Liderança não se aprende só com MBA (Divulgação/HBO)
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Publicado em 5 de junho de 2026 às 17h00.
Por Larissa Mota*
O desenvolvimento de lideranças ainda é frequentemente associado a caminhos tradicionais de formação, como MBAs, cursos executivos, mentorias e uma extensa lista de leituras consideradas indispensáveis para quem ocupa posições de gestão.
Esses instrumentos continuam sendo relevantes e desempenham um papel importante na construção de repertório técnico e estratégico.
No entanto, insistir que eles são suficientes para preparar líderes para os desafios do ambiente corporativo contemporâneo é uma visão cada vez mais limitada.
Em um cenário marcado por relações de trabalho mais complexas, mudanças aceleradas, equipes diversas e um contexto permanente de pressão por resultados, a liderança exige competências que dificilmente são desenvolvidas apenas pela teoria.
É justamente nesse ponto que espaços menos óbvios de aprendizado começam a ganhar relevância, inclusive aqueles que tradicionalmente são vistos apenas como entretenimento, como as séries.
Pode parecer improvável afirmar que uma produção audiovisual possa ensinar algo relevante sobre gestão de pessoas, mas séries como The Pitt ajudam a demonstrar exatamente isso.
A produção, lançada em 2025, acompanha profissionais de um pronto-socorro hospitalar submetidos a situações extremas, onde decisões precisam ser tomadas rapidamente, conflitos surgem sem aviso e o impacto de uma escolha mal conduzida pode ser imediato.
Embora ambientada fora do universo corporativo, a dinâmica observada na série se aproxima muito da realidade de lideranças empresariais que precisam administrar crises, alinhar equipes sob pressão e tomar decisões mesmo quando não há informações suficientes para garantir segurança absoluta.
Essa capacidade de aproximar o espectador da prática é justamente o que diferencia narrativas ficcionais de muitos materiais tradicionais de liderança.
Livros e formações costumam apresentar frameworks organizados, modelos consolidados e princípios amplamente aceitos sobre gestão.
Obras como Leaders Eat Last, de Simon Sinek, por exemplo, reforçam a importância da confiança, da proteção das equipes e da construção de ambientes psicologicamente seguros.
São conceitos importantes, mas que frequentemente chegam aos gestores em um formato excessivamente racionalizado, distante das ambiguidades reais enfrentadas diariamente dentro das organizações.
A liderança, na prática, raramente acontece em cenários ideais.
Não há tempo suficiente para analisar todos os dados antes de uma decisão importante, os conflitos interpessoais nem sempre seguem uma lógica previsível e as emoções das equipes frequentemente alteram o rumo das operações.
É justamente nesse espaço entre teoria e execução que séries como The Pitt se tornam especialmente relevantes.
Ao expor lideranças em situações de alta pressão, a narrativa deixa de tratar liderança como conceito abstrato e passa a apresentá-la como comportamento observável.
O espectador percebe como um líder reage diante do erro de um colaborador, como conduz divergências, como lida com limitações da equipe e, principalmente, como sua comunicação interfere diretamente no ambiente.
Esse ponto se torna ainda mais relevante diante das transformações recentes no mercado de trabalho.
Um estudo global da Harvard Business Impact, divulgado em 2025 com mais de 1.100 executivos de RH e desenvolvimento organizacional em 14 países, mostrou que empresas estão reformulando profundamente seus modelos de desenvolvimento de liderança porque os formatos tradicionais já não conseguem responder sozinhos à complexidade atual.
O aprendizado deixou de ser entendido como um evento pontual e passou a ser visto como um processo contínuo, conectado às experiências práticas, à observação e ao desenvolvimento de julgamento em cenários imprevisíveis.
Não é coincidência que esse debate ganhe força justamente em um momento em que a inteligência artificial, a automação e a velocidade das transformações organizacionais ampliam as incertezas dentro das empresas.
Dados recentes da IBM mostram que CEOs globais já identificam o fortalecimento das lideranças como uma prioridade estratégica para lidar com ambientes mais voláteis e híbridos, onde a capacidade de adaptação pesa tanto quanto o conhecimento técnico.
O líder contemporâneo precisa lidar simultaneamente com produtividade, saúde emocional das equipes, conflitos geracionais, mudanças constantes e novas tecnologias, algo que não pode ser resolvido apenas pela aplicação mecânica de modelos teóricos.
Ao acompanhar histórias como as de The Pitt, fica evidente que a liderança não se sustenta apenas em conhecimento técnico ou domínio de processos.
O que realmente diferencia lideranças eficazes é a capacidade de influenciar o ambiente ao redor, seja para estabilizar equipes em momentos críticos, seja para gerar insegurança quando essa condução falha.
Em cenários de pressão, pequenas decisões de comunicação podem transformar completamente uma situação.
O tom de voz, a clareza das orientações, o momento escolhido para uma conversa difícil e até a forma como erros são tratados acabam tendo efeitos diretos sobre confiança, engajamento e desempenho coletivo.
Outro aspecto que as séries conseguem expor com grande precisão é a coerência entre discurso e prática.
Equipes percebem rapidamente quando há inconsistências entre aquilo que líderes dizem e aquilo que efetivamente fazem.
Em períodos de instabilidade, essa percepção tende a se intensificar ainda mais.
Líderes que falam sobre colaboração, mas estimulam competitividade excessiva, ou que defendem bem-estar enquanto normalizam jornadas exaustivas, acabam minando sua própria credibilidade.
E talvez nenhum manual consiga demonstrar esse impacto de forma tão concreta quanto uma narrativa que expõe, em tempo real, as consequências de comportamentos contraditórios.
Existe ainda um elemento frequentemente negligenciado quando se discute formação de lideranças: a empatia.
Observar personagens submetidos a situações difíceis amplia a capacidade de compreender diferentes perspectivas, motivações e reações humanas.
Em um ambiente corporativo cada vez mais diverso e emocionalmente exigente, essa habilidade deixou de ser apenas uma competência complementar e passou a ocupar posição central na capacidade de liderar pessoas.
Compreender inseguranças, reconhecer limites e interpretar contextos deixou de ser um diferencial para se tornar parte essencial do trabalho de qualquer gestor.
Isso não significa substituir MBAs, livros ou programas executivos pelo entretenimento.
O ponto central está justamente na combinação entre diferentes formas de aprendizado.
Enquanto a teoria organiza conceitos, oferece linguagem comum e estrutura raciocínios, as narrativas ajudam a desenvolver julgamento, percepção e leitura contextual.
Em outras palavras, ajudam líderes a enxergar nuances que dificilmente aparecem em apresentações de PowerPoint ou em frameworks excessivamente simplificados.
A liderança contemporânea exige mais do que domínio técnico e conhecimento operacional.
Ela exige capacidade de adaptação, inteligência emocional, clareza de comunicação e habilidade para tomar decisões em cenários imperfeitos.
Diante dessa realidade, ampliar repertórios deixou de ser apenas uma escolha e passou a ser uma necessidade estratégica.
E talvez esteja na hora de o mundo corporativo abandonar certo preconceito intelectual que ainda insiste em separar rigidamente aprendizado de entretenimento.
Porque, no fim, séries como The Pitt mostram algo que muitos treinamentos falham em reproduzir: liderar pessoas é um exercício profundamente humano, repleto de ambiguidades, tensões e imperfeições que nenhum manual, por melhor que seja, consegue capturar sozinho.
*Larissa Mota é advogada, especializada em Relações Trabalhistas e Sindicais pelo Centro Universitário Braz Cubas. Em 2005, fundou a Exímia, BPO especializada em terceirização de folha de pagamento e gestão de benefícios.