O futuro da transição energética depende da liderança humana (William Perugini/Shutterstock)
Plataforma de conteúdo
Publicado em 17 de julho de 2026 às 17h00.
Por Raphael Albergarias*
Muito se fala sobre inteligência artificial, energias renováveis, descarbonização, digitalização e inovação. Em praticamente todos os fóruns que discutem o futuro da economia, a tecnologia ocupa o centro do debate.
Mas existe uma questão igualmente estratégica que, muitas vezes, recebe menos atenção: quem serão os profissionais preparados para conduzir essa transformação?
A famosa transição energética não será construída apenas por novas fontes de energia ou avanços tecnológicos.
Ela dependerá, sobretudo, da capacidade das organizações de formar líderes aptos a tomar decisões em ambientes cada vez mais complexos, conectar inovação à estratégia e mobilizar equipes diante de mudanças constantes.
Esse é um desafio que ultrapassa o setor de energia. A velocidade das transformações exige uma revisão profunda das competências valorizadas no mercado de trabalho.
Se, durante décadas, o conhecimento técnico era o principal diferencial competitivo, hoje ele precisa caminhar ao lado de habilidades como pensamento crítico, inteligência emocional, capacidade de adaptação, visão sistêmica e liderança colaborativa.
A popularização da inteligência artificial ilustra bem esse cenário.
Embora represente uma das maiores revoluções tecnológicas das últimas décadas, ela não substitui aquilo que continua sendo essencial nas organizações: a capacidade humana de interpretar contextos, tomar decisões éticas, construir confiança e liderar pessoas.
Ferramentas podem automatizar processos, mas não assumem a responsabilidade pelas escolhas que definirão o rumo das empresas e da sociedade.
É justamente por isso que eventos e encontros institucionais voltados à inovação precisam ampliar seu olhar.
Discutir apenas tecnologia significa analisar apenas parte da equação. A outra parte está nas pessoas que transformarão essas tecnologias em resultados concretos.
Recentemente pude atuar como curador da primeira edição do Career Track, trilha oficial dedicada ao desenvolvimento profissional dentro do Energy Summit — reconhecido como o maior evento do MIT no mundo.
Ao incluir uma programação inteiramente voltada às carreiras, liderança, governança e desenvolvimento humano, o evento reconheceu que inovação e capital humano são temas inseparáveis.
Mais do que discutir empregabilidade, a proposta é refletir sobre quais competências serão indispensáveis para os profissionais que ocuparão posições estratégicas nas próximas décadas.
Afinal, a transição energética exigirá líderes capazes de navegar por cenários de alta complexidade, integrar diferentes áreas do conhecimento, dialogar com múltiplos stakeholders e tomar decisões que conciliem crescimento econômico, sustentabilidade e impacto social.
Outro aspecto que merece destaque é a aproximação entre diferentes perspectivas sobre liderança.
A pesquisa científica ajuda a compreender como pessoas e organizações funcionam; a governança corporativa mostra como decisões estratégicas são estruturadas;
o recrutamento executivo revela quais competências realmente diferenciam os profissionais que chegam ao topo; e a experiência prática demonstra como essas capacidades se traduzem em resultados para empresas e para a sociedade.
Essa integração torna-se cada vez mais necessária diante de um mercado em constante transformação.
Organizações de todos os setores enfrentam desafios relacionados à sucessão de lideranças, retenção de talentos, diversidade, inovação e adaptação às mudanças tecnológicas.
Preparar profissionais para esse contexto não é apenas uma responsabilidade das empresas, mas também das instituições de ensino, dos fóruns de debate e dos ecossistemas de inovação.
O futuro do trabalho, portanto, não será definido exclusivamente pelos avanços tecnológicos que conseguirmos desenvolver, mas pela qualidade das lideranças que estaremos formando para utilizá-los de maneira responsável e estratégica.
Ao lado das discussões sobre energia limpa, inteligência artificial e desenvolvimento sustentável, talvez seja hora de reconhecer que o principal investimento para acelerar qualquer transformação continua sendo o mesmo: investir em pessoas.
Porque, no fim das contas, são elas que irão decidir como — e para quem — o futuro será construído.
*Raphael Albergarias é Doutor em psicologia pela Université Paris 8 e em administração pela Rennes School of Business e Mestre em Administração (FGV). Também é fundador e presidente da International Project Management Associate Brasil (IPMA Brasil).