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João Kepler: perspectiva 2023 para startups e investimentos

No venture capital, o freio de arrumação e os ajustes continuam no ano que se inicia

Na tecnologia, as soluções no-code vão agilizar serviços e entregas (Malte Mueller/Getty Images)

Na tecnologia, as soluções no-code vão agilizar serviços e entregas (Malte Mueller/Getty Images)

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Publicado em 9 de janeiro de 2023 às 12h30.

Última atualização em 9 de janeiro de 2023 às 12h53.

Por João Kepler*

Separo em duas perspectivas o que podemos esperar de 2023: uma para o venture capital, outra no cenário da tecnologia, com ligações fortes entre ambas.

Não espere nesse meu texto um exercício de futurologia e de alta tecnologia ou com centenas de novidades, mas apenas constatações simples baseadas em realidade e em tendências possíveis, considerando o meu dia a dia, o meu track record e no que já aconteceu no mercado em anos anteriores versus a realidade atual no Brasil.

 

Sobre venture capital

No venture capital o freio de arrumação e ajustes continuam em 2023. Embora em 2022 muitas startups tenham aprendido a lição e diminuído suas taxas de queima de caixa, outras ainda estão perdendo dinheiro e precisarão levantar capital em 2023 para não fechar. Eu disse ao longo de 2022 que o melhor dinheiro é o dinheiro do cliente e que o foco deveria ser voltar ao breakeven.

Dinheiro para startup será direcionado para bons negócios que estiverem organizados, cumprindo seus planos e batendo metas de receita e despesas de forma estruturada.

Como grande parte das startups não conseguiu ou evitou fazer rodadas em 2022, haverá um excesso de startups captando e, embora exista muito capital em Dry Powder a ser alocado (inclusive no Brasil), o venture capital será ainda mais seletivo, em vez de financiar qualquer promessa ou sinal de um novo unicórnio, como foi feito em anos anteriores.

Os tempos de dinheiro em abundância seguem distantes em 2023, sobretudo por ter ocasionado ondas de centenas de demissões nas startups Later Stage e big techs, startups unicórnios, como podemos acompanhar em sites como o Layoffsbrasil. O investimento em venture capital para estes perfis de empresas vai continuar, mas virá direcionado para garantir um crescimento sustentável (não a qualquer custo), não aceitando mais grandes custos fixos, com estrutura física desproporcional, com grandes times e pessoas com remuneração muito agressivas. A tendência é que essas startups late stage levantem recursos através do venture debit.

E exatamente por isso, que vamos ver em 2023 estratégias de venture capital antecipando seus investimentos para startups em estágios anteriores como seed e pré-seed. Ou seja, cada vez mais cedo, no sentido de garantir a originação de startups e acompanhar seu desenvolvimento e crescimento e claro, melhorar os índices dos fundos.

É um cenário parecido com o que a Bossanova Investimentos promoveu desde 2016, sempre operando e investindo em startups early-stage, em que somente investimos em negócios em operação, mas que já estejam ajustados, em break even (ou próximo ao break even), com um plano de crescimento sustentável, fazendo follow-on nas que performam melhor.

Vamos ver também o aumento do sweat equity no Brasil, que é uma forma de as startups terem acesso a serviços de fornecedores em troca de participação ou paridade em equity trocando pelo serviço não pago. A ideia do sweat equity é o pagamento do "suor" com participação no negócio, no sentido da prestação do serviço com trabalho físico, capacidade mental e tempo. Que no final das contas será usado para agregar valor de maneira sustentável a startup. A única preocupação é o cap table.

Com o amadurecimento do ecossistema de startups brasileiro, um dos movimentos mais fortes e recentes que temos visto é o aumento das startups que estão sendo vendidas, em que os empreendedores estão fazendo seus exits. Acreditamos que o M&A vai ampliar significativamente em 2023, por conta de um movimento que a tecnologia tem papel protagonista: as grandes empresas vão precisar cada vez mais criar e incluir camadas de serviços digitais em seus negócios, além de resolver de maneira mais eficiente seus problemas nas cadeias de suprimentos, logística e produção.

E por isso, a transformação digital dos negócios das grandes empresas passa por soluções que as startups naturalmente já possuem e podem ser incorporadas. Entendemos que será uma evolução do próprio modelo de Corporate Venture Capital que grandes empresas iniciaram nos últimos anos: mais aquisições com foco em tecnologia, com foco em talentos (acqui-hiring) e até mesmo para quem quer estabelecer um novo canal de venda, de comercialização de serviços, de operações na nuvem.

As startups se tornam realidade e um vetor de inovação e acesso a tecnologia mais atraente e mais rápida para a indústria tradicional.

