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Gestão Sustentável: biodiversidade virou métrica de sobrevivência

Estudo mostra que apenas 8% das corporações brasileiras tratam o tema como prioridade, gerando um descompasso com as metas diplomáticas do país

Vista aérea da Floresta Amazônica, símbolo do potencial verde e da biodiversidade brasileira (Andre Pinto/Getty Images)

Vista aérea da Floresta Amazônica, símbolo do potencial verde e da biodiversidade brasileira (Andre Pinto/Getty Images)

Danilo Maeda
Danilo Maeda

Diretor-geral da Beon - Colunista Bússola

Publicado em 27 de maio de 2026 às 17h00.

O Brasil tem manifestado repetidamente o desejo de liderar a bioeconomia global e se consolidar como a grande potência verde do século XXI. No entanto, quando cruzamos a ambição diplomática com a realidade das salas de conselho das corporações brasileiras, percebemos um grande desencontro.

Um estudo recente realizado pela Amcham revela que a biodiversidade figura como prioridade estratégica para apenas 8% das empresas no país, ficando muito atrás de agendas como inovação, governança tradicional e gestão de resíduos.

Não que os demais temas sejam desimportantes, mas o indicador expõe uma falha crítica na forma como o mercado percebe os temas de sustentabilidade: simplificação excessiva, generalizações e baixa consistência que levam a estratégias simplórias e que adicionam pouco valor.

Em outras palavras, estabelecer negócios sustentáveis vai muito além da descarbonização.

O gargalo da mensuração e o foco no carbono

Reduzir o impacto ambiental à métrica isolada das emissões de gases de efeito estufa é um erro de gestão tática e de visão de longo prazo.

A primazia que o carbono conquistou nos negócios decorre, em grande medida, da facilidade de sua mensuração, dado que se trata de uma métrica global, fungível e facilmente comparável entre diferentes setores.

A biodiversidade, por sua vez, desafia a lógica simplista dos painéis de controle corporativos por ser intrinsecamente local e multifatorial.

O impacto ou a dependência de uma operação em relação a um ecossistema específico varia de maneira drástica dependendo do território, das comunidades locais e do bioma em que ela está inserida, o que exige metodologias de análise muito mais sofisticadas e territorializadas.

Essa complexity técnica de mensuração, contudo, não diminui o tamanho do risco financeiro e macroeconômico associado à inação. A integridade dos serviços ecossistêmicos é a infraestrutura natural que sustenta a economia.

O agronegócio e o setor energético, por exemplo, dependem vitalmente da estabilidade dos regimes de chuvas, os quais são diretamente regulados pela conservação e sanidade de biomas estratégicos como a Amazônia e o Cerrado.

A degradação contínua e o avanço do desmatamento representam um risco real de ruptura operacional em escala sistêmica, afetando cadeias globais de suprimentos, gerando insegurança jurídica e elevando severamente o custo de capital para o país.

Pressão regulatória e conformidade global

Se a convicção interna ainda não foi suficiente para mover o ponteiro da maioria das lideranças executivas, a conformidade regulatória e a competitividade de mercado farão esse papel de forma impositiva.

Estamos testemunhando uma transformação no arcabouço regulatório internacional e doméstico. Na Europa, as novas regras de reporte já exigem transparência total sobre os impactos e riscos atrelados à natureza.

Globalmente, frameworks como a TNFD (Taskforce on Nature-related Financial Disclosures) consolidam-se como o novo padrão de transparência de mercado.

No cenário nacional, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) caminha na mesma direção ao adotar as normas internacionais de sustentabilidade alinhadas ao IFRS e ao ISSB, integrando formalmente os riscos de natureza aos relatórios financeiros corporativos.

Ignorar a biodiversidade deixará de ser uma escolha de posicionamento institucional tolerável para se tornar um fator direto de desvalorização de ativos.

Oportunidades de mercado e mecanismos de financiamento

Por outro lado, há muito espaço para criação de valor. Estima-se que as soluções baseadas na natureza possam responder por até 30% das reduções de emissões necessárias globalmente até 2050.

Isso abre um mercado gigantesco voltado para a restauração florestal, a agricultura regenerativa, créditos de biodiversidade, bioinsumos e o fortalecimento das cadeias da sociobiodiversidade.

O poder público tem desenhado mecanismos para mitigar os gargalos históricos de financiamento dessa agenda, cujo déficit global oscila entre 400 bilhões e 700 bilhões de dólares anuais.

Iniciativas como o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio) e ferramentas de financiamento híbrido (blended finance), como o programa Ecoinvest — que já mobilizou mais de 179 bilhões de reais para projetos verdes desde 2023 —, servem como indutores fundamentais para atrair e mitigar o risco do capital privado.

A transição para uma economia de impacto positivo depende de três vetores fundamentais: a convicção institucional dos líderes, a conformidade diante das novas regras e a competitividade de mercado frente à concorrência.

As empresas que insistirem em limitar suas estratégias ao escopo do carbono perderão a oportunidade de participar de uma mudança de paradigma sem precedentes.

Compreender a biodiversidade não como um conceito abstrato de preservação, mas como um ativo econômico vital e gerenciar tecnicamente suas dependências é o caminho definitivo para garantir a resiliência corporativa e assegurar a verdadeira liderança do Brasil no mercado global do amanhã.

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