Os irmãos Anthony e Andherson, criadores da cafeteria sustentável Partícula Café e do projeto cultural Partícula Musical (Partícula Cultural/Divulgação)
Repórter Bússola
Publicado em 5 de março de 2026 às 13h01.
Última atualização em 5 de março de 2026 às 15h34.
O galpão industrial foi alugado com sucesso e logo seria reformado. Concreto queimado, janelões e plantas de todo o tipo dariam o tom da cafeteria sustentável que Andherson e Anthony idealizaram. Era o início de um sonho. Sete dias depois, a pandemia de convid-19 parou o mundo.
“Ficamos desesperados. A dona do ponto nos deu a escolha de sair sem pagar multa. Sabíamos que era arriscado, mas optamos por ficar”, contam. Decisão certa. Os irmãos, nascidos na Brasilândia, periferia na Zona Norte de SP, transformaram o que poderia ter sido um desastre em um negócio com faturamento anual de R$ 1,127 milhão.
Hoje o Partícula Café não é apenas um espaço alternativo e sustentável no bairro de Santana, também na Zona Norte. A cafeteria, que recebe cerca de 1100 clientes por mês e possui ticket médio de R$ 86,19, também funciona como estúdio de gravação para o projeto Partícula de Cultura.
Inspirado no famoso Tiny Desk da NPR, ele foi criado pelos especialistas em audiovisual para democratizar o acesso a produções de alto valor e para se tornar referência em gravações de apresentações ao vivo e revelação de novos artistas.
Sim, audiovisual. Anthony e Andherson Barcellos já tinham empreendido em um estúdio, mas não tinham experiência prévia com o food service. Os dois, amantes de arte e cultura, tinham uma visão. Para concretizá-la, precisaram descobrir como empreender no setor e conciliar o sonho com a realidade.
Do bolso, os dois irmãos investiram cerca de R$ 350 mil no Partícula Café, que a princípio foi batizado de “Quanti Café”. Andherson conta: “em certo ponto, paramos de contabilizar porque a pandemia já tinha dado um prejuízo de mais de R$ 70 mil por causa de fornecedores que ou faliram ou sumiram”.
Foi difícil, mas eles conseguiram manter os planos para colocar a cafeteria de pé. Eles conseguiram negociar a isenção do aluguel por dois meses, mas como a pandemia demorou a passar, precisaram acordar o pagamento de apenas 50% durante um semestre. Valia a pena porque o lugar escolhido era simbólico. Era próximo de onde os avós moravam e da região em que os dois passaram a vida toda.
Anthony e Andherson nasceram na Brasilândia, bairro periférico, filhos de mãe escriturária, que mais tarde se tornou professora, e pai segurança, que se aposentou por invalidez devido a um caso severo de esquizofrenia. Foi a realidade difícil que moldou o desejo de ambos de trabalhar com arte e cultura.
“A gente estudava longe e, às vezes, chegávamos de madrugada e tínhamos que nos esconder no mercadinho por conta de tiroteio”, diz Andherson. “E em casa, por causa da condição do nosso pai, a experiência era aterrorizante”, completa Anthony.
Desde pequenos, eles frequentavam a Legião da Boa Vontade (LBV), organização do terceiro setor que os garantiu a trajetória escolar. Aos 12 anos, começaram a ver na LBV a oportunidade de ficar mais tempo fora de casa. Assim, dedicaram-se inteiramente aos estudos do audiovisual.
Essa trajetória, e a influência de uma família de artistas, os inspirou a criar o Partícula Café para viabilizar o projeto Partícula Cultural. A ideia surgiu principalmente de um incômodo, da necessidade de causar impacto social como a LBV. Isso e trabalhar com o que amavam.
Eles sobreviveram à pandemia, mas o sonho, no entanto, mostrou-se mais desafiador do que esperavam, afinal, eles não tinham experiência no food service.
Foi o que a Isabela Raposeiras, criadora do Coffee Lab, me falou quando mostrei nosso primeiro cardápio durante minha especialização com ela. Na época, achei desnecessário. Hoje entendo que ela estava me dando perspectiva do que é empreender no Brasil. Tivemos que entender a relação entre o ideal e a realidade dos custos”, conta Andherson.
No Partícula não entram ultraprocessados, isto é certo. Mas, na ideia original, seria difícil entrar algum lucro. Os dois queriam um lugar aconchegante, com o conceito de cafeteria secreta famoso na Europa, com cardápio 100% orgânico e cadeia de suprimentos totalmente sustentável.
A exemplo, citam a ideia de parceria com a marca de sorvetes orgânicos L'Albero dei Gelati. Para que fosse viável, teriam de cobrar cerca de R$ 40 a bola. “Aí que entrou o embate sonho versus realidade. Decidimos encontrar um meio de campo, priorizando sustentabilidade em tudo que era essencial. Ainda somos considerados meio loucos no setor”, diz Anthony.
“Nenhum lugar que se vende como 100% sustentável realmente é”, diz Andherson, mas eles fazem questão de fazer o máximo. A cafeteria produz a própria manteiga ghee e queijo cremoso. Sal e açúcar refinado estão banidos do local. Eles ainda fazem coleta seletiva e, apesar das de plástico serem muito mais lucrativas, as garrafas de água vendidas são de vidro.
