Falta de saneamento básico tem favorecido a proliferação de escorpiões no Brasil. (
Colaboradora
Publicado em 28 de junho de 2026 às 08h07.
Se o maior escorpião da história dominava os oceanos com mais de um metro de comprimento, a variante que hoje impõe um desafio de saúde pública no Brasil cabe na palma da mão, e é letal. Apenas em 2025, o Brasil registrou 225.695 acidentes envolvendo o aracnídeo, resultando em 265 mortes.
O volume representa um salto de mais de 100% em relação às 126 fatalidades contabilizadas em 2024.
Os dados, consolidados pelo Instituto Butantan a partir do Painel Epidemiológico do Ministério da Saúde, evidenciam uma crise em escalada.
No país que abriga os fósseis do maior escorpião já documentado pela ciência, a ameaça contemporânea cresce em ritmo alarmante e, segundo as projeções, o pico do problema ainda está por vir.
Entre 2014 e 2023, o Brasil registrou 1,17 milhão de acidentes com escorpiões, um crescimento de 250% no período, segundo dados do Sinan, o Sistema de Informação de Agravos de Notificação do Ministério da Saúde, levantados pela Unesp e publicados em maio de 2025 no Jornal da Unesp.
Os escorpiões já respondem por 65% de todos os acidentes com animais peçonhentos registrados no país, segundo o Instituto Butantan. Mais do que serpentes, aranhas ou qualquer outro animal.
Uma projeção publicada em maio de 2025, baseada em modelo estatístico ARIMA desenvolvido pela Unesp, indica que o Brasil pode ultrapassar 270 mil casos anuais até 2033, caso as condições atuais se mantenham.
O protagonista dessa crise tem nome científico: Tityus serrulatus, conhecido popularmente como o escorpião amarelo. O animal não é o maior da espécie (são cerca de 8 centímetros) e nem é o mais chamativo, mas um dos o mais perigosos adaptável.
Por se reproduzir por partenogênese, ou seja, sem necessidade de machos, as fêmeas conseguem gerar uma colônia inteira com velocidade de proliferação muitas vezes incompatível com os ritmos de controle ambiental.
Mais do que isso, o escorpião amarelo se alimenta de baratas. E estas prosperam exatamente nos ambientes urbanos com saneamento precário, acúmulo de entulho e descarte irregular de lixo. Ou seja: o escorpião não invadiu a cidade. A cidade construiu o habitat perfeito para ele.
Sua letalidade esta no veneno que age no sistema nervoso e cardiovascular. Em adultos saudáveis, os sintomas costumam ser severos, mas raramente fatais. Em crianças abaixo de 10 anos, o quadro é diferente.
Mais de 20% das mortes por picada de escorpião registradas em 2025 envolveram crianças nessa faixa etária, segundo o Instituto Butantan. O menor corpo absorve a mesma quantidade de toxina em proporção muito maior, e o quadro pode evoluir rapidamente para parada cardiorrespiratória.
Um dos principais motivos para o aumento de casos de picadas é a urbanização desordenada.
O acúmulo de entulho de construção, fiação elétrica antiga, calçadas quebradas, bueiros sem manutenção criaram um cenário favorável para a proliferação e esconderijo do animal.
O saneamento básico é o elo mais crítico da cadeia. O lixo acumulado alimenta as baratas, as baratas alimentam os escorpiões.
Em municípios com coleta irregular ou sistemas de esgoto precários, o ciclo se retroalimenta sem interrupção.
O clima também pesa. Temperatura e precipitação são os fatores mais determinantes para a expansão das espécies, segundo análise do COSEMS/SP publicada em junho de 2025.
Invernos mais amenos e verões mais chuvosos, padrão que o Brasil tem registrado com mais frequência nas últimas décadas, favorecem a reprodução e o deslocamento dos escorpiões. O resultado é a migração para regiões onde o animal antes não era registrado.
Estados do Sul e do Centro-Oeste, historicamente com menor incidência, passaram a integrar os mapas epidemiológicos com frequência crescente nos últimos cinco anos.
São Paulo concentra o maior volume absoluto de casos. Em 2024, foram 42.054 registros só no estado, equivalente a 68% de todos os acidentes com animais peçonhentos paulistas, segundo dados do COSEMS/SP.
De acordo com os relatórios do Instituto Butantan e do IBGE, um dos motivos que transformam os ataques em problema de saúde pública é questão social. 55% das vítimas de picada de escorpião no Brasil se autodeclaram pardas. Entre as mortes, esse percentual sobe para 62%.
A correlação não é biológica. É geográfica e econômica. O escorpião amarelo vive onde há entulho, baratas e ausência de saneamento.
Esses são os mesmos endereços onde a moradia é mais precária, a coleta de lixo é irregular e o acesso ao serviço de saúde é mais lento.
Favelas, periferias e comunidades urbanas concentram tanto a presença do animal quanto a dificuldade de chegar a tempo ao atendimento.
O soro antiescorpiônico é gratuito no Sistema Único de Saúde. Mas está centralizado em unidades de referência que nem sempre ficam perto de onde as picadas acontecem.
A distância até o pronto-socorro pode ser a diferença entre a cura e a morte, especialmente em crianças pequenas, onde o veneno age mais rápido.
A Organização Mundial da Saúde reconhece o escorpionismo como Doença Tropical Negligenciada. A classificação é técnica, mas o significado é político: é uma doença que não mata quem tem recursos para se proteger.
Ao ser picado pelo animal, a primeira orientação é procurar imediatamente atendimento médico. O indicado é não aguardar a piora dos sintomas para procurar atendimento, especialmente se a vítima for uma criança.
O soro antiescorpiônico é oferecido gratuitamente pelo SUS e é altamente eficaz quando administrado a tempo. Não existe versão preventiva do soro, ele só é indicado em casos moderados ou graves, e a decisão de aplicá-lo é sempre do médico que avalia a vítima.
O que não deve ser feito:
Quanto à prevenção doméstica, pesticidas e dedetizações convencionais não funcionam em escorpiões.
O controle mais eficaz é ambiental: eliminar entulho, vedar frestas em paredes e rodapés, manter quintal e área de serviço limpos e controlar infestações de baratas, que são o principal alimento do animal.
Sacudir sapatos e roupas antes de usar é uma medida simples e eficaz. O escorpião não ataca: ele pica por reflexo de defesa quando se sente pressionado.
O animal que existia quando os continentes ainda eram um bloco único aprendeu a se adaptar a cada ambiente que o planeta criou ao longo de 415 milhões de anos. As cidades brasileiras são apenas o capítulo mais recente dessa história. Por isso, é difícil pensar em eliminiação completa do animal.