Lideranças precisam de preparo para identificar riscos psicossociais no cotidiano corporativo ( Dmytro Zinkevych/Shutterstock)
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Publicado em 18 de maio de 2026 às 17h00.
Por Luiza Caixe Metzner*
No dia 26 de maio, entra em vigor a atualização da NR-1, tornando obrigatória a atuação das empresas na identificação e mitigação dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho.
Uma pesquisa sobre Inteligência Emocional e saúde mental no trabalho, realizada pela The School of Life Brasil em parceria com a Robert Half, revelou um dado preocupante: 35% dos líderes não têm conhecimento básico para apoiar suas empresas no cumprimento das novas exigências.
E o cenário é ainda mais crítico. Dados apontam que 21% sequer sabem da existência da norma e 14% conhecem a regra, mas ignoram sua atualização. A conta não fecha.
Quando a responsabilidade existe, mas a preparação não, a NR-1 é uma das normas regulamentadoras mais antigas do Brasil, criada em 1978 pelo Ministério do Trabalho com o objetivo de estabelecer as diretrizes gerais sobre saúde e segurança no trabalho.
Durante muitos anos, seu olhar esteve fortemente voltado para riscos físicos, operacionais e estruturais. Mas o cenário do trabalho mudou e os riscos também.
Hoje, a NR-1 ganha ainda mais relevância ao ampliar a discussão sobre os riscos psicossociais e emocionais presentes no ambiente corporativo.
Ela deixa evidente que saúde e segurança não se limitam apenas à prevenção de acidentes físicos, mas envolvem também a forma como as relações, a gestão e a cultura impactam a saúde mental das pessoas.
Quando falamos de riscos físicos, geralmente conseguimos identificar, medir e evidenciar com clareza. Mas os riscos emocionais são invisíveis. Eles aparecem nos pequenos detalhes do cotidiano: na pressão constante, na ausência de escuta, na segurança psicológica, na sobrecarga naturalizada, na falta de reconhecimento e em relações de trabalho desgastantes.
O adoecimento emocional raramente começa em um único evento. Ele nasce no acúmulo silencioso de experiências que minam energia, pertencimento e segurança ao longo do tempo.
Nesse contexto, a NR-1 provoca uma mudança importante nas organizações: não basta apenas cumprir protocolos. É preciso construir ambientes emocionalmente saudáveis, onde a liderança, as relações e a cultura também sejam compreendidas como fatores de saúde e segurança.
O que pode potencializar este desconforto e o adoecimento são fatores como: pressão excessiva, metas irreais, falta de clareza, lideranças despreparadas e ambientes inseguros psicologicamente. Ou seja, não se trata apenas de processos. Trata-se de comportamento, cultura e, principalmente, liderança.
O risco invisível: líderes despreparados em um cenário que exige maturidade. Enfrentamos um grande desafio de gestão: temos líderes ocupando cargos de liderança, mas que ainda não aprenderam a liderar pessoas.
Há repertório para cobrança, para operação e para performance, mas pouco repertório para construir engajamento, segurança psicológica e relações saudáveis no trabalho.
Como provoca Simon Sinek: "Liderança não é sobre estar no comando. É sobre cuidar daqueles que estão sob sua responsabilidade." E talvez este seja um dos maiores alertas das organizações atuais: promovemos pessoas pela capacidade técnica, mas esperamos delas competências humanas que nunca foram ensinadas ou desenvolvidas.
Por mais que empresas construam políticas, programas e governança sobre saúde mental e cuidado, o bem-estar não acontece nos documentos. O bem-estar se constrói no cotidiano: na conversa difícil conduzida com respeito, na escuta genuína, na forma como metas são cobradas, nos espaços de confiança e pertencimento que são criados diariamente.
Timothy R. Clark reforça que segurança psicológica não significa conforto, mas sim criar ambientes onde as pessoas se sintam seguras para contribuir, errar, questionar e crescer sem medo de humilhação ou punição.
Sem isso, não existe inovação, aprendizado ou engajamento sustentável. Quando um líder não sabe identificar sobrecarga, ele perpetua o problema. Quando não sabe escutar, ele silencia o time. Quando não entende saúde emocional, ele transforma cobrança em adoecimento.
Engajamento não nasce de discursos inspiradores, campanhas internas ou frases motivacionais espalhadas pela empresa. Engajamento nasce da experiência cotidiana que as pessoas vivem com suas lideranças, na forma como são ouvidas, reconhecidas, desenvolvidas e cuidadas no dia a dia.
Compliance não substitui o papel da liderança. Existe um risco crescente de transformar a NR-1 em apenas mais uma obrigação burocrática corporativa. O perigo é que o mapeamento de riscos psicossociais vire somente um formulário preenchido, um checklist validado ou uma política bonita esquecida em alguma pasta institucional.
Mas saúde mental no trabalho não se resolve no papel. Ela se constrói ou se destrói no cotidiano. Na forma como a liderança cobra resultados. Na abertura real para diálogo. Na segurança para discordar, errar e pedir ajuda sem medo. Na coerência entre aquilo que a empresa comunica e aquilo que as pessoas efetivamente vivem.
Peter Drucker já alertava que "a cultura come a estratégia no café da manhã". E talvez possamos atualizar essa reflexão para o contexto atual: nenhuma política de saúde emocional sobrevive a uma cultura de medo, silenciamento e pressão constante.
Amy Edmondson reforça que ambientes emocionalmente seguros não surgem de discursos institucionais, mas da qualidade das relações construídas diariamente entre líderes e equipes. Sem segurança psicológica, pessoas não se posicionam, não inovam, não aprendem, apenas sobrevivem.
Se a NR-1 não provocar mudança de comportamento, maturidade de liderança e revisão das relações de trabalho, ela corre o risco de virar apenas conformidade estética: empresas dizendo que cuidam, enquanto as pessoas continuam adoecendo em silêncio.
Cumprir a norma exige mais do que adequação técnica. Exige transformação prática, desde desenvolvimento de líderes, não apenas gestores, tornar o tema parte da estratégia, revisão da cultura de pressão constante, até criar ambientes de segurança psicológica real.
Porque o maior risco psicossocial das organizações talvez não esteja apenas no excesso de trabalho, mas na incapacidade de perceber ou reconhecer o impacto humano da forma como o trabalho é conduzido, cobrado e sustentado diariamente.
Está na normalização do desgaste. Na cultura que glorifica exaustão como comprometimento. Na liderança que entrega resultado, mas deixa pessoas emocionalmente destruídas no caminho.
E no silêncio organizacional que trata sofrimento como fragilidade individual, quando muitas vezes ele é consequência direta do ambiente construído pela própria empresa.
É preciso ir além da conformidade. Claro que estar preparado, estruturado e organizado é importante. Mas a verdadeira transformação começa quando a organização deixa de perguntar apenas "estamos adequados?" e passa a questionar a qualidade real das relações que sustenta diariamente.
Amy Edmondson afirma que segurança psicológica não é um benefício organizacional, mas uma condição para aprendizado, inovação e saúde nas relações de trabalho. E isso não se constrói em campanhas institucionais. Se constrói nas micro interações do cotidiano.
No fim, a pergunta mais importante talvez seja: que tipo de comportamento nossa cultura recompensa, tolera ou normaliza diariamente? Porque ambientes psicologicamente seguros não nascem da ausência de pressão, mas da presença de confiança, respeito, escuta e humanidade nas relações. A NR-1 entra em vigor, mas o verdadeiro desafio começa agora e ele não é jurídico. É humano.
*Luiza Caixe Metzner é Diretora de RH da Paschoalotto.