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Não peça só respostas à IA: como usá-la para desafiar suas decisões no trabalho (Gorodenkoff/Shutterstock)
Jornalista
Publicado em 9 de setembro de 2026 às 17h35.
Quem utiliza inteligência artificial para trabalhar costuma fazer perguntas buscando uma resposta ou uma solução. O problema é que esse formato também pode fazer com que a ferramenta seja usada apenas para confirmar uma decisão já tomada.
Esse comportamento é especialmente relevante porque modelos de linguagem podem apresentar o que pesquisadores chamam de sycophancy, tendência de concordar ou validar excessivamente a posição apresentada pelo usuário.
Um estudo publicado na revista Science em 2025 avaliou 11 modelos de IA e encontrou respostas de concordância mais frequentes do que as observadas em interações humanas. Em experimentos com 2.405 participantes, esse comportamento também aumentou a convicção de algumas pessoas de que estavam certas.
Por isso, uma alternativa é inverter a lógica do prompt: em vez de pedir validação, pedir contestação.
O objetivo não é fazer a ferramenta simplesmente discordar de tudo. O ideal é fornecer uma função específica para a análise.
Um prompt pode seguir esta estrutura:
“Vou apresentar uma decisão que estou considerando. Não tente concordar comigo. Analise a proposta de forma crítica e identifique premissas frágeis, riscos, informações que estou ignorando e argumentos contrários. Depois, apresente quais evidências seriam necessárias para sustentar ou rejeitar a decisão.”
A instrução pode ser adaptada para diferentes situações profissionais:
O ponto central é separar geração de ideias de validação. A IA pode ajudar a encontrar pontos cegos, mas a decisão continua dependendo da análise humana e das evidências disponíveis.
Pedir apenas que a IA seja crítica pode produzir respostas genéricas. Para obter uma análise mais útil, o profissional pode estabelecer critérios.
Por exemplo:
“Avalie esta decisão sob quatro perspectivas: riscos financeiros, impacto operacional, reação dos clientes e dificuldades de implementação. Para cada uma, apresente o principal argumento contra a proposta e o que poderia invalidá-lo.”
Outra possibilidade é pedir que a IA assuma papéis diferentes. Primeiro, ela pode analisar a proposta como um cliente. Depois, como um concorrente. Por fim, como alguém responsável por executar a estratégia.
Esse método reduz a chance de a análise ficar presa à perspectiva inicial apresentada no prompt.
O uso de IA como contraponto não elimina outros problemas, como informações incorretas, dados desatualizados ou conclusões sem evidências. Também não significa que a resposta contrária esteja necessariamente correta.
Pesquisas recentes sobre uso estruturado de IA indicam justamente a importância de orientar a interação para estimular reflexão e reduzir o chamado “descarregamento cognitivo”, quando parte do esforço mental é transferida para a ferramenta. Um estudo experimental com participantes da Alemanha, Suíça e Reino Unido encontrou diferenças entre o uso não orientado e o uso guiado por prompts estruturados.
Na prática, uma boa rotina é usar a inteligência artificial em três etapas: propor, contestar e verificar. Primeiro, o profissional apresenta a ideia. Depois, pede que a ferramenta procure falhas. Por último, confere os pontos relevantes em dados, documentos ou fontes confiáveis.