Em 26 de julho de 2022, o Partícula Café abriu as portas. Portas estas que são seguidas de um corredor repleto de trepadeiras que termina num espaço amplo, bem iluminado e cheirando a café artesanal. Na extremidade oposta, há um palco montado na forma de um sofá a nível da plateia, enquadrado por uma estante abarrotada de livros. Mas abrir era apenas o primeiro passo.
“As pessoas que estão nesse setor muitas vezes estão vivendo pela extrema sobrevivência. Nem sempre elas têm uma postura clara, transparente ou amigável. Nós, que viemos de um ambiente muito mais horizontal, tentamos aplicar a mesma estrutura e acabamos penando por isso”, Anthony conta sobre a experiência prática de gerenciar a cafeteria.
Os dois irmãos tiveram problemas com o ambiente de trabalho, muito por tentarem cultivar uma cultura de horizontalidade e parceria. Infelizmente, não tiveram sorte com alguns colaboradores e precisaram entender que, às vezes – mesmo que o ideal de um local de trabalho cooperativo seja admirável – a gestão vertical se faz necessária.
“Não sabíamos nada sobre liderança no setor de food service; e alguns se aproveitaram disso a um nível bizarro. A pessoa dizia, ‘em cafeteria é assim que acontece’, e eu acreditava. No fim, uma das lições que aprendemos foi que as pessoas, infelizmente, precisam estar numa dinâmica de hierarquia bem clara e no papel”.
Depois de cerca de dois anos anos se estabelecendo e aprendendo na prática, a trancos e barrancos, como empreender e ter sucesso com uma cafeteria, os dois irmãos acreditaram estar finalmente prontos para iniciar o projeto principal: o Partícula Cultural. Infelizmente esbarraram uma última questão.
O nome “Quanti Café” foi registrado durante a pandemia. Infelizmente, os dois ainda estavam no processo de aprendizado e cometeram um deslize, não conseguindo renovar o registro. O resultado: eles perderam a batalha pelo nome com outra cafeteria de título similar em outra região do país.
“Foi um luto. Já tínhamos toda a comunicação e o branding, mas acontece. Éramos iniciantes quando registramos. Mas no fim, foi para melhor, porque foi aí que unimos o nome do projeto cultural com o da cafeteria, criando um branding mais conciso”, conta Anthony.
E assim, em 2024, começou a primeira temporada do Partícula Cultural no Partícula Café. O projeto, que produz filmes curtos de música ao vivo, é ambicioso. São quatro temporadas, com intervalos de dois meses entre elas. As gravações totalizam:
É tudo gratuito, pois a cafeteria sustenta a iniciativa. Os artistas podem se inscrever, enviando materiais que são analisados por músicos e profissionais da área, parceiros dos irmãos. Para a segunda temporada, Anthony e Andherson planejam um sistema de voto popular, com o público escolhendo um entre três artistas toda semana.
Em três meses o Partícula Cultural alcançou 30 mil seguidores no Instagram e as visualizações no YouTube vão de 500 a 800 mil. “Começamos numa situação onde a gente não tinha condição efetiva para contratar pessoas ou alugar equipamento, então aproveitamos muito de amigos do audiovisual”, conta Andherson.
Hoje, as gravações têm nível de produção equiparável ao Tiny Desk da NPR, que inspirou o projeto. E há espaço para crescer e, sem dúvida, planos para tal.
O Partícula Cultural, que incentivou a criação da cafeteria, é o projeto que sacia os anseios mais profundos dos irmãos. Anthony e Andherson são, acima de tudo, artistas. Vivem pela arte e por outros que a fazem. Talvez por isso tenha dado certo apesar da trajetória desafiadora. É uma questão de dedicação.
“Eu quero ser cantor, ator, repórter, artista, pintor… eu falava que queria ser qualquer coisa que tivesse relação com arte”, diz Anthony. “E eu sempre fui muito imerso na literatura, criando mundos e histórias próprias”, completa Andherson. E para os dois, o projeto é uma forma de fazer o que sempre sonharam e devolver ao mundo toda sorte que receberam com projetos como os da LBV, que os permitiu chegar onde estão.
Para 2026, Anthony e Andherson procuram investidores e patrocinadores com interesse em projetos artísticos de impacto social. As metas deste ano incluem a transformação do Partícula Café em casa de shows acústicos, com música “que também não tem nada de ultraprocessado”, como definem seu estilo de produção. Junto a isso, também farão sessões de gravação abertas ao público.
Atualmente os dois fazem o trabalho por conta, gerenciando a cafeteria, fazendo roteiro, gravação, edição e tudo que envolve o projeto cultural. Uma vez capazes de expandir, pretendem elevar a cafeteria a nível de ponto turístico da região.
Os planos têm tudo para dar certo. Os irmãos do audiovisual, que nunca tinham empreendido no food service, conseguiram prosperar no setor e dar vida às suas ideias graças à persistência e à disposição para aprender.
“Você pode começar com uma direção, com uma bússola que te indica o um lugar de propósito. Mas precisa ter maleabilidade para chegar até lá”, diz Andherson.
“Sim, por mais clichê que seja, é preciso ter fé no amanhã e confiar no que acredita. Sem essa capacidade emocional você não consegue ter força para seguir fora da sua zona de conforto”, conclui Anthony.