Cenas de tragédias climáticas em áreas urbanas reforçam a urgência de adaptação e gestão de riscos (AFP/AFP Photo)
Diretor-geral da Beon - Colunista Bússola
Publicado em 25 de fevereiro de 2026 às 13h00.
Mais uma vez, somos confrontados pela crueza das imagens de uma tragédia climática que, embora anunciada pela ciência, ainda parece nos encontrar desarmados.
O que assistimos não é um evento isolado ou um "capricho da natureza", mas a manifestação material de um desequilíbrio sistêmico que temos falhado em endereçar com a seriedade e a urgência que o tema exige.
Sabemos que o tempo da retórica política e dos compromissos de longo prazo sem metas intermediárias robustas já expirou.
O que está em jogo hoje não é apenas a preservação de biomas distantes, mas a viabilidade da vida nas cidades e a resiliência das nossas infraestruturas mais básicas.
A recorrência desses episódios evidencia um gargalo crítico: a lacuna entre o que sabemos ser necessário para mitigação e adaptação climática e o que efetivamente estamos dispostos a investir.
Durante muito tempo, o debate sobre sustentabilidade focou — e com razão — na redução de emissões. Contudo, boa parte dos efeitos do aquecimento global já estão contratados.
A adaptação climática deixou de ser um tema periférico para se tornar a prioridade absoluta na gestão de riscos de qualquer organização ou governo.
Adaptar-se significa redesenhar sistemas de drenagem, repensar a ocupação do solo, investir em alerta precoce e, acima de tudo, proteger as populações mais vulneráveis, que são as que historicamente menos contribuíram para o problema, mas que sofrem seus impactos de maneira desproporcional.
Outro aspecto perigoso dessa crise está na nossa própria capacidade de normalização. Existe um perigo real de nos deixarmos anestesiar pela frequência das catástrofes.
Quando o "extraordinário" passa a figurar semanalmente nos noticiários, o risco de encararmos essas perdas humanas e materiais como um "novo normal" aceitável é imenso.
Essa apatia coletiva é o que permite que as medidas de adaptação climática continuem sendo tratadas como custos e não como investimentos vitais para a continuidade dos negócios e da própria sociedade.
A sustentabilidade, em seu sentido mais profundo, é sobre a manutenção das condições necessárias para a vida. Não podemos permitir que a repetição da tragédia diminua a nossa indignação ou a nossa capacidade de agir.
A gestão técnica precisa ser acompanhada de uma visão ética que reconheça que cada milímetro de elevação do nível do mar ou cada décimo de aumento na temperatura global representa uma ameaça direta ao nosso direito coletivo ao futuro.
O momento exige consistência: menos discursos de conveniência e mais engenharia de resiliência, planejamento urbano sério e governança climática que saia do papel.
Do contrário, o que chamamos hoje de tragédia será, em breve, apenas o registro de uma negligência que escolhemos ignorar até que fosse tarde demais.