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Dia da Internet: com IA, uma piada dos anos 80 virou realidade

Há 40 anos, pedir a um computador para criar um jogo era impossível; hoje, a inteligência artificial torna o "absurdo" cotidiano

Monitor antigo de fósforo verde, símbolo de uma era onde a sintaxe era a barreira da criação ( Roman Samborskyi/Shutterstock)

Monitor antigo de fósforo verde, símbolo de uma era onde a sintaxe era a barreira da criação ( Roman Samborskyi/Shutterstock)

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Publicado em 17 de maio de 2026 às 07h00.

Por Giovanni La Porta*

Há cerca de 40 anos, eu e alguns amigos fomos fazer um curso de computação. Naquele tempo, isso era algo realmente exótico.

Estamos falando do começo dos anos 80, quando o computador ainda era visto como coisa de filme, laboratório ou empresa muito grande. Pouquíssimas pessoas entendiam o que aquela tecnologia significava ou até onde ela poderia chegar.

O prompt de comando e a barreira da sintaxe

Os computadores eram extremamente primitivos. Tela preta, letras verdes e teclados que pareciam máquinas de datilografar. A linguagem utilizada era BASIC.

Tudo funcionava por comando. Não existia interface amigável, mouse ou qualquer coisa intuitiva. Você precisava saber exatamente o que escrever. Caso contrário, a máquina simplesmente não respondia.

No primeiro dia de aula, recebemos instruções básicas de como ligar os computadores e fomos apresentados ao conceito de prompt, aquele pequeno espaço na tela onde o usuário digitava comandos. Algo parecido com: :>

O professor explicava que o computador precisava receber instruções corretas, com sintaxe exata. Um comando errado significava erro imediato.

Quando o "absurdo" previu o futuro

Foi então que um amigo nosso, completamente leigo no assunto, sentou na frente da máquina, olhou para a tela e digitou:

":> COMPUTADOR FAZ UM JOGO"

A resposta veio na hora:

":>?SYNTAX ERROR."

Aquilo virou algo cômico instantaneamente, uma piada entre nós durante anos. Sempre lembrávamos dessa história como um exemplo clássico de alguém que não entendia absolutamente nada de computador.

Afinal, naquela época, parecia absurdo imaginar que uma máquina pudesse entender a linguagem humana daquela forma.

Mas outro dia me peguei pensando nessa cena novamente e tive uma percepção curiosa em que talvez o único que realmente tivesse entendido o futuro naquela sala fosse justamente ele.

A inteligência artificial como interface humana

Porque hoje, 40 anos depois, é exatamente isso que fazemos todos os dias. Abrimos uma inteligência artificial e escrevemos:

“Crie um jogo.”

“Faça um aplicativo.”

“Desenvolva um site.”

“Monte uma apresentação.”

“Escreva um código.”

E agora funciona.

Aquela frase que parecia completamente absurda nos anos 80 deixou de ser erro de sintaxe e virou interface. O mais impressionante é perceber que passamos décadas aprendendo a falar como computadores, decorando comandos, linguagens e estruturas técnicas.

Finalmente, chegamos ao momento em que os computadores aprenderam a falar como nós.

A democratização e a inovação tecnológica

Talvez essa seja uma das mudanças mais profundas da tecnologia moderna porque ela altera o acesso.

Hoje, alguém sem formação técnica consegue criar coisas que antes dependiam de equipes inteiras. A distância entre ideia e execução ficou menor. E isso inevitavelmente muda quem consegue inovar, criar e participar das transformações tecnológicas.

Mas existe algo ainda mais interessante nessa história: muitas vezes, o futuro aparece primeiro como algo ridículo. Seja com uma pergunta ingênua, uma ideia aparentemente absurda ou uma frase que faz todo mundo rir.

Até que o tempo passa e percebemos que aquilo era apenas uma forma antecipada de enxergar um mundo que ainda não existia. A inovação tecnológica se nutre dessa quebra de paradigmas.

Quarenta anos depois, aquela tela preta continua na minha memória, só que hoje eu olho para ela de forma completamente diferente. Porque o “COMPUTADOR FAZ UM JOGO” nunca foi um erro. O erro era achar que aquilo jamais faria sentido.

*Giovanni La Porta é CEO da Vórtice. Empreendedor, especialista em tecnologia com mais de 25 anos de experiência. 

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