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A receita recorrente pode solucionar os riscos de empreender em 2026?

Entenda como a previsibilidade de caixa se tornou condição para competir e absorver choques financeiros em um cenário de incertezas globais

Modelos de negócio com receita recorrente podem responder bem à instabilidade da economia (Priscila Zambotto/Getty Images)

Modelos de negócio com receita recorrente podem responder bem à instabilidade da economia (Priscila Zambotto/Getty Images)

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Publicado em 11 de fevereiro de 2026 às 17h00.

Por Luan Gabellini*

Em 2026, a instabilidade econômica deixou de ser pano de fundo e passou a orientar decisões estratégicas. Juros elevados por um período mais longo, tensões geopolíticas persistentes e um ambiente de negócios estruturalmente menos previsível fragilizaram modelos apoiados exclusivamente em vendas pontuais.

Assim, a consolidação da receita recorrente deixou de ser uma escolha tática ou um modismo importado do setor de tecnologia. Tornou-se uma resposta pragmática à necessidade de previsibilidade em um cenário onde o risco não é exceção, mas constante.

Quando a incerteza se prolonga, enxergar a receita futura deixa de ser conforto, passa a ser condição para competir.

O crescimento da economia de assinaturas

Os dados consolidados ao longo de 2025 ajudam a explicar por que esse movimento se acelerou.

Segundo a Dimension Market Research, a economia global de assinaturas encerrou o ano com cerca de 565 bilhões de dólares em movimentação.

  • Há projeções que superam 2 trilhões de dólares até 2034, sustentadas por um crescimento anual superior a 13%.

Esse avanço não se explica apenas por mudanças no comportamento do consumidor. Ele reflete, sobretudo, uma reconfiguração da lógica empresarial diante de um ambiente financeiro mais restritivo.

Vantagem competitiva e absorção de choques

Levantamentos da Swell, com base em séries históricas atualizadas em 2025, indicam que empresas estruturadas em receita recorrente cresceram, em média, 4,6 vezes mais rápido do que o índice S&P 500.

Este crescimento veio acompanhado de menor volatilidade ao longo dos ciclos econômicos.

Mais do que crescimento acelerado, esses números apontam para um fator central: capacidade de absorver choques.

Em um cenário de capital mais caro, reduzir a oscilação de caixa passa a ser tão relevante quanto ampliar faturamento.

Reorganização do risco e planejamento financeiro

O ponto central da recorrência não está na promessa de expansão contínua, mas na forma como ela reorganiza o risco.

Análises publicadas pelo Financial Times, a partir de dados de 2025, mostram que empresas com maior previsibilidade de receita conseguem planejar investimentos com mais antecedência.

Com isso, diminuem a dependência de crédito emergencial e atravessam ciclos de aperto monetário com mais fôlego.

Nesse contexto econômico, essa capacidade de antecipação se traduz em vantagem prática.

Quem conhece o caixa futuro decide antes; quem depende da próxima venda reage depois, geralmente em piores condições.

O exemplo do setor de tecnologia

O movimento observado no setor de tecnologia reforça essa leitura.

Reportagens do Financial Times revelaram que, ao longo de 2025, a OpenAI dobrou sua receita recorrente anual, alcançando cerca de 10 bilhões de dólares.

Esta expansão foi sustentada majoritariamente por contratos contínuos.

O dado chama atenção menos pelo volume e mais pela escolha estratégica.

Mesmo em um setor marcado por inovação acelerada e ciclos curtos de produto, a previsibilidade passou a ser a base do crescimento.

Escalar sem recorrência deixou de ser sinal de ousadia e passou a indicar vulnerabilidade.

Flexibilidade nos modelos de negócios contemporâneos

A crítica de que modelos de negócios recorrentes engessam a relação com o cliente também perdeu força.

O relatório State of Recurring Revenue and Monetization 2025, da Chargebee, aponta que mais da metade das empresas já opera com estruturas híbridas.

Essas estruturas combinam assinaturas, cobrança por uso e preços variáveis.

A recorrência contemporânea não impõe rigidez contratual; ela cria continuidade.

Permite ajustar valor ao longo do tempo, reduzir cancelamentos, ampliar o valor do cliente e preservar flexibilidade comercial, elementos essenciais em mercados instáveis.

Conclusão: a recorrência como poder de decisão

O avanço da receita recorrente não pode mais ser tratado como tendência setorial nem como discurso otimista em meio à instabilidade.

Ele reflete um ambiente econômico mais exigente, no qual erros custam mais caro e o improviso cobra seu preço.

Empresas que insistem apenas em vendas pontuais concentram todo o risco no futuro.

Em contrapartida, aquelas que constroem recorrência distribuem essa exposição ao longo do tempo.

Nesse novo ciclo econômico, previsibilidade deixa de ser narrativa e se consolida como poder efetivo de decisão.

*Luan Gabellini é CEO e Founder da Betalabs, plataforma SAAS (Software As a Service) pare e-commerce e vendas recorrentes e especialista em modelos de negócios recorrentes, automação comercial e gestão de receita recorrente previsível para empresas em transformação digital.

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