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Juros elevados podem ser principal detrator da inovação brasileira

Ambiente de erro zero criado por altas taxas de juros impede ecossistema tecnológico competitivo, limitando apostas de risco no Brasil

Juros elevados no Brasil travam as iniciativas de capital de risco e o ecossistema de inovação (rudall30/Shutterstock)

Juros elevados no Brasil travam as iniciativas de capital de risco e o ecossistema de inovação (rudall30/Shutterstock)

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Publicado em 22 de julho de 2026 às 15h00.

Por Gustavo Ayala*

Em algum momento desta semana, um fundo de venture capital no Vale do Silício vai assinar um cheque para uma empresa que provavelmente vai quebrar. Os sócios sabem disso e investem mesmo assim.

Não é descuido, é o modelo: a maioria das apostas fracassa, mas basta uma compensar todas as demais. É um capital paciente com o erro. Um capital que conta com o erro.

Essa cena se repete com frequência nos Estados Unidos. No Brasil, ela é rara, e a explicação começa pelo preço do dinheiro.

A Nvidia vale hoje cerca de US$ 4,8 trilhões. A B3 inteira, somadas as mais de 300 empresas listadas, vale aproximadamente R$ 4,7 trilhões, o equivalente a cerca de US$ 870 bilhões.

Uma única empresa americana vale mais de cinco vezes todo o mercado acionário brasileiro.

O custo de errar

A raiz dessa diferença é simples. A Selic está em 14,25% ao ano e a taxa média de crédito para empresas supera 25%, segundo o Banco Central. A esse custo, errar se torna caro demais.

O país passa a operar em um ambiente de erro zero: uma economia em que todo projeto precisa dar certo na primeira tentativa. A aversão ao risco deixa de ser uma escolha e se transforma em obrigação.

Mas inovação pressupõe experimentar o que ainda não foi testado. Não existe cálculo preciso para algo verdadeiramente novo; aprende-se ajustando, corrigindo e, inevitavelmente, errando.

Juros elevados não impedem apenas o investimento. Eles tornam proibitivo justamente o processo de tentativa e aprendizado do qual a inovação depende.

Capital de risco não nasce por acaso

O preço do dinheiro, por si só, não explica tudo. A Europa convive há anos com juros baixos e também não produziu tantas empresas de tecnologia do porte das americanas. Falta, em muitos casos, uma cultura consolidada de tolerância ao risco.

Ainda assim, dinheiro barato continua sendo condição necessária. E o Brasil sequer dispõe dessa condição básica.

O resultado aparece na composição da própria economia. Entre as empresas mais valiosas da bolsa brasileira permanecem, há décadas, setores como commodities e bancos.

Não por acaso, são atividades cuja expansão depende muito menos de apostas tecnológicas de alto risco.

As poucas indústrias brasileiras que alcançaram a liderança global seguiram outro caminho: décadas de engenharia, reinvestimento e acesso a crédito de longo prazo, frequentemente apoiado por bancos públicos.

Essa estratégia funciona para empresas consolidadas, mas não substitui o capital de risco privado capaz de financiar dezenas de apostas, sabendo que a maioria não dará retorno.

Esse mercado também não surge espontaneamente. Quando aplicações financeiras oferecem rentabilidade elevada praticamente sem risco, há pouco incentivo para construir um portfólio baseado em inovação e incerteza.

Em diversos países, foi justamente a combinação entre políticas públicas e capital privado que criou esse ecossistema.

A arquitetura da inovação

Sem essas condições, empresas inovadoras tendem a buscar financiamento fora do país. O Nubank é o exemplo mais conhecido, mas está longe de ser o único.

Nas rodadas de crescimento, boa parte das startups brasileiras depende de investidores internacionais. Segundo o Distrito, cerca de 70% dos aportes em empresas em estágio de expansão vêm do exterior.

O topo de uma economia reflete sua arquitetura de financiamento. Onde o capital tolera o erro, o erro se transforma em aprendizado, e o aprendizado pode dar origem às empresas mais valiosas do mundo.

Onde prevalece um ambiente de erro zero, prospera sobretudo o que já está consolidado, enquanto a inovação busca outros mercados para crescer.

Mercados não são obras da natureza. São resultado de escolhas institucionais, regulatórias e econômicas.

E essas escolhas determinam não apenas quanto um país cresce, mas também quais empresas terão condições de nascer e permanecer nele.

*Gustavo Ayala é CEO do Grupo Bolt. Atua na liderança de estratégias inovadoras voltadas à transformação do setor energético, com ênfase em soluções sustentáveis, uso inteligente de dados e eficiência no consumo. O executivo é engenheiro eletricista pela PUC-Rio, com mestrado e doutorado em Pesquisa Operacional pela mesma instituição, mestre em Economia Matemática pelo IMPA e executivo formado pelo Harvard Business School.

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