Sobre valuation, eles sofreram impacto em 2022 e em minha opinião, já foram ajustados pois não tem mais espaço para startups com valuations esticados. Em muitos casos os múltiplos baixaram de 10x para 7x e 6x ARR. Por isso, não creio que vão ter novos ajustes em 23.

No que diz respeito à captação de investimentos junto ao mercado, 2022 mostrou que mesmo com a Selic em alta, com renda fixa pagando bem melhor, os investimentos em startups seguiram consistentes.

Entendemos que as captações com investidores mantiveram um ritmo de moderado a bom, ou seja, não afastou investidores, o que deve continuar em 2023.

Não acredito que a Selic vá baixar de forma significativa até o final deste ano, como esperávamos caso a atual política econômica seguisse. Com a mudança de governo, acredito que os juros devem seguir nos mesmos níveis em dois dígitos, sem perspectiva de grandes quedas em 2023.

Mesmo assim, investidores qualificados e profissionais entendem que devem continuar diversificando e direcionando entre 5% a 10% de seu patrimônio líquido para os ativos alternativos e de melhor risco versus retorno. Tomando decisões de alocação de investimento de forma mais consciente e respaldada, os resultados podem se tornar realmente surpreendentes no futuro próximo.

Na Bossanova cada vez mais estamos apostando na educação de novos investidores, para aprenderem a investir e considerarem as startups nas suas carteiras de investimento para balancear e diversificar, com o entendimento de que mesmo sendo um ativo ilíquido e de muito risco, é uma classe de ativo com convexidade, descorrelacionada e com boas possibilidades de retorno no longo prazo.

Em relação à educação de investidores, as plataformas reguladas de Equity Crowdfunding terão um papel fundamental em 2023 nesse processo de entrada e qualificação de novos investidores no venture capital. Por outro lado, melhorias e movimentações ainda precisam ser feitas no sentido de comunicação, credibilidade e de mentalidade (um pouco de preconceito) no modelo crowdfunding na escada de fundraising no venture capital profissional.

Muito provocado também por valuations elevados e fora do racional técnico em algumas ofertas o que levou a percepções ruins, gerando complicações em novas captações nessas startups e o que no final das contas, pode levar a resultados não atrativos para os micro investidores.

Sobre tecnologia

No que diz respeito à tecnologia, as soluções no-code e o uso em massa delas vão agilizar serviços e entregas, tornando o ambiente de desenvolvimento mais produtivo e liberado para desenvolver alta tecnologia, inteligência artificial e dados.

Além disso, com o no-code teremos uma população mais programadora e isso vai acelerar o nascimento de novas Startups e permitir ainda que empresas possam fazer sua transformação digital de forma mais simples, executando com rapidez com a redução de custos operacionais.

Em 2023 vamos presenciar a consolidação das comunidades, das tecnologias que possibilitem a adoção de canais que colaboram de forma tangível uma melhor interação no sentido de pertencimento e aproximação entre clientes, consumidores, fãs, colaboradores e etc. em torno de uma marca, serviço ou produto.

Uma comunidade forte tem o potencial de gerar e extrair valor através de pessoas altamente engajadas e recompensadas, serão oportunidades para criar embaixadores que se tornam canais de distribuição para as marcas.

Entre os segmentos e tecnologia que aposto que irão crescer em 2023, tanto em captação de investimentos, quanto de exits estão:

1) Cybersecurity, com cada vez mais demandas por infraestrutura de segurança digital e proteção LGDP;

2) Tecnologias ativadoras de práticas ESG, com uma proposta cada vez mais prática e menos teórica com uma visão além da sustentabilidade para estratégias de negócios (resultado a geração de impacto positivo);

3) Na saúde vamos presenciar mais descentralização e digitalização com ferramentas que ajudem os gestores a administrar gastos com benefícios, a implantação inteligência artificial ​​para prevenção e detecção precoce de doenças crônicas;

4) Negócios que ampliam a conectividade de qualquer segmento do varejo ou indústria, seja na camada de serviço digital no operacional, comercial e de relacionamento. Aqui neste último item, entram os serviços de todas as… techs e verticais.

A preocupação em 2023 é a regulação (exacerbada) das atividades com a superproteção do mercado tradicional, podendo prejudicar redes sociais e aplicativos em várias questões como liberdade de operação digital, de abrangência das atividades no Brasil e os reflexos negativos das questões trabalhistas, fiscais e tributárias que serão discutidas no país. Não que a regulamentação seja ruim, a questão será qual o limite dela, por exemplo, a regulamentação cripto, as regras do Open Banking, Open Finance, entre outras políticas bancárias que estão sendo positivas até o momento para as fintechs. (incluindo o PIX)

 

Essas são as minhas perspectivas. Espero ter ajudado no seu posicionamento e planejamento em 2023.

 

*João Kepler é CEO da Bossanova Investimentos

 

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