Lula e seu filho: Fábio Luís é alvo da CPMI por suposto envolvido com o esquema de desvios (NELSON ALMEIDA / AFP/Getty Images)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 28 de fevereiro de 2026 às 09h00.
A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS aprovou na última quinta-feira, 26, a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em meio a uma votação sob questionamento da base governista.
A medida integrou um pacote de 87 requerimentos analisados na 32ª reunião do colegiado, que apura fraudes e irregularidades na concessão de benefícios previdenciários.
A deliberação ocorreu em bloco e de forma simbólica, modelo em que os parlamentares contrários deveriam se manifestar fisicamente. O resultado oficial registrou sete votos contrários, mas a contagem gerou controvérsia e abriu um impasse regimental.
Após a aprovação do requerimento, o deputado Paulo Pimenta (PT-RS) apresentou questão de ordem com pedido para a Presidência da CPMI de anulação do resultado.
Solicito que anule o resultado por erro material da contagem. Nós vamos interpretar essa decisão como uma ação deliberada do senhor para fraudar o resultado da votação", disse durante o embate com o presidente da CPMI, o senador Carlos Viana (Podemos-MG). O pedido governista não foi atendido.
Diante do resultado, a base do presidente Lula passou a avaliar duas frentes de reação.
A primeira foi a possibilidade de recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF), instância máxima do Judiciário, para tentar invalidar a quebra de sigilo sob o argumento de vício no quórum e na condução da votação.
Aliados do governo discutiram a judicialização da decisão como forma de suspender os efeitos imediatos dos requerimentos.Paralelamente, governistas buscaram uma saída política dentro do próprio Congresso. Parlamentares se reuniram com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e pediram a anulação da votação.
Eles sustentaram que 14 parlamentares se posicionaram contra o pacote, mas apenas sete foram contabilizados pelo presidente da comissão, senador Carlos Viana (Podemos-MG).
Viana afirmou que considerou o quórum de 31 membros registrado na votação nominal anterior e declarou que, dentro do procedimento adotado, seriam necessários 16 votos para barrar os requerimentos.
Mesmo após admitir erro na contagem individual, manteve a validade do resultado e informou que já havia encaminhado os pedidos às autoridades competentes.
Alcolumbre informou, em nota, que orientou os governistas a protocolarem formalmente imagens e registros da sessão.
A análise deverá ocorrer com apoio da Advocacia do Senado, da Polícia Legislativa e da Secretaria-Geral da Mesa. Só após essa avaliação a Presidência da Casa deverá se manifestar sobre a regularidade da votação.
"Houve uma manipulação, prefiro não adjetivar e, portanto, não sei exatamente como esse imbróglio vai terminar", disse o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT), em entrevista à CNN.
Na CPMI, os deputados da oposição apuram se Lulinha teria atuado como sócio oculto de Antônio Antunes, conhecido como Careca do INSS, apontado como operador do esquema investigado. O objetivo é esclarecer possível participação e vínculos societários no contexto das suspeitas de irregularidades.
Segundo o relator da CPMI, o deputado Alfredo Gaspar (União-AL), mensagens interceptadas mostram que, ao ser questionado sobre o destinatário de um pagamento de R$ 300 mil à empresa de Roberta Luchsinger, o “Careca do INSS” teria respondido tratar‑se de “o filho do rapaz”, que poderia ser Lulinha.
O parlamentar afirma que a expressão poderia se referir a Lulinha. Também constaram nos autos movimentações de R$ 1,5 milhão entre empresas de investigados, sob justificativa de consultorias sem lastro econômico.
Além de Lulinha, a comissão aprovou quebras de sigilo de empresas e pessoas físicas suspeitas de atuar no esquema de descontos irregulares em benefícios do INSS. Entre os alvos esteve a empresária Danielle Miranda Fontelles, apontada nas investigações como operadora de estruturas no exterior para circulação internacional de recursos.
Também foi autorizada a quebra de sigilo de Gustavo Marques Gaspar, sócio da GM Gestão LTDA, para verificar a compatibilidade entre patrimônio e rendimentos declarados. A comissão aprovou ainda a convocação da diretora de Tecnologia da Informação do INSS, Léa Bressy Amorim, para prestar esclarecimentos sobre governança de sistemas e mecanismos de controle antifraude.
O episódio elevou a tensão política em Brasília e resultou em confronto físico entre parlamentares durante a sessão.
No plano institucional, o desfecho dependerá da análise do Senado e, se houver judicialização, do entendimento do STF sobre os limites regimentais da comissão.
Com informações da Agência O Globo.