Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência: senador acumula reveses, como a percepção pública de que ele é responsável pelo tarifaço dos EUA contra o Brasil, sua relação com Daniel Vorcaro e conflitos com Michelle (Vittor Sales/PL/Divulgação)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 16 de agosto de 2026 às 08h00.
Última atualização em 16 de agosto de 2026 às 09h18.
O episódio da filiação indevida de Flávio Bolsonaro ao Missão teve repercussão majoritariamente negativa para o senador nas redes sociais: 61,3% das publicações de formadores de opinião analisadas pela Datrix tiveram tom negativo, ante 17,6% de avaliações positivas.
O resultado levou o saldo de sentimento de Flávio a -43,7 pontos, segundo levantamento obtido com exclusividade pela EXAME.
O desempenho contrasta com o de Renan Santos, presidente do Missão e candidato à Presidência. Entre as publicações analisadas que tratavam dele, 42,8% foram positivas e 36,6% negativas, o que resultou em saldo de +6,2 pontos.
O indicador de sentimento líquido representa a diferença entre o percentual de publicações positivas e negativas.
Os dados mostram que o enquadramento negativo de Flávio não se concentrou na condição de vítima de uma filiação que afirma não ter autorizado. A principal narrativa crítica associou o episódio à dificuldade do pré-candidato de registrar a própria candidatura.
Esse argumento apareceu em 37,6% das publicações negativas sobre o senador e respondeu por 47,9% do engajamento negativo.
A dimensão da repercussão também foi relevante dentro da conversa geral sobre Flávio. Em 13 de agosto, a Datrix identificou 53.207 publicações relacionadas ao episódio, com 2,72 bilhões de impressões e 98,6 milhões de interações.
O caso respondeu por 35,2% de todas as publicações sobre Flávio Bolsonaro naquele dia e por 30,9% das interações associadas ao nome do senador. Nas impressões, que representam uma estimativa de alcance potencial e não visualizações verificadas, a participação chegou a 41,2%.
Na comparação com o dia anterior, o volume total de publicações sobre Flávio mais que dobrou. Foram 67.964 registros em 12 de agosto e 150.977 no dia 13, alta de 122,1%. Renan teve crescimento proporcional ainda maior, de 8.393 para 24.799 publicações, avanço de 195,5%.
O movimento não ocorreu entre os demais nomes monitorados pela Datrix. No mesmo período, as publicações sobre Lula recuaram 4,7%, enquanto Ronaldo Caiado e Romeu Zema tiveram quedas de 10,1% e 2,4%, respectivamente. A comparação considera toda a conversa sobre cada político e não atribui essas variações exclusivamente ao episódio.
A Datrix também comparou o sentimento associado especificamente ao episódio com a conversa mais ampla sobre Flávio em 13 de agosto.
Na conversa geral sobre o senador, o saldo de sentimento foi de -11,1 pontos. Quando consideradas apenas as publicações relacionadas à filiação, o indicador caiu para -42,5 pontos.
A repercussão específica do episódio ficou, portanto, 31,4 pontos percentuais mais negativa que a conversa geral sobre Flávio naquele mesmo dia.Uma das narrativas de maior engajamento surgiu após a reação do Missão. Publicações que reproduziram a versão de que Flávio teria simulado a própria filiação para se apresentar como vítima representaram apenas 11% dos conteúdos negativos, mas concentraram 43,9% do engajamento negativo.
A acusação foi apresentada por uma das partes envolvidas no episódio e não possui, segundo o levantamento, corroboração de nenhuma autoridade. Os dados da Datrix medem a circulação dessa narrativa nas redes e não comprovam seu conteúdo.
Outros conteúdos negativos usaram o episódio como ponto de partida para assuntos diferentes. Em 7% das publicações negativas, com 15,6% do engajamento desse grupo, a filiação apareceu associada a temas como Banco Master, patrimônio e a pós-graduação negada pela UFRJ. O deboche de adversários políticos respondeu por 10,2% dos conteúdos negativos.
Enquanto Flávio acumulava uma repercussão predominantemente negativa, Renan passou a ocupar mais espaço dentro da discussão sobre o caso.
No dia 13, publicações relacionadas ao episódio que também mencionavam Renan correspondiam a 18,3% do volume e a 16,6% das interações. Nos dados parciais do dia 14, a presença dele avançou para 35,4% das publicações.
Nas interações, o crescimento foi mais acentuado: 67,3% de todo o engajamento relacionado ao episódio no dia 14 estava em publicações que também mencionavam Renan.Os percentuais não funcionam como uma divisão exclusiva da conversa. Uma mesma publicação pode mencionar Flávio, Renan e Lula. A métrica indica qual parcela do conteúdo relacionado ao caso também cita cada personagem.
O avanço de Renan coincidiu com a contra-acusação feita pelo presidente do Missão na noite de 13 de agosto. Ele passou a contestar a versão de que Flávio seria simplesmente vítima e levantou a hipótese de que alguém ligado ao senador teria forjado a filiação. Novamente, trata-se de uma alegação de uma das partes, sem comprovação apontada pelo levantamento.
