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Lula e Flávio não participam hoje: por que os líderes das pesquisas estão evitando debates?

O presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro não devem comparecer ao debate da Band. Especialistas apontam para balança entre "custo de oportunidade" e impacto na democracia

Ausência em debates: tendência reduz situações em que candidatos são retirados da “zona de conforto” (Reprodução/Youtube/Band)

Ausência em debates: tendência reduz situações em que candidatos são retirados da “zona de conforto” (Reprodução/Youtube/Band)

Letícia Cassiano
Letícia Cassiano

Colaboradora

Publicado em 23 de agosto de 2026 às 08h00.

Última atualização em 23 de agosto de 2026 às 11h40.

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A ausência de candidatos que lideram as pesquisas nos debates começa a se tornar uma marca das eleições de 2026. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já avisou que não pretende participar de debates que, segundo ele, sirvam apenas para “ouvir bobagem”, enquanto seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL), condicionou sua presença à participação do petista.

Neste domingo, a Band realiza o primeiro debate presidencial. O encontro deve reunir Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo).

Nos estados, o movimento também apareceu na primeira rodada de debates: Sergio Moro (PL) desistiu de última hora de participar da edição no Paraná, enquanto Eduardo Paes (PSD), no Rio de Janeiro, Roberto Cidade (União Brasil), no Amazonas, e Daniel Vilela (MDB), em Goiás, também não compareceram aos primeiros confrontos.

Para a professora Maria do Socorro Sousa Braga, cientista política da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a lógica por trás das ausências é essencialmente eleitoral: para quem está na frente, o debate pode representar mais riscos do que oportunidades.

“Quem lidera a corrida eleitoral tem muito a perder e pouco a ganhar”, afirma à EXAME.

Segundo a cientista, o líder nas pesquisas já possui uma fatia relevante das intenções de voto e alta visibilidade. Se a participação oferece pouca margem para ampliar esse capital, qualquer deslize pode ter efeito negativo.

Rafael Cortez, cientista político e sócio da Tendências Consultoria, segue linha semelhante. Para ele, a decisão está relacionada ao “custo de oportunidade” de participar de um debate. Candidatos com vantagem consolidada ou distância expressiva dos adversários tendem a preservar o capital político em vez de se expor ao risco de um confronto.

Menos exposição, menos risco

Em uma campanha na qual os principais candidatos já são conhecidos do eleitorado, o cálculo é ainda mais relevante. Na avaliação de Maria do Socorro, a ausência protege o líder de gafes, ataques diretos e situações capazes de produzir repercussão negativa.

O problema é que a estratégia também pode gerar desgaste, ao transformar a cadeira vazia no alvo dos presentes.

“Adversários focam na ausência durante o tempo de fala no debate, rotulando o líder como arrogante, fraco ou despreparado para o confronto”, diz.

Apesar do risco, a tendência, segundo os especialistas, deve se repetir nos próximos debates. A professora avalia que a ausência de líderes tende a se intensificar caso o formato televisivo não seja modernizado. Para ela, debates mais dinâmicos e concentrados no confronto efetivo de propostas poderiam aumentar o incentivo à participação.

Em complemento, Cortez relaciona o fenômeno à transformação digital da comunicação política. Redes sociais, vídeos, podcasts e outros formatos permitem que os candidatos controlem melhor a mensagem e alcancem os públicos de interesse sem depender da arena tradicional da televisão.

“A possibilidade de novos recursos para comunicação política também questiona um pouco a presença central que se assume nos debates”, afirma.

A democracia perde

A consequência, porém, não é apenas sobre audiência ou estratégia de campanha. Para a professora, o esvaziamento dos debates “impacta o processo democrático de maneira profunda.” Na prática, a tendência reduz uma das poucas situações em que candidatos são retirados de sua “zona de conforto” e enfrentam cara a cara os adversários.

A ausência dos líderes afeta especialmente o eleitor indeciso, que perde uma oportunidade de comparar propostas e comportamentos lado a lado.

Cortez chama atenção para outro aspecto. Em sua visão, as eleições não se resumem a definir um vencedor, e deveriam permitir que o eleitor escolha entre diferentes plataformas e propostas de políticas públicas. “Não basta mais eleição pela eleição. É preciso representatividade”, afirma. Na avaliação do cientista político, a ausência dos debates dificulta justamente essa dimensão.

Outro efeito é o deslocamento do debate público para ambientes mais segmentados. Sem os grandes confrontos transmitidos pela televisão, parte da discussão migra para redes sociais, onde os candidatos falam apenas com seus próprios públicos. Para Maria do Socorro, isso pode aprofundar a formação de “bolhas” e reduzir a exposição de propostas alternativas ao eleitorado mais amplo.

Debates na TV

Pela Lei das Eleições, o convite para debates é garantido para candidatos de partidos ou federações com pelo menos cinco parlamentares no Congresso. Isso faz com que candidatos novos, muitos de fora da máquina pública, não tenham a oportunidade de expor suas ideias para o grande público.

Para Cortez, esse desenho cria um dilema entre ampliar a diversidade de participantes, recuperando parte da audiência perdida pela ausência dos favoritos, e preservar o formato padrão das emissoras. O risco para os veículos que promovem debates é a credibilidade.

Candidatos de partidos menores poderiam utilizar o espaço para apresentar propostas que ainda não alcançaram grande exposição, mas também podem adotar estratégias e falas heterodoxas para viralizar. Os especialistas concordam que muito dificilmente os modelos e filtros dos debates mudarão.

A professora também avalia que a tendência pode ser de redução do número de debates televisivos, com candidatos menores recorrendo cada vez mais a redes sociais, podcasts e sabatinas na internet.

De principal arena pública de confronto entre candidatos, os debates em horário nobre podem se tornar apenas uma das várias ferramentas de comunicação eleitoral e uma ferramenta que os favoritos podem decidir utilizar apenas quando enxergarem vantagem em fazê-lo.

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