Inteligência artificial deve substituir analistas de investimentos em até cinco anos (Getty Images)
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Publicado em 18 de junho de 2026 às 07h00.
Última atualização em 18 de junho de 2026 às 15h05.
Por José Eduardo Andrade
Há um ano, eu trabalhava em uma gestora de private equity quando tive uma percepção que só ficou mais clara desde então: pelo menos 75% do que eu fazia poderia ser realizado por IA em poucos anos, caso o ritmo de desenvolvimento se mantivesse.
E ele se manteve. Na verdade, acelerou. Hoje, acredito que a função do analista de investimentos, como a conhecemos atualmente, será substancialmente substituída por IA em menos de cinco anos.
Não apenas complementada. Não apenas “transformada”. Substituída — da mesma forma que o datilógrafo foi substituído quando os processadores de texto surgiram. A função não evoluiu. Ela desapareceu.
Ler 10-K e a construção de modelos financeiros ficaram dramaticamente mais rápidas.
O que antes exigia um dia inteiro — digerir centenas de páginas, identificar os principais drivers operacionais e modelar — agora leva apenas uma fração desse tempo.
A IA lê o documento, destaca o que realmente importa e me entrega um primeiro rascunho funcional do modelo antes mesmo de eu terminar a seção de MD&A.
Atualizar modelos é ainda mais rápido. Revisões trimestrais, análises de sensibilidade e cenários alternativos — tarefas que costumavam consumir dias de trabalho de analistas juniores — agora são concluídas em minutos.
A distância entre “uma nova informação chegou” e “o modelo já a incorporou” está se aproximando de zero.
A formatação e edição de apresentações em PowerPoint — o eterno “pedágio” pago por todo analista — praticamente desapareceram.
A IA cuida de alinhamento, consitência visual, formatação de gráficos e de todo o refinamento iterativo que costumava consumir noites inteiras antes de uma reunião de comitê de investimentos.
Coleta de dados alternativos na internet, que antes exigiam fornecedores caros ou um engenheiro dedicado, agora são atividades que um analista consegue executar sozinho com um conhecimento mínimo de programação.
Capturar dados de preços, monitorar tendências de contratação ou acompanhar a evolução competitiva de empresas deixou de ser uma vantagem restrita a especialistas.
As vantagens competitivas que muitas empresas de dados alternativos construíram ao longo de anos estão sendo corroídas por qualquer pessoa com um bom prompt e algumas horas disponíveis.
E a própria análise dos dados tornou-se mais profunda. A IA não apenas processa números; ela identifica padrões, anomalias e questões de segunda derivada que um analista júnior muitas vezes não identificaria.
A camada de insight — justamente aquilo que supostamente tornava os analistas insubstituíveis — é exatamente onde a IA tem sido mais transformadora.
Ao dar um passo atrás, percebe-se que as implicações não se limitam aos analistas de investimentos. Elas se estendem a praticamente a todos os “desk workers”. Estamos testemunhando a comoditização da própria inteligência.
O custo marginal de uma unidade adicional de QI, de uma unidade adicional de conhecimento especializado ou de uma hora adicional de raciocínio de alto nível está convergindo para zero.
Durante séculos, o valor econômico do profissional qualificado esteve ancorado na escassez da cognição e conhecimento. Essa escassez está chegando ao fim.
Quando algo se torna abundante e barato, os retornos extraordinários associados a ele desaparecem. O trabalho intelectual foi das grandes fontes de renda econômica protegida da economia moderna. E está sendo arbitrado em tempo real.
Os empregos de “desk workers” não serão apenas “impactados”. Eles serão redesenhados do zero.
Organizações estruturadas em torno de exércitos de analistas juniores, associados, advogados, consultores e pesquisadores existiam porque a cognição e o conhecimento eram vantagens competitivas.
Quando a cognição e o conhecimento se tornam baratos, essas estruturas deixam de ser eficientes e passam a ser relíquias inchadas de outra era. Empresas que insistirem nelas serão superadas por concorrentes mais enxutos que não carregam esse legado.
E aqui está a implicação estratégica mais importante (e aquela sobre a qual a maioria dos profissionais ainda não tem parado para pensar): em qualquer cadeia de valor onde o produto ou serviço se torna uma commodity, o pool de lucros geralmente migra para quem controla o relacionamento com o cliente.
Ou seja, para quem controla a distribuição. Esse padrão se repete continuamente entre diferentes indústrias.
Quando o hardware virou commodity, o valor migrou para o software e para as marcas que possuíam o consumidor final. Quando o conteúdo se tornou abundante, o valor migrou para as plataformas que controlavam a distribuição.
Quando a manufatura foi comoditizada, os lucros migraram para os varejistas e para as marcas presentes nas prateleiras.
O mesmo acontecerá no mercado financeiro. À medida que o trabalho analítico se torna uma commodity, a maior parte dos lucros no setor— e nos serviços profissionais de forma mais ampla — não permanecerá com aqueles que fazem a análise.
Ela migrará para aqueles que controlam o relacionamento com o capital, com o cliente, com o Limited Partner. Confiança, julgamento, acesso a oportunidades, reputação e distribuição se tornarão os ativos verdadeiramente escassos.
Tudo aquilo que puder ser executado por um modelo rodando em um data center acabará sendo remunerado como modelos rodando em data centers costumam ser remunerados: muito pouco no longo prazo.
Os analistas que compreenderem isso cedo deixarão de competir na dimensão que está sendo comoditizada e começarão a construir vantagens em novas dimensões.
Os que não compreenderem passarão os próximos anos realizando um trabalho que, progressivamente, ninguém mais precisará que eles façam.
*José Eduardo Andrade é CIO & Founder da Why Capital