A análise da Datrix ajuda a explicar por que Renan terminou com saldo de sentimento levemente positivo. Em 72,9% das publicações positivas sobre ele, responsáveis por 83,8% do engajamento positivo, o presidente do Missão apareceu como quem denunciava o caso e apresentava elementos técnicos, como logs, registros de atividades realizadas em sistemas, endereços de IP e informações sobre o uso de e-mail institucional.
O desafio para uma acareação pública apareceu em 33,1% das publicações positivas. Outros 16,9% dos conteúdos positivos relacionaram a disputa à candidatura presidencial de Renan.
Isso não significa que a repercussão tenha sido amplamente favorável ao presidente do Missão. 36,6% das publicações sobre ele foram negativas. Dentro desse grupo, 47,2% destacaram que o registro indevido partiu de credenciais do próprio partido, narrativa que respondeu por 74,8% do engajamento negativo sobre Renan.
O saldo positivo de Renan está associado, segundo a análise da Datrix, ao papel de acusador que ele ocupou na conversa digital, e não a uma adesão generalizada à versão apresentada pelo Missão.A repercussão também mudou de assunto entre os dois primeiros dias analisados. A candidatura de Flávio perdeu espaço, enquanto o funcionamento do sistema de filiação partidária passou a ocupar uma parcela maior da discussão.
Em 13 de agosto, o registro da candidatura estava presente em 36,7% das publicações classificadas. Na amostra parcial de 14 de agosto, a proporção caiu para 8,9%.
No sentido contrário, as referências ao TSE passaram de 23,7% para 44,6%. As menções ao Sistema Filia, plataforma usada para administrar informações sobre filiações partidárias, avançaram de 0,7% para 7,9%.
Também aumentaram as referências a fraude em filiação, de 3,6% para 9,9%, e ao sistema eleitoral, de 0,5% para 3%.
Os números do dia 14 precisam ser lidos com cautela. A amostra de conteúdo era parcial, com 101 publicações classificadas, e mostra a direção observada pela Datrix até aquele momento, não um resultado consolidado do dia.
Os dados indicam que, depois da repercussão inicial sobre os efeitos da filiação para a candidatura de Flávio, a discussão passou a incluir como o registro indevido ocorreu e o funcionamento do sistema responsável pelas filiações partidárias.A mudança de foco também coincidiu com o aumento das referências a Lula dentro do universo de publicações relacionadas ao caso.
No primeiro dia, o presidente aparecia em 3,5% das publicações sobre o episódio e em 2,5% das interações. Nos dados parciais do dia seguinte, as proporções passaram para 14,4% das publicações e 30,7% das interações.
Segundo o levantamento, a entrada de Lula na conversa ocorreu principalmente após publicações destacarem que também houve uma tentativa de alteração de sua filiação, sem que ela fosse efetivada.
A presença do presidente ajudou a ampliar o debate para além da disputa entre Flávio e o Missão. O episódio passou a aparecer também em conteúdos sobre o funcionamento do sistema de filiação partidária.
A filiação de Flávio ao Missão apareceu no sistema de filiação partidária do TSE e foi identificada pela equipe do senador na manhã de 13 de agosto, durante a tentativa de registrar sua candidatura.
O Missão já tinha Renan Santos como candidato à Presidência. Após a identificação do vínculo, o partido apresentou inicialmente uma versão segundo a qual a filiação poderia ter sido feita anteriormente com dados incorretos. Depois, Renan questionou publicamente a versão apresentada pelo entorno de Flávio e afirmou que alguém teria agido de má-fé.
As acusações sobre a autoria e as circunstâncias do registro são versões das partes envolvidas. O levantamento da Datrix não apresenta elementos que permitam atribuir a responsabilidade pela filiação a nenhuma delas.
O TSE informou que não houve invasão do sistema. Segundo a Corte, houve uso indevido da ferramenta por alguém que possuía credenciais da legenda. O caso foi encaminhado para investigação.
O estudo da Datrix combinou monitoramento da repercussão digital com uma análise qualitativa de conteúdo.
A análise ampla considerou publicações públicas monitoradas em redes sociais e portais de notícias e mediu o número de publicações, impressões e interações relacionadas ao episódio, além da associação do caso aos principais nomes políticos.
A análise de conteúdo reuniu 1.390 publicações de perfis com 10 mil seguidores ou mais, entre imprensa, políticos e influenciadores. Desse conjunto, 1.388 publicações receberam classificação de tom. A mediana de seguidores dos perfis analisados supera 150 mil.
A amostra representa a repercussão entre formadores de opinião e não deve ser interpretada como pesquisa de opinião ou retrato do sentimento da população em geral.As impressões representam alcance potencial estimado, e não visualizações verificadas. As interações correspondem a ações como curtidas, comentários e compartilhamentos. Os dados de 14 de agosto são parciais.