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Gente & Gestão: NR-1 e os risco que o C-Level ainda não percebeu

Mudança regulatória tira o tema do RH e o coloca na mesa do CEO. Entenda por que a negligência agora gera riscos reputacionais e estratégicos

Liderança corporativa deve assumir protagonismo na gestão de riscos da nova NR-1 (VH-Studio/Shutterstock)

Liderança corporativa deve assumir protagonismo na gestão de riscos da nova NR-1 (VH-Studio/Shutterstock)

Carlos Guilherme Nosé
Carlos Guilherme Nosé

Chairman da FESA Group - Colunista Bússola

Publicado em 30 de abril de 2026 às 15h00.

Durante anos, temas como ambiente de trabalho, saúde ocupacional e clima organizacional foram tratados como agendas importantes. Na prática, ficavam sob o guarda-chuva do RH, com pouca conexão real com as decisões mais estratégicas da companhia.

A atualização da NR-1 muda esse jogo de forma silenciosa e profunda. Ela não é apenas uma evolução regulatória. É uma mudança sobre quem, de fato, responde pelo risco dentro das organizações. E, dessa vez, esse risco estratégico sobe de nível.

O gap de prontidão na liderança corporativa

Hoje, apenas 18% das áreas de RH dizem estar preparadas para atender às novas exigências. O dado chama atenção, mas esconde um problema maior: a maioria das empresas ainda está fazendo a pergunta errada.

Não é “se o RH está preparado”. É “se a liderança está”. Aqui existe um ponto que ainda precisa ser dito de forma mais direta.

Uma parte do C-Level ainda enxerga essa agenda como exagero, como “soft”, ou — no pior dos casos — como uma espécie de “mimimi corporativo”.

Essa leitura, além de equivocada, começa a ficar perigosa. O movimento mais comum que tenho visto é tratar a NR-1 como “mais uma agenda de compliance”.

Revisam-se documentos, estruturam-se treinamentos, garante-se aderência mínima. Isso resolve o problema no papel, porém não o real.

Além do compliance: a gestão de risco estratégico real

Porque a NR-1, na prática, não trata apenas de processos. Ela trata de ambiente, de cultura e, principalmente, de como decisões são tomadas no dia a dia. E isso não está no manual, mas na liderança.

Quando o tema é tratado como obrigação regulatória, a empresa cria mecanismos formais de proteção. Enquanto isso, preserva estruturalmente os mesmos comportamentos que geram riscos. É aí que mora a exposição.

A mudança mais relevante da NR-1 não está no texto técnico, mas na consequência. O risco estratégico deixa de ser apenas trabalhista e passa a ser estratégico, impactando reputação, governança e sustentabilidade do negócio. Ao mesmo tempo, toca diretamente o C-Level.

O executivo e o contexto da liderança

E aqui está a virada importante: o que muitos ainda insistem em tratar como tema “comportamental” passa a ser, objetivamente, um tema de risco estratégico.

No limite, não é o RH que define o ambiente de uma organização. É a forma como a liderança opera, o que tolera, o que incentiva e o que ignora.

A partir daqui, o executivo não responde apenas por resultado. Responde também pelo contexto que produz esse resultado.

Se apenas 18% estão preparados, o problema não é falta de política, ferramenta ou discurso, mas a falta de capacidade real de execução na liderança.

A maioria das empresas ainda opera com um RH reativo e pouca integração com Jurídico e Risco. Líderes nunca foram treinados para lidar com variáveis como pressão organizacional ou risco psicossocial.

Isso cria um descompasso perigoso: estruturas robustas com uma liderança que opera no modelo antigo.

Maturidade corporativa e o papel do CEO

As empresas que estão à frente não tratam a NR-1 como um projeto. Tratam como tema de gestão de risco.

Levam a discussão para o C-Level e para o conselho, integrando RH, Jurídico e Risco na resolução da questão.

Elas desenvolvem liderança e começam a usar dados para monitorar o ambiente real e não apenas percepção.

Existe uma diferença importante aqui. Essas empresas não estão apenas se protegendo. Estão evoluindo o modelo de gestão.

Talvez o ponto mais sensível seja o papel do CEO. Durante muito tempo, era possível atuar como sponsor desses temas e delegar a execução.

Esse modelo começa a ficar insuficiente. A NR-1 demanda que o CEO se envolva diretamente, definindo prioridades, acompanhando resultados e dando exemplo.

Porque cultura não se comunica por política. Estabelece-se por comportamento. E comportamento, no fim do dia, é espelho da liderança.

A NR-1 não é, essencialmente, sobre regulação. É um teste de maturidade. Vai separar empresas que tratam gestão de pessoas como suporte daquelas que entendem que ela é parte central da estratégia. E, como costuma acontecer, não vai punir quem não sabe. Vai expor quem achava que já estava preparado.

*Dado divulgado pela comunidade RH Modo Atleta (Vik), durante a “Masterclass: Liderança adaptativa e NR-1”.

 

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