"Hey! There's a bubble!", Mark Baum no filme The Big Short.
Colunista Bússola
Publicado em 30 de janeiro de 2026 às 07h00.
A inteligência artificial entrou em 2026 sob um novo escrutínio. Depois de anos dominando manchetes pelo que é capaz de fazer, a tecnologia agora começa a ser julgada por algo mais simples e mais duro: se entrega, de fato, o retorno econômico que prometeu.
O descompasso entre investimentos em tecnologia colossais e resultados concretos começa a incomodar executivos, investidores e reguladores e isso muda o centro do debate.
Nos últimos anos, grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos despejaram cifras históricas em data centers, semicondutores e infraestrutura dedicada à IA.
O problema é a outra ponta da equação. As receitas diretamente atribuídas à IA ainda giram em torno de US$ 50 bilhões por ano.
É um número modesto quando comparado ao faturamento anual de empresas como Apple ou Alphabet.
Em termos financeiros, o setor ainda opera muito mais à base de expectativa do que de caixa.
A popularização da IA cria uma ilusão estatística. Centenas de milhões de pessoas utilizam ferramentas baseadas em modelos generativos.
Pesquisas mostram que muitos profissionais já recorrem a esses sistemas no trabalho, seja para escrever, resumir ou analisar dados.
Mas uso informal não é o mesmo que adoção produtiva. Dados oficiais dos Estados Unidos indicam que pouco mais de 10% das empresas com mais de 250 funcionários afirmam ter integrado a IA de forma estruturada aos seus processos.
Estudos acadêmicos reforçam esse diagnóstico. Levantamento do Massachusetts Institute of Technology mostrou que a grande maioria dos projetos piloto corporativos falhou em gerar retorno financeiro mensurável.
Em outras palavras, a IA está presente na rotina individual, mas ainda ausente da engrenagem central das empresas.
Esse hiato ajuda a explicar a mudança de discurso no ecossistema tecnológico do Vale do Silício.
A questão deixou de ser quem tem o modelo mais poderoso e passou a ser quem consegue tornar a tecnologia útil, previsível e integrável ao dia a dia corporativo.
A promessa é conhecida: Se a IA elevar a produtividade de forma consistente, os investimentos em tecnologia se justificam e inauguram um novo ciclo de crescimento.
Se isso não acontecer, o setor terá de lidar com uma frustração em escala sistêmica.
Em 2026, o indicador-chave não será mais capacidade computacional, mas taxa de adoção efetiva nas empresas.
O risco não está restrito às empresas de tecnologia e já contaminou o mercado financeiro como um todo.
Segundo dados do Bank of England, companhias cuja tese de valor depende diretamente da IA respondem por cerca de 44% da capitalização do índice S&P 500.
Os múltiplos de avaliação desse grupo estão muito acima da média do mercado. Enquanto houver confiança de que os ganhos virão, investidores aceitam pagar caro.
Mas a história econômica ensina que tecnologias úteis nem sempre geram retornos imediatos.
Ferrovias no século XIX e a internet nos anos 1990 também passaram por ciclos de exuberância antes de ajustes dolorosos.
Uma desaceleração na narrativa da IA teria impacto direto sobre o patrimônio das famílias, o apetite por risco e o ritmo de investimentos na economia americana.
O boom da IA ajudou a sustentar o investimento e o efeito riqueza em um cenário já pressionado por tarifas comerciais, menor imigração e incerteza geopolítica.
Caso a expectativa se frustre, o efeito pode ser inverso. Trilhões de dólares em valor de mercado podem evaporar, com reflexos no consumo, no crédito e na confiança.
Esse risco não exige um colapso tecnológico. Basta que a adoção avance mais lentamente do que o mercado precificou.
Existe ainda um segundo dilema: A aceleração da adoção tende a intensificar o debate sobre empregos.
A IA vem sendo apresentada como capaz de executar tarefas completas de forma contínua e a custos menores, substituindo funções antes desempenhadas por pessoas.
Até agora, os dados não indicam um choque imediato no mercado de trabalho.
Estudos do Yale Budget Lab apontam que setores mais intensivos em IA não têm demitido mais do que os demais.
Parte do aumento do desemprego entre recém-formados parece estar ligada a mudanças na demanda por habilidades e a ajustes pós-pandemia.
Ainda assim, a percepção social importa.
Mesmo antes de evidências robustas, a ideia de substituição direta de trabalhadores tende a gerar resistência política e cultural.
O debate sobre inteligência artificial entrou em uma nova fase e a pergunta deixou de ser se a tecnologia é impressionante e passou a ser se ela sustenta o peso das expectativas econômicas e financeiras que se acumularam sobre ela.
Em 2026, o mundo começa a sair do território da promessa para entrar no campo das consequências e o resultado disso dificilmente será linear.
Crescimento, correção de rota e reação social podem ocorrer ao mesmo tempo e o erro estratégico seria ignorar qualquer uma dessas forças.