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Além da cadeira de CEO: outros papéis possíveis para o herdeiro

Desmistificar a ideia de que todo herdeiro precisa assumir a gestão executiva é fundamental para proteger o patrimônio e o legado familiar

Governança moderna divide propriedade de gestão para garantir longevidade de empresas familiares (Getty Images)

Governança moderna divide propriedade de gestão para garantir longevidade de empresas familiares (Getty Images)

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Publicado em 29 de maio de 2026 às 15h00.

Por Márcia Dolores*

Existe uma tensão silenciosa e recorrente que permeia os bastidores das grandes fortunas e holdings no Brasil.

Embora raramente seja verbalizada nas pautas comitivas ou assembleias de acionistas, ela opera em uma camada invisível que trava os processos sucessórios e destrói valor de mercado: a ideia engessada de que carregar o legado familiar obriga o jovem a sentar-se na cadeira de CEO da empresa operadora.

Por décadas, famílias tradicionais construíram as transições sob a ótica da pressão e da obrigação emocional.

O erro fatal das corporações reside em confundir comprometimento societário com a renúncia da individualidade do jovem sucessor.

O resultado desse modelo ultrapassado se reflete em herdeiros emocionalmente esgotados antes mesmo de assumirem posições de poder, e jovens tecnicamente brilhantes, mas completamente desconectados de forma afetiva do negócio construído pelos pais.

A continuidade intergeracional sustentável requer desmistificar esse aprisionamento executivo.

Por que herdar propriedade não significa herdar a gestão?

A nova geração de clãs empresariais - herdeiros na faixa de 25 a 35 anos que chegam atualmente às instâncias deliberativas - traz uma sensibilidade distinta das gerações passadas.

Conforme apontam os dados do panorama nacional mapeados pelo IBGE e pelo Sebrae, cerca de 90% das empresas brasileiras nascem de uma origem familiar.

No entanto, relatórios estruturados pelo Banco Mundial indicam que o índice de sobrevivência desse modelo declina drasticamente ao longo do tempo: apenas 30% resistem à segunda geração e o patamar despenca para uma média entre 15% e 19% ao atingir a terceira geração.

Nesse cenário, as famílias longevas de excelência começam a entender que o direito ao patrimônio (propriedade) é estruturalmente diferente do direito ao cargo de comando (gestão).

De acordo com pesquisas globais de governança, como o levantamento Billionaires Insights conduzido pelo banco UBS, as famílias mais bem-sucedidas do mundo se distinguem não pelo volume de ativos, mas pelo investimento na maturidade integrada entre a identidade familiar e o desenvolvimento humano.

A governança moderna de alta renda deve preparar os indivíduos de acordo com suas fortalezas de caráter e vocações técnicas, desenhando múltiplas camadas de contribuição que vão além do organograma corporativo.

Quais são os caminhos alternativos para a continuidade do capital?

Mapear e organizar os perfis de herdeiros é uma das principais frentes do método Family House Integration, que afasta a tomada de decisão das reações reativas e foca na inteligência humana e no sentido.

No Brasil, onde um estudo conduzido pelo Boston Consulting Group (BCG) revela que apenas 11% das organizações familiares investem em iniciativas estruturadas de sucessão (contra 64% globalmente), a governança baseada em propósito permite segmentar e dignificar a atuação da próxima geração em quatro eixos estratégicos bem definidos:

  • O Sucessor Executivo: Indivíduos que possuem vocação genuína para o negócio e passam por uma preparação técnica, comportamental e meritocrática para assumir posições de liderança na empresa operadora, liderando a transformação digital e a inovação com legitimidade perante o mercado.
  • O Rentista Consciente: Sucessores que optam por não interferir nos negócios ou investimentos operacionais, mas recebem preparação para serem acionistas maduros, capazes de auditar comitês e compreender relatórios de riscos e governança societária de forma clara.
  • O Investidor Estratégico: Indivíduos que passam a atuar em instâncias deliberativas mais amplas, como conselhos de administração ou comitês de alocação de capital em Family Offices, direcionando recursos para novos mercados e inovação.
  • O Empreendedor Independente: Jovens que utilizam o lastro financeiro e o aprendizado familiar para fundar suas próprias companhias ou operar em ecossistemas de Venture Capital, injetando oxigênio e transformações no portfólio de ativos da família.

Superar a barreira da sucessão executiva obrigatória é o que separa os clãs estáveis daqueles que colapsam na transição de gerações.

Quando o legado é vivido como possibilidade de construção autoral, ele deixa de ser um peso estático e se converte em um ativo de futuro.

*Marcia Dolores é psicóloga, estrategista emocional e pesquisadora da dinâmica humana aplicada aos sistemas familiares e empresariais. Pioneira na integração entre psicologia, neurociência e governança emocional, para os desafios da continuidade, da sucessão e da construção de legados sustentáveis ao longo das gerações.

 

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