Produção de ferro de alto teor com energias limpas surge como material estratégico na transição energética (Andriy Onufriyenko/Getty Images)
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Publicado em 6 de janeiro de 2026 às 10h00.
Por Guy Saxton*
Os mercados globais não estão apenas em um repique cíclico; estão marchando para um superciclo das commodities que deve perdurar por várias décadas.
Essa dinâmica representa uma profunda reprecificação de ativos físicos, ancorada em dois pilares estruturais: a aceleração da urbanização e a implacável exigência da descarbonização global.
Para o investidor que pensa adiante, a conjunção de fatores como demandas de longo prazo, investimento historicamente baixo na mineração e um ambiente regulatório favorável, cria uma oportunidade única.
As avaliações de minerais críticos e estratégicos permanecem desassociadas dos fundamentos, indicando um potencial claro de re-rating para quem alocar capital agora.
A distorção de valuation é evidente: mineradoras negociam a 0,9x a receita anual, enquanto as tech chegam a 8,9x.
Isso significa que a receita da mineração recebe apenas um décimo do múltiplo tecnológico, apesar de sua maior relevância estratégica e resiliência. Esse gap persistente sinaliza uma oportunidade de entrada para investidores de valor.
A discrepância de preço entre a mineração e o setor de tecnologia atingiu um ponto difícil de justificar.
Enquanto o valor de mercado combinado das maiores mineradoras do mundo em 2025 é de US$ 1,85 trilhão, menos de um oitavo do valor das cinco principais big techs americanas, as métricas de retorno de caixa contam uma história bem diferente.
As mineradoras apresentam um dividend yield médio de 5,45%, uma performance que beira o estrutural, se comparada ao exíguo 0,37% oferecido pelas gigantes de tecnologia.
No lado da receita, a distorção se aprofunda: as mineradoras negociam a 0,9× da receita anual, enquanto as empresas de tecnologia estão próximas de 8,9×.
Em suma, um dólar de receita de mineração é avaliado a apenas um décimo do múltiplo de um dólar de receita de tecnologia, apesar de seu perfil de receita superior e relevância estratégica.
Para quem busca valor e fluxos de caixa resilientes, este desconto persistente é o ponto de entrada.
Até 2050, 1,86 bilhão de pessoas adicionais migrarão para centros urbanos, o que deve disparar o consumo anual de aço para 2.500 milhões de toneladas e a demanda por cobre para 60 milhões de toneladas. Satisfazer essa expansão exige um aumento de 60% na extração global de materiais.
O problema está no lado da oferta. A qualidade do recurso está em declínio—o teor médio global de cobre caiu 42% desde 1991. Isso força os produtores a processar 44% mais minério para entregar a mesma quantidade de metal.
Pior, o tempo de desenvolvimento para uma nova grande mina excede 16 anos. Mesmo com os atuais gastos em exploração, a nova oferta não deve chegar ao mercado antes de meados dos anos 2030. Essas restrições estruturais sinalizam um período prolongado de escassez e consequente suporte de preços.
Dentro do espectro de minerais críticos, o ferro de alto teor (HBI e pellet, por exemplo), produzido com energias limpas, surge como um material estratégico.
Ele é capaz de reduzir as emissões da siderurgia em até 95%, tornando-se essencial para as cadeias de suprimentos de aço low-carbon.
Crucialmente, a demanda por esse insumo não é cíclica, mas sim ancorada em políticas governamentais. Grandes players, como a Microsoft na construção de seus data centers, já exigem aço com emissão próxima de zero, convertendo o ferro verde de um insumo básico para uma necessidade ditada por compliance.
A sustentação regulatória é inegável, e confere a esses ativos características de infraestrutura. Na Europa, o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM) impõe custos sobre importações de aço de alta emissão, conferindo aos produtos de baixa emissão uma vantagem estrutural de preço e proteção integrada contra a inflação.
Do lado americano, a Lei de Redução da Inflação (IRA) e a Lei de Produção para a Defesa (DPA) fornecem garantia de compra (offtake) em setores-chave e, em alguns casos, estabelecem preços mínimos. Óxidos de terras raras separadas, por exemplo, se beneficiam de um preço de referência de US$ 110/kg.
O resultado é que certos projetos de minerais críticos e estratégicos ganham um perfil de ativos quase-soberanos, com visibilidade mínima de receita.
Neste novo ambiente, a mineração oferece um perfil de risco-retorno mais previsível, apoiado pela demanda impulsionada por políticas e restrições de oferta de longo prazo.
Seu desempenho está menos ligado aos ciclos tradicionais de commodities e mais alinhado aos requisitos estruturais para eletrificação e expansão de infraestrutura.
A disparidade de avaliação dez vezes maior entre tecnologia e mineração, combinada com um crescimento de demanda mandatória e prêmios elevados por cadeias de suprimentos seguras nas regiões de Carajás e Salinas no Brasil, configura o setor como uma alocação central.
Os recursos não são mais uma cobertura periférica. Eles oferecem valor duradouro, proteção inflacionária e fluxos de caixa resilientes.
*Guy Saxton é presidente e cofundador da Brazil Iron, mineradora anglo-brasileira à frente do Projeto Ferro Verde. Com foco na produção de minério de alta pureza na Bahia, a companhia é peça-chave na estratégia de descarbonização da cadeia siderúrgica global.