Liderança corporativa deve assumir protagonismo na gestão de riscos da nova NR-1 (VH-Studio/Shutterstock)
Chairman da FESA Group - Colunista Bússola
Publicado em 30 de abril de 2026 às 15h00.
Durante anos, temas como ambiente de trabalho, saúde ocupacional e clima organizacional foram tratados como agendas importantes. Na prática, ficavam sob o guarda-chuva do RH, com pouca conexão real com as decisões mais estratégicas da companhia.
A atualização da NR-1 muda esse jogo de forma silenciosa e profunda. Ela não é apenas uma evolução regulatória. É uma mudança sobre quem, de fato, responde pelo risco dentro das organizações. E, dessa vez, esse risco estratégico sobe de nível.
Hoje, apenas 18% das áreas de RH dizem estar preparadas para atender às novas exigências. O dado chama atenção, mas esconde um problema maior: a maioria das empresas ainda está fazendo a pergunta errada.
Não é “se o RH está preparado”. É “se a liderança está”. Aqui existe um ponto que ainda precisa ser dito de forma mais direta.
Uma parte do C-Level ainda enxerga essa agenda como exagero, como “soft”, ou — no pior dos casos — como uma espécie de “mimimi corporativo”.
Essa leitura, além de equivocada, começa a ficar perigosa. O movimento mais comum que tenho visto é tratar a NR-1 como “mais uma agenda de compliance”.
Revisam-se documentos, estruturam-se treinamentos, garante-se aderência mínima. Isso resolve o problema no papel, porém não o real.
Porque a NR-1, na prática, não trata apenas de processos. Ela trata de ambiente, de cultura e, principalmente, de como decisões são tomadas no dia a dia. E isso não está no manual, mas na liderança.
Quando o tema é tratado como obrigação regulatória, a empresa cria mecanismos formais de proteção. Enquanto isso, preserva estruturalmente os mesmos comportamentos que geram riscos. É aí que mora a exposição.
A mudança mais relevante da NR-1 não está no texto técnico, mas na consequência. O risco estratégico deixa de ser apenas trabalhista e passa a ser estratégico, impactando reputação, governança e sustentabilidade do negócio. Ao mesmo tempo, toca diretamente o C-Level.
E aqui está a virada importante: o que muitos ainda insistem em tratar como tema “comportamental” passa a ser, objetivamente, um tema de risco estratégico.
No limite, não é o RH que define o ambiente de uma organização. É a forma como a liderança opera, o que tolera, o que incentiva e o que ignora.
A partir daqui, o executivo não responde apenas por resultado. Responde também pelo contexto que produz esse resultado.
Se apenas 18% estão preparados, o problema não é falta de política, ferramenta ou discurso, mas a falta de capacidade real de execução na liderança.
A maioria das empresas ainda opera com um RH reativo e pouca integração com Jurídico e Risco. Líderes nunca foram treinados para lidar com variáveis como pressão organizacional ou risco psicossocial.
Isso cria um descompasso perigoso: estruturas robustas com uma liderança que opera no modelo antigo.
As empresas que estão à frente não tratam a NR-1 como um projeto. Tratam como tema de gestão de risco.
Levam a discussão para o C-Level e para o conselho, integrando RH, Jurídico e Risco na resolução da questão.
Elas desenvolvem liderança e começam a usar dados para monitorar o ambiente real e não apenas percepção.
Existe uma diferença importante aqui. Essas empresas não estão apenas se protegendo. Estão evoluindo o modelo de gestão.
Talvez o ponto mais sensível seja o papel do CEO. Durante muito tempo, era possível atuar como sponsor desses temas e delegar a execução.
Esse modelo começa a ficar insuficiente. A NR-1 demanda que o CEO se envolva diretamente, definindo prioridades, acompanhando resultados e dando exemplo.
Porque cultura não se comunica por política. Estabelece-se por comportamento. E comportamento, no fim do dia, é espelho da liderança.
A NR-1 não é, essencialmente, sobre regulação. É um teste de maturidade. Vai separar empresas que tratam gestão de pessoas como suporte daquelas que entendem que ela é parte central da estratégia. E, como costuma acontecer, não vai punir quem não sabe. Vai expor quem achava que já estava preparado.
*Dado divulgado pela comunidade RH Modo Atleta (Vik), durante a “Masterclass: Liderança adaptativa e NR-1”.