falamos dela principalmente como instrumento de aceleração.
Automatizar significava fazer mais rápido; digitalizar significava alcançar mais gente; inteligência artificial passou a significar produzir mais em menos tempo. Tudo isso continua verdadeiro, mas talvez seja apenas metade da discussão.
Nas empresas mais maduras, tecnologia começa a cumprir uma função menos visível e muito mais estratégica: reduzir incerteza.
Bons sistemas permitem enxergar estoque antes que ele vire problema, acompanhar vendas antes do fechamento do mês, identificar gargalos antes que afetem o cliente e transformar uma operação baseada em percepção em uma operação baseada em evidências.
A tecnologia também serve para aumentar a previsibilidade.
Quando uma companhia consegue prever melhor demanda, fluxo de caixa, capacidade operacional, prazo de entrega e necessidade de investimento, ela passa a tomar decisões melhores.
Não significa eliminar risco, isso seria impossível. Mas escolher quais riscos vale a pena assumir.
Esse talvez seja um dos maiores desafios de empresas que atravessam ciclos rápidos de expansão. No começo, energia e capacidade de resolver problemas compensam quase tudo.
Os fundadores estão próximos das decisões, as equipes são menores e ajustes acontecem rapidamente.
Conforme a operação cresce, aquilo que funcionava por proximidade precisa funcionar por processo. O conhecimento que estava na cabeça de algumas pessoas precisa virar sistema, indicador, governança e cultura.
É uma mudança difícil porque profissionalização costuma ser confundida com burocracia. Não deveria.
Processo bom não existe para diminuir velocidade, mas para impedir que cada crescimento exija reinventar a empresa.
O objetivo não é criar mais etapas, é permitir que decisões recorrentes deixem de consumir energia que deveria estar sendo usada nas decisões realmente estratégicas.
Essa lógica vale também para inteligência artificial. O debate empresarial ainda está muito concentrado em produtividade: quantas horas podemos economizar, quantas tarefas podemos automatizar, quanto conteúdo podemos produzir.
São perguntas importantes, mas as aplicações mais transformadoras provavelmente estarão na capacidade de conectar dados, antecipar padrões, melhorar planejamento e reduzir assimetrias de informação dentro das organizações.
No fim, empresas não quebram apenas porque deixam de crescer. Muitas enfrentam dificuldades justamente porque cresceram sem construir a estrutura necessária para sustentar o novo tamanho.
Talvez por isso eu acredite em uma gestão empresarial menos obcecada pela velocidade isoladamente.
As melhores companhias continuarão sendo rápidas quando precisarem ser rápidas. A diferença é que saberão também quando desacelerar, organizar, medir e consolidar.
*Bruno Parlato é CEO da Buckler Fit.